Sunday, November 19, 2017

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porque além 
de tudo 
o que nos pesa

porque além 
de tudo aquilo 
que nos obriga a

além do pensamento 
que não passa
das horas
de solidão primeira

porque além 
do mar sem fim

há um vazio 
profundo e cheio 
de esperança

.

porque atrás
do silêncio 
há o olhar nosso
pedinte e pronto

e no final
um ponto 
convergente
a todos nós
inquiridores 
da vida desigual
e sem critério 

da justiça
ausente
despontada
a cada silêncio 
maior
a cada sentir
mais lêvedo 
a cada perda
a cada amanhã
assaz frágil 
e incerto

.

porque além
de nós
existe o sonho 
que nos espera
sereno e doce

aquela memória
distante
eluente
do turbilhão 
denso e voraz
que nos engole
e demencia

.

porque além 
da vida
existe o viver
insatisfeito
e nele o abraço
imperioso 
que nos falha
na saudade

[...]


Novembro 2017

~


Saturday, October 28, 2017

~

não consigo sentir
não consigo chegar
a ti
meu desejo antigo
mudo-me inconstante
sem sentido
de ali para sem onde
por esta terra seca
e lábil
inerte e só

já nem a noite
nem a lua-mar
me trazem a brisa
viva
de outros tempos
nem os lugares
que vivemos
eu e tu
meu velho peito
vazio aberto

nem a música
nem o calor brando
das noites
de poesia
nem o frio
que escasseia
neste outono
por demais claro
e rasgado à vida
que é escassa
e frágil

não há abraço
que me abrace
neste sonho
desavindo
neste querer infinito
e vago
que se não mostra
e não explica
neste projecto
que se vai gastando
em condicionalismos
ambiciosos
absurdos

tudo é denso
e transitório
o mundo pesa
tanto
sempre com pressa
sempre com um objectivo
a mais na calha
sempre com um sempre
a mais no sempre
que se não cumpre

não consigo ser
neste hoje
angustiado
mal começa o dia
e o amanhã se apronta
obsessivo
clástico

não consigo encontrar
nesta amálgama
selvática e viril
nesga de água
fresca
brilhando ao céu
profundo
de estrelas e sóis
ardente

não consigo
ver-te assim
reflexo meu
convexo
debruçado
sobre a sombra
inconspícua
da acção
inconsequente e bela
que demora horas
e dias
e anos
existindo simples
na engrenagem
intrínseca e infinita
e indemonstrável
da verdade
despojada

não consigo amar
não consigo sorrir
além do contexto da dor
que passa
da mão que nos aperta
apertadamente
do olhar que nos não foge
e que só ele entende
o nosso igual olhar
desprotegido e só

[proémio
do verbo falado
das palavras duras
que não precisamos
de dizer
nem a eles
nem a nós]

não sei o que dizer
de tudo isto
que é a vida possível
a vida que nem o pão
nem o vinho
enternecem
a vida que é só uma
e para nós tantas vidas
que são uma e uma só
lutando sem defesa
no leito da descrença
da exaustão
da falta de ideias e recursos
e conhecimento
da coragem

(...)

Tuesday, September 12, 2017

~




remar

setembro 2017


 ~

Falta-me a força para caminhar. Tremem as pernas, a cabeça. Na transição para o piso há um torpor que se interpõe entre o meu corpo e a terra. Não é inverno nem verão, aqui. Não é calma nem revolta. Não é silêncio nem estrondo. Burburinho, talvez. 
Passados tantos anos de para aqui vir, há uma estranheza residente, um querer inconstante, uma dúvida persistente. Atrás, o pano da esperança. É Setembro. Está na hora de acabarem as férias. Aproximam-se as aulas, os livros, os cadernos frescos, as folhas de papel, o cheiro a novo dos livros, acabados de comprar.

A praia, o sal impregnado no cabelo, os gelados, as pulseiras de couro, as horas mortas de calor, o corpo estafado de nadar. Contra as ondas, o teu rosto, que foi meu, o dever cumprido, a ordem, a descontracção merecida, depostas as horas de marranço inconsequente.
Mais vale parecer do que ser. Mais vale a ordem cega do que a consciência do nada que somos. Porque quando as ondas brilhavam e o teu, meu, rosto repousava sobre a água, e os olhos se fechavam à passagem da brisa quente, nada mais existia senão aquela sensação rara e impossível de paz, de harmonia, de estar bem com a vida e com o mundo.

Mas o presente é duro. Porque tudo passa, e até a paz cansa e decai. Há uma altura, que não sei precisar, em que nada do que passou faz sentido, em que o estar bem de outrora se revela ilusão, em que é impossível estar bem quando por dentro há uma tristeza perene e densa.

O aqui e agora é estranho, quando dentro de nós há uma memória assertiva e constante que nos traz à lembrança a desigualdade, o precipício de outras gentes, a reclusão de outros corpos, de outros sentires, de outras inquietações, irmãs na perda e na descrença.

O tempo passa muito depressa. A agonia não. E por mais que me esforce, por mais que procuremos agir de forma consentânea com os papéis que nos foram atribuídos, a fragilidade é grande, e a incapacidade para separar as águas monopoliza tudo e a cada instante. 

Não estou aqui senão por ti. E no entanto, por mais que o esteja, desejo sempre estar noutro lugar, longe.

Preciso de voltar a ler, de estudar, de encontrar desesperadamente uma explicação, uma solução, um plano terapêutico que te ponha bem. Espero sempre encontrar uma publicação miraculosa, um sonho tornado número, um preparado tornado referência. Mas infelizmente, e por mais que o desejemos, há limites, há barreiras intransponíveis, há desconhecimento, muito desconhecimento.

