Thursday, May 29, 2008

O Afinador de Pianos de Daniel Mason: Uma Perspetiva Oitocentista



O distanciamento histórico da acção de uma narrativa contemporânea constituiu um desafio tanto para o escritor, como para o leitor. Dessa forma, apesar do acesso a múltiplas fontes históricas e da possibilidade de elaborar e/ou aceder a uma análise retrospectiva dos factos à luz de um conhecimento amadurecido pelo tempo, a produção literária não se encerra no simples relato enciclopédico. Cabe ao escritor extrair a essência da época a que se reporta e, mediante os recursos da sua arte, reconstruir um universo vivo e dinâmico, composto por personagens, pensamentos, acontecimentos, espaços, odores, sons, entre tantos outros elementos, cuja harmonização incita a uma experiência literária enriquecedora. Em “O Afinador de Pianos” Daniel Mason embarca o leitor numa viajem à Birmânia de finais do século XIX, período dominado pelo imperialismo e capitalismo burguês da Inglaterra vitoriana. Para tal, recorre a um estilo narrativo de cariz realista e impressionista, cuja aproximação, intencional ou não, às correntes literárias que então germinavam, enaltece o espírito oitocentista da obra.

A acção decorre em torno de Edgar Drake, afinador de pianos, contratado pelo Ministério de Guerra britânico para afinar um Erard de cauda de 1840 que havia sido enviado para a Birmânia a pedido do major médico Anthony Carroll, comandante do posto de Mae Lwin, (re) conhecido por promover a paz nos Estados Shan através da música, da ciência e da poesia. Ainda que alguns dos altos responsáveis do exército britânico considerassem tais métodos pouco ortodoxos, a importância estratégica daquela região para a preservação da fronteira oriental e a capacidade governativa de Carroll, que “conseguiu mais do que vários batalhões teriam conseguido”, tornou imprescindível a sua manutenção no cargo e, por consequência, o envio de Edgar para a Birmânia. Importa salvaguardar que, apesar do título indiciar uma temática eminentemente relacionada com a música, esta obra possui um âmbito mais vasto, retratando o ambiente político, social e cultural do século XIX. Segundo Daniel Mason[1], a ideia de integrar um piano na história surgiu de forma algo aleatória, tendo por base relatos da época alusivos ao hábito de transportar utensílios mecânicos ocidentais para a selva e a construção da sumptuosa Opera House em Manaus[2].

Assumido o carácter oitocentista da obra, afloram de imediato características do Romantismo, perfilado página a página não só em termos musicais, como também literários e filosóficos. Percy Bysshe Shelley, um dos maiores poetas britânicos do período romântico e autor de Ozymandias[3], Liszt, Verdi e Rossini são algumas das figuras de vulto que integraram esta corrente e com as quais nos deparamos ao longo da narrativa. Apelando a uma retrospectiva histórica, sobretudo no que diz respeito à arte, denota-se claramente uma tendência evolutiva determinada por pólos opostos cujo predomínio, num ou noutro sentido, alterna de época para época. Dessa forma, e sobretudo do ponto de vista da História da Música, ainda que o termo Romantismo se aplique às manifestações artísticas do século XIX, é possível estabelecer paralelismos com outras épocas, de que é exemplo o período Barroco. Indo um pouco mais longe nesta comparação, poder-se-ia mesmo inferir que o Barroco está para o Renascimento assim como o Romantismo está para o Classicismo do século XVIII.

Situando-nos na Londres vitoriana por onde Edgar Drake deambula no início da narrativa, uma cidade matizada pelos vapores da revolução industrial, na qual os “austeros corredores de mármore de Whitehall” rodeados por “casacas negras e cartolas” contrastam com o operariado e com as “figuras dispersas” que apressadamente regressam a casa “pela sombra e pela obscuridade”, vislumbramos uma cidade de contornos contemporâneos, cujo aumento da densidade populacional remetera os seus cidadãos para o anonimato, apelando cada vez mais a um individualismo em tudo característico das urbes modernas. Para além disso, o século XIX, imbuído pelos ideais iluministas, assiste ao triunfo do cientismo, do empirismo e do positivismo comtiano, aspectos não menos considerados neste romance. Destacam-se, neste sentido, as múltiplas referências às inovações de Erard, a alusão às teorias Darwin e, ainda que de forma indirecta, o florescimento do sector dos transportes e o consequente aumento da mobilidade de pessoas, bens e capitais, resultantes do desenvolvimento dos caminhos-de-ferro e das companhias de navegação transcontinentais.

