Sunday, February 17, 2008



Procuro-te
Ausência
Pelas ruas e prédios
Desnudados
Silêncio que requebra
O meu corpo
Já toldado

E na luz perfídia

Que ilumina esta cidade

Resvalam ósculos

Que se extinguem

Na sombra

Quando passo

Amo em silêncio

O mar fremente

E finjo estar só

Nesta noite

Em que te sinto

Solidão atroz.

Arripiado

Pressinto nas palavras o lúgubre silêncio de um mudo. Conseguisse eu falar, soubesse eu codificar de forma estruturada a causa desta insónia que fragiliza o meu sono. Há muito que não escrevia, julgo que perdi a capacidade de transpor para o papel qualquer ideia que ultrapasse o mero rigor teórico-científico. A fluidez com que outrora manuseava a caneta ou premia as teclas do computador esgotou-se em mim, comigo.O vento sopra lá fora, ainda quente. Tudo dorme, pelo menos no raio mais próximo. A música acompanha-me nesta viagem pela escrita, serena, bela. Ouço a sonata ao luar de Beethoven e reconheço nela uma beleza tão antiga quanto a minha (nossa) existência. Na intimidade da noite, sigo as notas do piano. Calma, consentida pelo meu espírito agitado que corre apressado na incessante busca do silêncio melódico do campo, da maresiada brisa do Sul, do gélido Inverno a Norte. Ah, como anseio por um pouco de ar.
Percorro os quatro cantos do meu quarto, da cidade, e não encontro neles qualquer saída. O fumo infiltra-se no meu corpo insuflado e o espaço exíguo que me cerca esvai-se a cada segundo que passa. Apenas a guitarra compensa esta asfixia constante. Mesmo que soltas e sem nexo, encontro nas notas um caminho para o indizível. O som vibra nos meus dedos e eis que uma amálgama de emoções escoa pelos meus braços e depois por todo o meu corpo. Sinto-me leve e despojada, renunciando a tudo o que existe para além de mim e de um simples objecto que no mais subtil dos harpejos ganha vida.
Dizia Vergílio Ferreira em Estrela Polar que "Não se Ama uma Pedra. Amar é reconhecer nos outros um ser misterioso, e não um objecto (…) Aqueles que não amamos nem odiamos são nítidos como uma pedra. Sentir neles uma pessoa é começar a amar ou a odiá-los. Só amamos ou odiamos quem é vivo para nós." Apesar de verosímeis (sobretudo no contexto da obra), reconheço nestas palavras a minha mísera condição de amar um objecto, tão misterioso quanto mais o conheço e tão vivo quanto mais o amo.Quando percorro as ruas ou viajo em transportes públicos procuro compensar a minha solidão tentando desvendar os pensamentos daqueles que, também solitários, se sentam ou passam por mim. Bem sei que não sou dotada de poderes premonitórios nem tão pouco telepáticos, contudo apraz-me tentar desvendar o seu nome, a sua vida, os sentimentos e pensamentos que vibram naquele preciso instante. Apesar de tais tentativas, a minha curiosidade e interesse cedo desvanecem. De repente, o intermitente e irritante mascar da pastilha elástica, já seca, sem sabor, o roer ruminante das unhas e os embrutecedores estalidos dos nós dos dedos transfiguram o semblante daqueles que me acompanham, de mim própria. O Homem torna-se num verdadeiro objecto, grotesco e insignificante como as pedras da calçada que pisamos ou como os pacotes de cigarros e os filtros que se amontoam pela orla dos passeios.Tem sido particularmente difícil assumir uma existência embrutecida impregnada por um espírito eminentemente vivo. Se por um lado sinto uma vontade enorme de dar a vida em prol do bem estar dos meus companheiros de viagem, por outro sinto que é uma luta inglória e que apenas trará sofrimento e agruras. Sei que prevalecerá para sempre o objectivo primário de contrariar a morbilidade e sofrimento, contudo os riscos inerentes a essa missão fazem germinar um sentimento relutante. Será que vale a pena lutar e dar a vida pelo próximo? Poderá até nem valer, porém, com que direito ousamos julgar-nos superiores a ponto de centrarmos a existência somente na nossa vida e na daqueles que amamos?
Chegamos então a uma encruzilhada. Amamos nós os doentes, pessoas desconhecidas, pedras? Ou limitamo-nos a tratar de doenças somente porque amamos a vida ou porque no fundo da nossa essência existe algo desconhecido que nos impele a tal anseio pela cura e manutenção da espécie?
Ao longo dos anos de curso e de extensas horas de espera pelos corredores dos hospitais instalou-se em mim a dúvida – será que vale a pena? Embora seja uma questão pertinente, a resposta surge em mim como um verdadeiro axioma – vale! As constantes desilusões que sinto ao escutar as maledicências entre colegas que ecoam pelos corredores e pelos cubículos onde os “mestres” confortavelmente se instalam, a demissão do ensino por parte dos senhores doutores, a irresponsabilidade por parte de muitos doentes, a constante competição e luta pelo maior número de actos cirúrgicos, entre tantas outras contrariedades que me afligem e com as quais me vou deparar no futuro, não são suficientes para demover do espírito humano (sobretudo daqueles que escolheram a medicina para profissão) o instinto de sobrevivência em si impregnado desde as origens.
É desse instinto que surge a força que nos impele a amar um doente como uma pedra ou a sentir por uma pedra o amor que resplandece daqueles que amamos com toda a intensidade da vida. O caminho que já percorremos e o limiar ténue que nos separa do abismo que é a nossa condição de estagiários não é fácil. Penso que grande parte de nós já se sentiu (ou sentir-se-á) perdida nalgum ponto do seu percurso. Porém, quando a dúvida surge, há que apaziguar as interrogações e seguir de forma “irracional”, diria mesmo, puramente “animal”, esta dádiva enorme que é poder ajudar o próximo.
Este texto pode parecer despropositado e desconexo. Apesar disso, penso que vale a pena relembrar que ser médico vai além da indumentária estetoscópica. Ainda que as duvidas existenciais interpelem as nossas certezas, ainda que os problemas pessoais e quotidianos possam causar alguma instabilidade, é impreterível manter a frieza terna e complacente. Acima de qualquer amor, ódio ou instinto humano devemos ser realmente bons naquilo que fazemos, assumindo de forma consciente e honesta a inigualável e importante missão que nos foi concedida. Lutemos pela Vida.