E nem por ti, nem pelo teu bem consigo sair deste marasmo. Desta relutância. Deste engenho precário que encontrei - fugir. Fugir dos outros, dos lugares que foram nossos, da consciência de tudo isso, das pessoas que amo, da vida.

Não sei como terminar esta contenda. Por vezes o álcool, por vezes a chuva que embala, o fumo de um cigarro, que aspiro sôfrega ao ar frio do final do dia. Não sei para onde iremos assim, mas iremos, seguramente que iremos, pois não nos resta outra alternativa senão ir continuando a comer, a respirar, a encontrar motivos e perguntas e necessidades e planos e projectos sem destino.

A vida tem tanto de milagre como de desespero. Erguemo-nos sem vontade, conduzimos freneticamente para não nos atrasarmos para o trabalho, ultrajando-o, porém, sobre todas as formas e perspectivas. 

Caminhamos a custo para um dia que se sabe pesado e grande. Mas durante o dia, quando confrontados com gente como nós, a angústia dilui-se pela necessidade absoluta da concretização. E as horas e os dias passam, bem ou mal, passam. No final, ocorre por vezes aquele momento em que sentimos que a missão foi cumprida. Dura pouco, algumas horas, até que um novo dia se inicia e tudo recomeça, outra e outra e outra vez.

Quando paramos e pensamos no que foi feito, sobrevém o que ficou por fazer, por dizer. A vida, a nossa vida própria, que subjugamos, que deixamos sempre para trás. 

Neste espelho, nesta casa, já fui tantas pessoas diferentes, na continuidade do que fui e sou. Já amei, já sonhei, já acreditei no mundo e nos homens, já fui feliz e triste e insatisfeita. Mas tudo isso foi passado, pois é no passado, perspectivando-o, que somos sempre qualquer coisa. E é assim sempre, por mais que se não acredite, por mais que seja o vazio presente.

Longe caminho, este, por que passamos sós. Despido corpo, o nosso, que se reveste de recordações e memórias. Pretensioso sonhar que germina e freme, ainda, no seio de todas as desilusões. 

Sonhar é tudo o que me resta, é sentir primeiro, força vital que me desperta. Porque a vida é uma só, esta, e tu és tu só porque nela, e ela é vida porque tu és nela, na abstracta presença que és.

Vivemos de amar o próximo. Sentir é ter a consciência plena dessa falha.

Sunday, August 13, 2017

Saturday, August 12, 2017

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Danço. Danças. E a música é lenço branco voando. E a noite é fumo, fumo que arde, inconsequente e férreo, veloz, voraz. É sede e força que se abraçam. É sombra e voz que se ligam, imaginação imperfeita dos corpos que não existem. Suor, suor frio e quente, toque, toque leve e envergonhado. Corre, que o presente não suporta a nossa dor. Quebra a luz, entra na escuridão luminescente do álcool, vem comigo, partamos ao meio a fatia de solidão que nos calhou, choremos juntos a verdade que a embriaguez consola. Porque o presente é insuportável e não ouve ninguém. Queremos o bem do mundo, tão só o bem simples do mundo, mas somos sempre em falha, passageiros sem bilhete, multa imperativa, tristeza magoada que se afunda e nos afunda, sempre mais e mais. Madeira é a que cheira este estrado em que me deito e estico, tabaco impregnado de tempo, olho turco que espelhando-me a ti espelha, coisa sem sombra que sou, que somos, vapor, vapor sem lembrança. Voz ao fundo, música de fundo lento, sala onde dançamos, de cabelos e braços desnudados, sombras, vultos perdidos e soltos, liberdade que só o vento, muito vento, nos traz. Assim vagueamos pela noite, pelas noites das memórias vagas. Sentir vibrante, como te quero. Porque o amor não se basta e o amar concreto é horizonte que se não revela. Suor, calor, alma em partilha contínua. Fazes-me falta e não sabes, nem da falta que me fazes, nem de mim. Nem de mim… Do eu, que sou e mais não posso. Não posso gritar mais pelo que não existe, por ti. Há coisas e palavras que se não ouvem na confusão dos dias secos. Pudéssemos ao menos dizer a todos os cantos e recantos e recortes como o amor é denso e mudo e belo. Pudéssemos quebrar toda a distância. Pudesse eu fazê-lo por nós, por mim, por ti só. Mas o astro da convenção, do como deve de ser, arrasa-nos com desculpas e medos infundados. Tenho a mim e ao dia estafado de tanto amar em perda.   

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Manhã. Noite. Manhã, noite, noite, manhã. O dia é sempre igual à noite. Neste lugar. Aqui, onde o tempo não passa. Onde a solidão das máquinas, o rubor das luzes, o gás vesicante das balas, se não calam. Onde os teus olhos, os teus olhos sós, baços de sofrer, ardentes de tantos silêncios e pausas e evicções, emudecem os corações que passam sem parar. Porque o teu corpo, grande, braçudo, maciço. Porque o teu corpo tropeçou no embaraço da força cadente. Porque a tua força ficou ausente sem que assim quisesses. Porque a tua vontade foi vencida. Porque não pudeste dizer sim ou não. Porque o vazio que deixaste cedo se fechou. Assim partiste. Tão perto da verdade que temias. Tão silente, para que ninguém soubesse. Partiste sem deixar rasto, partiste como chegaste, levando contigo tudo aquilo que trazias – nada. Porém muito deixaste, acredita, deixaste, e como dói o que ficou. Como dói a incapacidade, a crueldade, a esperança imodesta e falsa que te dei, o aperto de mãos que trocámos naquela manhã, na manhã que não foi noite, nem manhã, nem nunca mais além do momento, daquele momento, daquele rasgo de luminosidade pérfida e fugaz. Desculpa, desculpa-me se te magoei demais. 

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