É neste contexto sócio-económico que o Romantismo surge na história da música. Dessa forma, como reacção ao materialismo vigente, a música aspira a um plano metafísico, sucedendo-se ao equilíbrio, rigor, clareza, ordem e autodomínio do Classicismo, o primado da emoção e subjectivismo, o desequilíbrio entre razão e sentimento, o desejo de liberdade, a busca do inatingível e a solidarização com a natureza, na qual o homem procura fôlego e inspiração renovados. Para além disso, importa também referir o particular interesse dos compositores oitocentistas pelo folclore nacional e pelo exotismo, consistindo o seu principal objectivo na criação de uma imagem musical, concebida através da utilização de determinados recursos expressivos, de que são exemplo as escalas de tons inteiros, e da escolha criteriosa de instrumentos cujo colorido proporcionasse uma representação mais fidedigna dos ambientes recriados.

Na obra em análise, este gosto pela evasão e exotismo é representado pelo fascínio de Edgar Drake pelo mundo oriental e, mais especificamente, pela sua música. A melodia “misteriosamente dissonante” tocada num saung[4], o som plangente do hneh[5], os tambores, os címbalos, a canção de luto ngo-gyin, entre outros exemplos que aqui poderiam ser referidos, enlevaram este afinador de pianos, revelando-lhe um mundo sonoro inteiramente novo, distinto da música erudita ocidental. Se, inicialmente, procurou reconhecer nesta última o sentido melódico da música birmanesa, cedo reconheceu que aquele povo tinha “a sua própria arte, a sua própria música”. É essa percepção que justifica o facto de que, ainda que o Cravo Bem Temperado de Bach, dotado de uma universalidade resultante do seu carácter matemático, intrínseco à “complexidade (…) dos padrões sonoros”, constituísse um importante legado da civilização europeia, a música que viria a escutar e a tocar no piano num dos momentos finais da obra fosse o ngo-gyin. Naquele momento só ela, e não uma música de Bach, parecia adequada, vislumbrando-se, ainda que de forma subtil e certamente discutível, alguns dos princípios da etnomusicologia do século XX. No seguimento da caracterização que vem sendo feita, poder-se-ia ainda justificar a escolha de Bach à luz do historicismo oitocentista. O gosto renovado pelo período medieval e pelo passado de forma global promoveu o conhecimento e investigação no âmbito da História da Música, denotando-se um especial interesse pelas obras de Bach e Palestrina.

Apesar das notáveis diferenças entre o Romantismo e o Classicismo, importa salientar que estas duas correntes não se sucedem em ruptura mas sim em continuidade. Se a obra de Beethoven perspira características eminentemente românticas, também nas obras oitocentistas se reconhece a influência do Classicismo, nomeadamente no que diz respeito à utilização de um “vocabulário básico comum de harmonias e [de] convenções básicas comuns nos domínios da progressão harmónica, do ritmo e da forma” (Grout & Palisca).

Edgar Drake viaja para a Birmânia motivado não só pela afinação de um Erard de 1840, mas também pela possibilidade de se aliar à “causa da Música”, encontrando assim uma finalidade para o seu trabalho. Apesar do desenvolvimento das técnicas interpretativas e do aperfeiçoamento dos músicos profissionais, cujo virtuosismo desafiava o público predominantemente burguês das salas de concerto, a prática musical estendia-se também aos salões e ao simples convívio doméstico, que mais tarde viria a sucumbir com o advento da rádio e da televisão. A venda de partituras e a compra de pianos atingiu proporções elevadas, não só devido ao gosto e interesse pelas práticas de teclado, mas sobretudo devido ao status social que tal aquisição comportava. Edgar chega mesmo a questionar o propósito do seu trabalho: “Por que razão uma matrona da sociedade, que não consegue distinguir Haendel de Haydn, há-de comprar um Broadwood de 1820 e desejar que ele seja afinado todas as semanas, apesar de nunca ter sido tocado?”. Para além disso, Edgar pretendia também encontrar-se consigo próprio, procurando preencher um vazio e adiando o seu regresso nessa busca inalcançável, tão característica do Romantismo. Assim, apesar de interessante, à luz desta análise, a analogia entre Edgar e os Lotófagos, da Odisseia de Homero, reveste-se de alguma ambiguidade, pois que apesar da envolvência do meio, esta personagem procurava um sentido e não somente uma vida de deleite, governada pelo impulso e prazer irracionais.