"Sê"


Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.


Pablo Neruda

A brisa gélida perpassa a janela semicerrada. Está um frio seco lá fora e o meu corpo bramante reclama pelo aconchego do edredão. Para trás deixo longas horas de espera, corredores atolados, horas infindáveis em que me perco e nada faço, comboio, metro, cansaço.Quando um dia completar o curso lembrar-me-ei destas manhãs heróicas de desprezo e tédio. Ainda que procure não colocar as mãos nos bolsos, sinto-me inútil e ignorada ao passar pelas portas dos quartos. Trata-se de uma espécie de passeio matinal, entremeado por uma ou outra ida à cafetaria. A Drª corre pelos corredores olhando para o chão. Dos seus contornos lânguidos, apenas se destacam os caracóis irregulares pendentes de uma plataforma viscosa e as pontas das botas que berram a cada passo frenético.O curso de medicina (sim, aquele curso cuja admissão exige altíssimas classificações) é melismático – muita música, o mesmo discurso. Nada se move. Tudo permanece estático e silencioso, numa falsa harmonia e paz. Os estudantes perdem-se pelos corredores e os tutores, os mestres orientadores, deixam-nos passar. O saber, aquela virtude que exige desafios e encaminhamento, não chega a brotar nas nossas mentes tão “brilhantes”.Volto à noite. A esta noite. Finalmente encontrei o conforto do lar. As luzes estão apagadas, permanecendo apenas o verde luminescente das constelações que desenhei no tecto do meu quarto. Tomara que fossem verdadeiras estrelas, estas que incessantemente me olham e nas quais deposito o meu olhar ébrio. Ouço poesia acompanhada pela música de Jorge Palma. São poemas de Abril, gritos revoltos de coragem sublimados pela melodia nostálgica de um músico, de uma voz que canta o canto dos poetas.De repente, esta “apenas noite” apoderou-se de mim. Também eu estou nos versos e nas palavras que transbordam pelos meus olhos. Quem não se reencontra nas entrelinhas de Eugénio de Andrade, Ary dos Santos, Sophia, Torga. Eles estão aqui comigo, agora. Sinto a presença deles a meu lado e num tempo distante anseio pela mesma liberdade.O ciclo eterno que sacraliza a nossa humilde condição de transeunte surge cada vez mais nítido. Independentemente daquilo que pautou a vida de cada ser, há na doença uma convergência inevitável. Hospitais, gente, confusão, dor. A qualidade dos cuidados médicos não deve de todo basear-se na maior ou menor dimensão humana do doente, nem tão pouco no grau de diferenciação intelectual. Contudo, esta equidade a que me refiro não deverá ser medida por defeito – quantos de nós não se sentiram já “presos” numa cama de hospital, resignados com os “estranhos” termos médicos e largados à sorte no tumulto da doença?Neste jogo que procura respostas e palavras de esperança falta muitas vezes lugar para o ser. Não procuro encontrar culpados. Apenas alerto para a impaciência e intransigência impregnadas naqueles corredores e salas por onde diariamente caminho. A bata branca e o estetoscópio não superlativam a moral de ninguém. Deixemos de lado o terrível hábito de julgar quem quer que seja. Os doentes devem ser orientados e não tratados como crianças. A reprimenda não faz parte da medicina e o direito à informação é inalienável. Fica o apelo.

