Thursday, June 15, 2017

Saturday, May 27, 2017

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não existe modo
perfeito ou justo
para começar 
um poema
escrevo de forma seca
na língua-mãe
que ignorantemente
desconheço
falta-me o cheiro
o verde húmido
dos campos que sonhei
está longe o mar
foi-se a vontade
em poeira e vento
e o meu corpo
moído das cãibras
impregnado de xilitol
e menta barata
todo ele se envolve
e emaranha
de forma consentida
e (in)sensata
em papéis e metas
e prioridades alheias
ditadas por quem nada sabe
do amor claro e inquieto
das coisas simples
do silêncio são
e imperfeito
que é nesta manhã
despovoada e doce

Saturday, May 13, 2017

Sunday, April 30, 2017

~

Morreste amor nos caminhos conturbados da vida. Fomos alvo, somos vespas cambiantes entre solidões e defesas frondosas. Não encanta a nova poesia nossa. Falta-lhe o suor nos mastros. Somos todo cristalino, crisálidas uivantes nas noites caladas. Quis-te, quimera alada pelo luar sem fim da noite clara. Foste sopro musculado, música vacilante entre espaços de mágoa. Vieste com o fruto-mar, desavesso e errante, e foste logo contradição. Porque tudo é cá dentro, toda a força que não fala, todo o sentir que se não diz. Foste vida no campo denso da falha, esgar contido na felicidade impossível. Porque ao lado nosso existiu o acaso leso, a parábola derradeira do sentir, a tristeza esgueirada pelo vácuo imenso da planície perturbada. E de tudo isso, de toda a inconsistência que fomos, houve ainda a força, aquele nosso motivo maior, a causa por que corremos sem fim, esta saudade imensa (que é saudade porque longe), o teu rosto-sombra que nada disse, a distância curta do nosso entendimento. De tudo aquilo ficou este amar, velho e só.

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O tempo ia caindo, esmurrado e esguio, naquela tarde em que sentados no chão, nos demos tarde e já sem fim. Nada começou naquele princípio denso. Nada para além do que fui eu só. Mas a música foi levando e trazendo os restos de nós, de mim que fiquei sem onde. Era Lisboa, aquela que já não me existe. Era a tarde rebolando rua abaixo, rua acelerada, rua movimento, rua catadupa, de pessoas e casas desfocadas. Éramos ali em ponto morto, sem futuro. Não sei, não sei mesmo em que ponto fiquei. Sei que estou longe, áziga, distante do princípio de tudo, voltada de costas para a brisa fresca da manhã. Não sei porque acredito no amor, na amizade, na distorção que faço das coisas, que são apenas coisas. Procuro na intransigência da verdade o abraço que me falha, abraço prolongado, prolongamento de nós. Depois, depois fica a saudade, este agora que me custa e não passa. Como quando subia a calçada do lavra e o meu corpo de madeira e corda era na  glória que  se erguia. Subi a colina errada, manhã cedo, cansada e sem saber porquê, como agora. Deu-me o tempo a alternativa, que não guardei. Deu-me o tempo a forma amarga e triste de partir, mas não tive como. Enganei-me outra e outra vez, espetei-me, imprudente, contra as paredes que me prenderam, que me cercaram no intervalo das cores, dos aromas, da luz que em mim foi vontade de viver. Mas tudo me é prontamente inacessível, tudo me é presenteado a contragosto, mesmo o teu nome, a nomeação da tua falta. Não há vida justificável ante o sofrimento, depois da consciência clara de que não existem manhãs universais, nem torradas quentes para todos. A vida é isto mesmo, uma contradição consentida, um estar bem no normal recalcamento e escusa. Sorrir é esquecer a desigualdade, a forma assimétrica e grosseira, a matemática original, a imperfeição​ primeira que somos, do alto desta torre de menagem arenosa e lábil. 

Sunday, March 5, 2017

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Vai-se vivendo entre gente. Os lugares estão todos ocupados, nos cafés, nas lojas, nos bancos frente às lojas de gelados. Serve-se sempre um cafezinho por aqui e por ali. Até escrever sobre o momento ficou mais fácil, seja num telemóvel, seja num computador armadilhado com corretor ortográfico. Piora sempre um pouco, é certo, quando nos corrige palavras às quais se comeram letras, ou quando somos coagidos a aceitar tal transformação incorreta, in-co-rre-()-ta, sob pena daquele tracejar ziguezagueado vermelho nos vir a afetar o discernimento.

Infelizmente somos muito fracos e o tempo é muito curto para nos dedicarmos a tais contendas reivindicativas, ditas fora do plano e objetivos vigentes. Ser diferente, tentar sê-lo, dá ocupação, mas tira trabalho, e é preciso comer. Gostava tanto que o meu instinto de sobrevivência fosse tão laxo quanto o meu querer estar nesta vida diária. Mas os circuitos divergem algures na nossa cabeça e as águas separam-se a ponto de nos tornarmos autómatos do paradoxo, incoerentes, como o tal sentido de justiça, de uma justiça que se afigura com tino e verosimilhança, mas que não existe além dos manuais da jurisprudência, tal como o nome indica, dos manuais, tão somente.  

Hoje está tudo cheio. Até os passeios estão cheios de malta, de putos fumegantes passando o tempo sobre rodas de skate e charros e garrafas de vodka ou absinto. Sim, porque a Lisboa do Cesário ainda vive a absinto e luzes toscas e oleosidades estranhas.

Mas voltando ao atolamento das ruas, das casas, das famílias, que sempre questionam quando voltamos para casa e não conseguimos esboçar um sorriso, proferir um cumprimento que seja de acordo com o amor e tolerância que por nós têm aqueles que nos amam e que amamos, ou que vamos amando dentro do possível, mas regressando a este atolamento comportamental, errado e feio e displicente, sobrevém a dormência, este estado de anestesia em que vivo, esta aceitação atormentada e incómoda que se perpetua, de dia em dia, de pedaço  em pedaço do tempo que passa.

E nem nos exemplos extremos, nem nas mãos cansadas do trabalho, de levarem pancada, nem na fome, nem na solidão dos outros, se afasta esta angústia egoísta, esta tristeza perene, quando a vida nem tem sido assim tão má.

Sinto-me a pior pessoa do mundo, é um facto, sinto-me longe dos propósitos primordiais, coloco-me à margem da partilha, da aceitação dos pares. Na realidade, violo todas as leis que considero justas e salutares. Porque a ânsia, que teima e persiste, a angústia sempre presente, a sensação eminente de perda, a saudade latente das coisas que foram más, mas que foram, a sensação de seguir no caminho errado, a superação de mim que a mim imponho, o não aceitar que a vida é mesmo isto e só.

Resvalo assim, faminta e triste, por estas ruas cheias, preenchidas de vazios como o meu, de silêncios que se extinguem em sorrisos e abraços e gelados e crepes e copos de três ou quatro ou nem sei já. Resvalo só no aconchego gelado do desespero apaziguado, da gente que sorri. 

Sunday, February 19, 2017