No século XIX, para além do reavivar da teoria da harmonia das esferas e da doutrina do ethos, surgiram novos vultos no âmbito da filosofia da música, tais como Hegel e Schopenhauer. Segundo este filósofo Alemão, a vida move-se através de um conjunto de impulsos irracionais designados por Vontade. Uma vez que o homem nunca atinge a satisfação plena, surgindo sempre novos desejos no cumprimento daqueles que os antecedem, a Vontade constitui uma fonte de sofrimento, cujo carácter permanente poderá ser aliviado, ainda que de forma transitória, através da contemplação artística. A música, distanciando-se do mundo concreto, exprime sentimentos e ideias anteriores às palavras, proporcionando ao ouvinte um prazer estético e contemplativo da própria Vontade e, por conseguinte, um distanciamento em relação ao seu sofrimento. Para Schopenhauer a música é a arte magna. Voltando uma vez mais à obra em análise, talvez seja essa uma das motivações de Edgar que, apesar de encontrar e valorizar a beleza na ordem e nas regras de uma composição de Bach, denota o espírito eminentemente romântico de alguém que “tinha o hábito de associar não apenas sentimento à música, mas a música ao sentimento”.

Em “O Afinador de Pianos” a música surge não apenas como produto de uma harmoniosa combinação de sons, mas também no seu estado puro, quer sob a forma de “milhares de vozes de soprano a aquecer para cantar”, emanadas das “profundezas da rocha” como resultado das “vibrações do rio” por entre as lacunas do rochedo, quer sob a forma de risos de crianças, “sons proibidos a um piano, aos compassos e às notações”, bem ao jeito de uma obra de Cage.

Apesar das subtilezas linguísticas de um texto escrito na língua original se submeterem às imposições inerentes à mais perfeita das traduções, nesta obra, é das palavras que emanam as imagens e odores e que ecoa a música, numa espécie de crescendo decrescendo, rarefazendo-se nos momentos finais da narrativa, dando lugar ao silêncio entrecortado pelos sons dos insectos e da natureza. No final “apenas o sol e a sombrinha perduram”.

*

O piano sílaba por sílaba
Viaja através do silêncio

Transpõe um por um

Os múltiplos murais do silêncio

Entre luz e penumbra joga

E de terra em terra persegue

A nostalgia até ao seu último reduto.


Sophia de Mello Breyner Andersen


[1] Informação obtida através de uma entrevista ao autor realizada pela editora Pan Macmillan.

[2] Teatro Amazonas, construído com verbas provenientes da extracção e comércio de borracha, tendo sido inaugurado a 31 de Dezembro de 1896 e estreado a 7 de Janeiro de 1897 com a ópera La Gioconda, de Amilcare Ponchinelle.

[3] Poema publicado em 1818 e recitado por Carroll a um chefe tribal que, após ouvi-lo, prontificou trezentos homens para “servir o poeta soldado”. Shelley escreveu este poema com base na inscrição de uma estátua em ruínas de Ozymandias (Ramsés II), registada pelo historiador grego Diodorus Siculus, que dizia: “Sou Ozymandias, Rei dos reis. Se alguém souber quão grande eu sou e onde me encontro que supere uma das minhas obras”. Dessa forma, aliando a arrogância que tais palavras encerram ao facto da estátua se encontrar em ruínas, o poeta alerta para o carácter transitório inerente a todas as obras do ser humano. Tudo passa num ciclo de ascensão e queda, inclusivamente os governantes e detentores do poder e da força.

[4] Harpa tradicional da Birmânia.

[5] Instrumento birmanês semelhante ao oboé.


Wednesday, May 28, 2008



Valem os segundos

Ébrios loucos

De insónia e luta

Contam-se

As folhas que crescem

Com o aproximar da hora

Que a música estagnou!


Silêncio

Lisura de sentidos

Suspensos no arrastar do arco

Das vozes enevoadas

Pulverizantes


Não restam conjunções

Quebram-se as locuções

Só nós restamos

Impunes

À miséria e morte

Fiel contemplação da pedra!




A real grandeza do ser
Jaz durante a vida
Adormecida esquecida
Num mundo de cegos
Perdida...

Só a morte a ressuscita
Num recordar constante
Pesar redundante
Remorço inconsolável
Dos que acabados sonham
Com um mundo de almas perdidas
Habitantes de obras ressequidas
Que no arrependimento do Homem
Ao passo da página ao compasso do som
Despidas iluminam o vento... a vida!


Qualquer que seja a sensação
De declínio
De angústia
De desespero

Nada há a recear

Porque tudo o que temos... Somos
Há-de um dia acabar
Se Deus quiser!

Aproveitemos então

O mais ínfimo prenúncio
Do maravilhoso milagre
Que é viver... Simplesmente
Viver!