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.


Eugénio de Andrade


A poesia cessa com a música. Nos meus ouvidos ressoam ainda os sons do piano. A noite vai longa e o sono apodera-se de mim. Extinta a luminescência das estrelas de plástico, tudo se torna mais nítido. Procuro no silêncio da casa um lugar para o sono. As palavras misturam-se e deixam de fazer sentido. E eu “sem vocação para a morte” continuarei na senda do sonho de vir a exercer medicina.

Hey You


É com dificuldade que tento emergir da lassidão que me persegue. O meu cérebro arrasta-se à luz das sombras e passa por tudo menos pelas letras que se diluem no exsudado conjuntival destes olhos sonolentos. E penso! Quantos os olhos que algures se lavam, esgotados, entreabertos, vislumbrando apenas o foco de luz que os fere à sua passagem... limbo pestanejado que inglório procura depor o dia?Ouço “Vissi d’arte” da Tosca de Puccini (“vissi d’arte, vissi d’amore, non feci mai male ad anima viva!”). Talvez porque a noite o permite e a restrição moral do estado semi-consciente já adormece em mim, encontro nesta solidão a voz que, escrava da arte e do amor, comigo implora por piedade divina (“Nell’ora del dolre perche, perche, Signore, perche me ne rimuneri cosi?”). As horas passam a cada olhar desmesurado e arrítmico. O peso do estudo, a aridez das páginas onde ainda sinto o cheiro queimado e quente da máquina que as pariu, secam qualquer sentimento em mim. Passo de ser humano a máquina e roboticamente vivo alucinada... iludida! Bem sei que os conhecimentos são imperativos para as leges artis, contudo há toda uma vida interior que nunca o chega a ser se não abrirmos a janela e deixarmos entrar o ar.Por vezes parece que estou enclausurada num cubo preto, opaco, onde os conhecimentos que outrora floresciam na minha mente são sugados pelo fundo negro e “tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível”. Interrogo-me acerca da validade do esforço, se servirão de alguma coisa os anos esgotados entre as aspas de outros que já foram (e são) nossas.Decerto que valerá mas impõe-se cautela. O tempo aguarda algures mas não espera e a agudez subtil da arte em que sem cair tropeçamos exaspera. Por fim, pode ser tarde para recuperar a alma que se constrói com experiências literárias, musicais (perdão pela falta de imparcialidade), plásticas. Há dias que não vejo a luz do dia e digo isto há anos...Não quero com este texto talvez sem nexo e insalubre quebrar a motivação e laços empreendedores com a medicina que incondicionalmente amo... Apenas me apeteceu escrever um pouco para relembrar o espírito que por muito que se esforce, o que resta são imagens, pedaços de vida que em nós ficou de forma tão subtil e inusitada que se algum dia pudesse descobrir a fórmula tudo se revelaria mais simples e duradouro.A música que ouvia deu lugar a outra e tantas outras sucedem e eu ainda aqui tentando encontrar um propósito para estes acetatos que agora engulo para mais tarde crucificar num quadrado de qualquer exame, talvez quem sabe vomitar frente a quem feliz o apanhe. Depois? Depois esquecerei tudo porque nada disto foi descoberto por mim. Tudo foi imposto face à aliciante nota tão importante para a aceitação das nossas escolhas, e tão pequena face àquele que deveria ser o propósito das nossas acções.E pensar que o futuro da medicina, a nata, coalha nos bordos dos rectângulos das verdades absolutas e inequívocas mas deléveis, como um baralho que se desfaz à mais subtil brisa. O pior é que todos nós fazemos parte desse baralho, tacteando às escuras os desígnios daqueles que nos calçam com botas rotas (“Hey you, out there in the cold getting lonely, getting old can you feel me? (...) Hey you, don’t help them ti bury the light, don’t give in without a fight.”).

*

Magritte

Dia

O tilintar do espanta espíritos que sobre mim dança, ao vento, evoca os tempos distantes quando vinha da secundária à hora de almoço.Depois da neve, da chuva e do frio, eis que um calor de verão assombra este dia. Cheira a erva seca maresiada e em plano de fundo ouvem-se os pássaros cantar ao som de uma ou outra ambulância que ao longe passa, profanando o silêncio que me trouxe à escrita.Há uma calma que paira em tons de azul e de repente tudo parece perfeito, relembrando que entre a tralha quotidiana ainda existem momentos assim!

Caminho sobre a orla irregular do passeio tentando encontrar um ponto de equilíbrio. Estou só com os pensamentos que acompanham o corpo e a mochila que carrego. Não sei bem para onde vou, muito embora conheça perfeitamente o caminho que percorro. Olho em frente e vislumbro um cruzeiro que brama a sua partida da doca entrecortado pelo padrão dos descobrimentos, hoje dotado da imponente beleza de um primeiro encontro. Nunca senti tal devoção.
À proa, o infante lidera os fervorosos rostos de uma nação que um dia ousou destronar Adamastor. O sal, as lágrimas legaram uma das mais prolíficas passagens da nossa história. Mas tudo vale a pena, não só pelo tudo mas também pela pena, sem a qual a premente vontade de superação sucumbiria na mais grotesca das virtudes.
Mesmo que não tenhamos consciência, o valor atribuído à causa depende em parte do grau de impossibilidade de concretização e o esforço e sacrifício pessoais são indissociáveis da felicidade. Contudo, há dias em que preciso apenas de simples momentos como este, aqui e agora. O lânguido passar do vento sobre a face, adequa-se à minha atitude de renegação face a qualquer assunto mundano.
Volto a mim e ao mar, calmo e suave espraiando-se a meu lado. Espectral, caminho contra o sol, cruzo pessoas, vozes, esplanadas, pescadores de rio que comentam as marés e os pormenores técnicos dos quais resulta a escassez da pescaria. O silêncio permite-me alcançar o som da ponte, que brilha ao raiar último do pôr-do-sol e sombreia o Tejo, já matizado por um cacilheiro laranja e branco. Presencio em mim uma certa sensação de alívio e bem-estar. Se pudesse, continuaria o meu percurso infinitamente, deixando para trás a poeira de terra batida ou somente as marcas no solo de uma qualquer terra inóspita.
O desejo de contactar com o desconhecido impele os meus sentidos. A necessidade de partir rumo a mundos tão diferentes daquele em que vivemos freme dentro de mim. Preciso sair e conhecer a outra versão do mundo e da vida, na tentativa de fazer um update de conhecimentos que só a vivência presencial permite. Pode ser que um dia possa concretizar esse sonho. Por enquanto são as luzes das “docas” que iluminam o limiar da tarde. É fim-de-semana adivinhando-se por certo uma noite de folia por estas bandas.
Estou prestes a chegar ao carro. É preciso voltar à realidade e ganhar fôlego para conduzir até casa. O dia foi demasiadamente perfeito para tolerar o trânsito e a confusão característicos das horas de ponta. Homens e mulheres apressam-se e entre tropelias várias lá encontram um espaço na fila ao lado. Muitos regozijam-se pelas suas façanhas em estrada, outros nem sequer dão conta dos seus hábitos, comportando-se como máquinas programadas para a rotina do dia-a-dia, acabando por não usufruir dos frutos do seu trabalho. É verdade que o pão não nasce por geração espontânea contudo, parar um pouco e sentir que pelo menos há vida em nós não paga imposto.
Hoje redescobri que a vida deve ser um elo de fugas e que a evasão, por mais responsabilidades e prazos estudantis ou laborais que tenhamos, é a forma mais eficaz de recuperar a força e retomar o percurso que nos cabe com maior perseverança.
Ganho coragem, parto.
* Este foi um texto pedido pelo (in)excelso professor de oncologia. Dado que o s' TÔR nem sequer vai lê-lo e como não gosto de trabalhar para as paredes (já segurar nelas é outra coisa), deixo este post para quem quiser ler :)

A escolha de um caso clínico particularmente marcante reveste-se sempre de alguma dificuldade, sobretudo se estivermos a pensar em doenças oncológicas. A doença, em sentido lato, é composta essencialmente por duas dimensões – a física, que contempla os mecanismos fisiopatológicos e respectivas alterações orgânicas; a humana, que diz respeito à influência psicossocial exercida no doente e nas pessoas que o rodeiam. Ainda que ambas se complementem e sejam, diria mesmo, indissociáveis, a vertente humana é, em meu entender, a que maior carga emotiva confere a uma história clínica. Desta forma, deixarei os mecanismos de doença um pouco à revelia deste texto.Na condição de jovem estudante de medicina, ávida de conhecimento, doentes e doenças, esqueço muitas vezes que diante de mim não existem apenas músculos, ossos, órgãos e vasos. Se assim fosse, bastariam meros rudimentos de anatomia, fisiologia e clínica para envergar uma bata branca e um estetoscópio. Ser médico está para além do saber científico que de forma imberbe teimo em colocar num plano superior. Durante o estágio prático de hematologia (4º ano), chegou à consulta uma jovem, S.M., acompanhada pelo pai. Ambos traziam um brilho no olhar e a euforia de quem acabara de receber a informação da existência de um dador compatível de medula óssea. S.M. era uma doente de 27 anos com leucemia linfoblástica aguda e com indicação para transplante de medula óssea. Tinha sido saudável até ao despoletar da doença. Acabara a licenciatura e preparava-se para fazer uma pós-graduação. Contudo, de forma súbita, o seu percurso direccionou-se para o IPO e para a luta que diariamente viria a travar. De repente, todos os projectos deixaram de fazer sentido, a vida era uma causa perdida.Na fase inicial do tratamento sentia-se vencida e mal conseguia reagir àquela doença que, de forma insolente, invadia o seu corpo. Perguntava frequentemente a si própria a razão e o porquê de estar naquela situação, sentindo-se injustiçada e revoltando-se contra os entes mais próximos.Durante o internamento e tratamento, o contacto com outros doentes, por vezes até mais jovens do que ela, foi preponderante para a sua mudança de atitude, fazendo da esperança uma fonte de força e determinação para combater aquele estado de saúde que a debilitava cada vez mais. Cada biopsia medular passou a ser encarada como apenas mais uma e aquilo que inicialmente parecia impossível, tornava-se realidade. Dedicou-se aos estudos, conseguindo completar a pós-graduação – autêntica prova de motivação, esforço, empenho e vontade de viver. No dia da consulta, depois de tanta incerteza e angústia, S.M. vislumbrava uma solução para o seu problema. Sentia que de alguma forma poderia voltar a nascer e recuperar o tempo que a doença furtara. Tanto ela como o pai e o resto da família, cujo incessante apoio em muito contribuiu para a forma activa com que passou a encarar a doença, depositavam grandes esperanças, senão todas, no transplante. Não obstante a importância de tal procedimento, as notícias da médica assistente viriam a frenar aquela alegria. Antes de mais era preciso fazer ainda alguns testes de compatibilidade, embora tudo indicasse que o dador seria aquele, e era preciso cuidar da infecção fúngica a Aspergillus, dado que a intensificação da imunossupressão devida ao transplante poderia agravar ainda mais aquela infecção. Vistos os riscos e os benefícios, era quase certo que S.M. iria ser submetida a transplante contudo, as hipóteses de sucesso rondavam apenas os 30%.Enquanto assistia à consulta e à medida que a euforia inicial da doente ia esmorecendo, fui forçada a conter as lágrimas ou qualquer outra manifestação de tristeza. Nunca dantes tinha sido tão difícil sorrir para alguém, numa atitude apaziguadora de dádiva e esperança. Procurei ser forte e utilizar os tão aclamados mecanismos de defesa. Pela primeira vez senti que diante de mim estava um ser, cuja confiança quebrava os limites da própria evidência médica. S.M. considerava aquela fase da sua vida um interlúdio – o futuro seria ainda melhor do que o passado.Acabada a consulta de S.M., outros doentes e outras doenças chegaram até mim de forma insidiosa e ténue. Naquele dia parecia que mesmo que me acontecesse algo de muito grave, nada poderia ser pior do que a situação de incerteza que S.M. e a sua família enfrentavam.Ao final da manhã, a médica assistente fez uma espécie de visita guiada ao serviço. Foi então que vi de novo S.M., durante uma sessão de quimioterapia. Tinha tirado a cabeleira postiça que levara para a consulta e podiam então observar-se várias equimoses no seu corpo. Se a identidade de uma pessoa fosse determinada exclusivamente pelo aspecto exterior, diria que quem ali se encontrava não era a S.M. que aparecera uma hora antes na consulta. Apenas o sorriso sofrido e humilde se mantinha, não ousando sequer quebrar a esperança que nela germinava e fortalecia diariamente. De mão dada com o pai, que guardava para si o medo da incerteza, transmitia a confiança e coragem plenas dos que já experimentaram a dor e que, conhecendo a efemeridade da vida, empreendem toda a sua força na luta contra a doença. Quando passei os portões do hospital, o sol ainda brilhava e o céu azul era convidativo. Decidi caminhar um pouco para espairecer, contudo, aquele quadro permanecia nos meus pensamentos. Os sinos certamente dobravam por mim, não me referindo à morte mas sim ao momento que marcou o meu despertar para a perspectiva humana do doente, tão discutida nas cadeiras da faculdade. Os mecanismos de defesa não estão em nós a priori, devendo evoluir a partir de um conjunto de experiências como esta. É impreterível perceber a vida em toda a sua essência e escutar aquilo que razão muitas vezes procura esconder.

Escutando Elis ...

É no recanto do espaço que sinto o cheiro daquela voz quente e doce de café, daquela face risonha de piteira aos lábios que serenos proferem palavras de amor. Amor! Que sentimento estranho capaz de moldar os afectos, a mente! Capaz de estar presente nos mais ambivalentes momentos da vida- do ausente desejado, ao presente jamais renunciado. No momento em que nos achamos mais fortes, tudo se quebra, tudo descongela e desconjunta. De repente... parece que apenas existimos pelo outro, para o outro, tal como a música que só faz sentido quando ressoada nos ouvidos do povo. Assim como não é preciso estudar música para chorar ao som de Chopin ou saber desenhar para admirar um Dalí, também o amor nasce espontaneamente, sublimado pelo ósculo da chegada, do adeus, pelo qual procuramos auscultar a reciprocidade de um coração que por nós bate... que por nós luta... que por nós bombeia para cotinuar a ser! Mas como é difícil! Todos sabemos que um dia tudo acabará, nós, os outros... Se mais ninguém nascesse a partir deste momento e se voassemos no tempo, todas as ruas ficariam desertas, tudo petrificava! Só ficariam as luzes que gastas não tardariam em desvanecer. O circadiano halo solar sucederia ao limbo lunar e no escuro de uma noite sem estrelas não haveriam filhos para dar o jantar, não haveria ninguém com quem falar, não restaria nada! Nem a solidão. Também ela é feita de amor... nem que seja da sua ausência. Amor... terra da vida. É por ele que continuamos a lutar. Ainda que não tenhamos força, é por ele que nos agarramos à vida numa epopeia em prosa que termina em verso... Como é real o sofrimento por que passa, como é lírico quando volta a si e nos abraça. Vivemos numa concha limitada por onde parcamente nos damos ao mundo, aos outros. Podemos pesar com eles e por eles, podemos até chorar mas tudo passa... porque são apenas outros. Parece cruel pensar assim mas é o que por norma acontece. Quantas vezes vemos ambulâncias em missão urgente e sofremos pelo ser que ali vai? Mas... Quantas vezes voltamos a lembrá-lo? Basta um telefonema ou um carro que entra sem ter prioridade para que aquele momento seja absorvido pelo vazio do esquecimento. Tudo aquilo que não amamos é volátil, dissipando-se no tempo. É um não acordar súbito, renegado por aqueles que amam e que amo. No limiar da vida, ainda que não tenhamos forças para abrir os olhos ou para sorrir, ainda que as capacidades vitais se fundam como o fio metálico de uma lâmpada, só o amor nos detém. Quando as vozes ecoam batendo nos nossos sentidos numa amálgama de sofrimento e desespero, de vontade de desistir, é por amor que lutamos e procuramos subsistir... Existir, resistindo ao vento que no exausto arrastar do tempo nos faz levitar... como plumas que se espraiam no azul do céu.

Regresso a casa ...

Foi numa tarde fria, interlúdio de uma seca noite de Outono orquestrada pelas emoções colhidas durante o dia, que o nosso caminho convergiu. Linha de Sintra, algures entre as 20:00 e as 21:00 horas, Sete Rios, destino Agualva-Cacém… e lá íamos nós de regresso a casa. Jornada solitária e muda, em que os olhares se cruzavam no cansaço de mais um dia de trabalho. As luzes do comboio, baças e purulentas, iluminavam o reflexo cansado e borbulhento de um rosto interciso pela ranhura das portas que se abriam… Benfica. O comboio parou, como uma cadência ao 6º grau que suspensa, cedo retomou a marcha no encalço das barras metálicas, friccionadas pela aridez das rodas que cortavam o vento. De repente dei por mim, afinal também eu lá estava e nem sequer me apercebia… os meus pensamentos aliciavam a minha consciência e os meus sentidos, numa amálgama de imagens vividas ao som de Debussy… quarteto de cordas… 3º andamento. Senti a tua presença em contornos de brisa ondulante como o desenho que trazias. Serias pintor? Inspirado por aquela multidão anestesiada e espectral, murmuraste pela folha já escrita que então gritou por algo mais, pedindo que a vestisses com roupagens asténicas e lucífugas, solidárias com a rotina fibrosada de uma pastilha sem sabor, seca, colada! Como eu te compreendia. Não nos falámos, nem sequer olhares cruzámos porque ambos deambulávamos na mesma realidade. Olhávamos em sentidos opostos mas víamos precisamente a mesma matéria e anti-matéria; vivíamos tempos distintos fundidos num só espírito sonhador e empreendedor, sitiado na implacável ditadura dos tempos. O vento da prosa hasteava a tua flor de guerra como poema que por mim passava, por mim… que também não tinha terra. Ambos procurávamos a pureza daquele regresso, despreocupado e livre, alheio a pressões quotidianas. Éramos simplesmente dois jovens, com vontade de viver! A beleza daquele momento, que para os demais nem chegava a sê-lo, era suficientemente poderosa para impedir que compreendêssemos e tolerássemos aquele rebanho de mancebos tornados escravos (do Tal e Qual e restantes congéneres). Como era possível aquela estagnação, após mais um dia de trabalho maquinal? Era preciso gritar contra aquele marasmo vicioso: rede sem furos por onde nem sequer passava o ar; asfixia constante monopolizada pelo circuito fechado de viver sem pensar… lutar… por uma condição mas digna e consciente, em que mesmo os mais velhos pudessem sonhar! E gritávamos… e grito! Barcarena…. O comboio travou! Ambos saímos vislumbrando o mesmo luar que fugazmente se tornou nítido como a noite cristalizada. Foi então que seguimos caminhos divergentes, rumo à realidade das nossas vidas. Deixei de te ver mas não te perdi… Encontro-te todos os dias, sempre que apanho o comboio, sempre que olho para mim, reflexo de ti! São viagens como estas, infindáveis como o segundo que não passa, que nos despem, num tempo só nosso. A reflexão é a panaceia para o espírito. É ela que nos transporta para a consciência e sentido da vida. É nela que encontramos a solução para os nossos problemas. É por ela que digerimos a realidade aproximando-nos dela. A vida é um pleonasmo de erros. É preciso criticar… cultivemos as virtudes que nos restam!