Sunday, May 25, 2008


Porque no tempo

Tudo se repete

E a cada dia que passa

Este calor efémero arrefece?


Porque na vida

A solidão apetece

Quando a noite nasce

E a revelação acontece?


Porque em mim

O amor desvanece

Neste clamor intransigente

Do meu ser que esmorece?


Porque nada encontro

Noutro alguém

Senão em ti música?




No limbo da escuridão
Restolho lancinante
Que me ceifa e degola
Lassidão ofegante
Que me mata e devora
Escuto o mar e o vento
Pressinto em si o meu lamento
E sigo na orla desta certeza
Tão nítida e perfeita como a vida!

Thursday, May 22, 2008


Foto de Carlos Froufe

Pudesse reencontrar-te

Na essência do meu ser

E amar-te em silêncio

Vendo o dia nascer


E voar como voam

As memórias do passado

Cantar como ecoa

O teu canto amargurado


Sinto no vento

A tua voz doce

E na chuva

A tristeza revelada


Pudesse abraçar-te

Nesta noite de saudade

E esgotar neste encontro

Esta constante ansiedade


Pudesse amar-te agora

Como algures te amei em vida

E no recanto deste quarto

Chorar a emoção em mim contida


Pudesse ao menos ter dito adeus…



Wednesday, May 21, 2008




Na senda do sonho

Que me guia
Perco-me em ti mar
Ouço-te maresia

Trago no suor
O silêncio da força
E nas lágrimas
Um poema de amor

Corro na esperança
Deste eterno querer
E de espírito aberto
Luto para viver!


Tuesday, May 20, 2008


Fotografia de Carlos Froufe

Que beijo procura a separação

Neste cais meu amor?

Que abraço procura a eterna despedida

Nesta hora meu amor?

Que olhar procura o adeus

Neste ultramar meu amor?

Diz-me

Por favor

Que bala procura a vida

Que arma não procura a morte?

Que político procura o bem

Que soldado procura a guerra?

Meu amor

Que partiste para não mais voltar

Para mim que tanto amaste!

Que Homem procura o fim

Que Portugal procura a meia-haste?

DITADURA

TORTURA!

AMARGURA!

Saudade de um amor

Que para sempre viverá

Na memória de um adeus

Nunca procurado eternamente encontrado!




Visto o teu robe

Tão nobre

Como os gestos de quem ajudou

O pobre!

Tocas-me com a tua mão gasta

Pela água que por ela correu

Pela força que a descarnou

Pelo trabalho que a valorizou...

Arrepio-me!

Será que me ouves?

Será que sabes quem sou

Ou será que sou para ti

Apenas aquilo que outrora fui?

Sentes-me?

Espectral mas atenta

Passas por tudo serena

Nada te toca nada te acena

Para ti tudo é nada

Porque nada te lembra... Nada!

Cérebro dissipado

Na degenerescência de uma vida de trabalho

Nobre... suado...

Como o robe que visto

Molhado... porque choro!

A névoa nas lentes

Abafa o frio que sinto

Ao ver-te sentada... inerte... mas contente!




Queixamo-nos nós do pão que não têm

Os que sorrindo perdem a infância bulindo

Cercados de uma miséria esquecida e ignorada,

Destinados ao sofrimento e a uma injusta caminhada!


De tranquila consciência regressamos a casa,

Nem sequer pensando na difícil subsistência

Daqueles cuja martirizada e inglória vivência

Prima pela inexistência de um simples tecto!


Alegremente caminhando por um passeio

Sem minas, raramente nos lembramos

Daqueles que, inocentemente brincando,

Num simples passo perdem as suas vidas!


Impunemente desvalorizando as roupas

Que não vestem os que delas tanto precisam,

Desfilamos nós ao sabor da moda supérfula

Indiferentes, egoístas, egocêntristas!


Esbanjando protecção e afecto,

Banalmente beijamos e somos beijados,

Esquecendo a importância de tão simples actos que,

Ainda que por uma só vez, fariam sorrir uma criança!




Do teu vente

Emanam pétalas em flor

Sedentas de ar e de luz

Soltam-se ósculos esquivos

Que do âmago do teu ser

Murmuram palavras de amor!



Wednesday, May 7, 2008


Passavam espectros de sirenes perfumadas que entravam e saíam esgravatando o caminho para a urgência. O cheiro a urina tresandava pelas fendas do passeio onde escarros de pombos, coalescentes, secavam a poente de um cigarro apagado. Quantos os rumores de gente, os zumbidos de gente, os fervores de gente que sucumbiram ao silêncio morgue daqueles quartos repletos de janelas, de olhos, por onde ninguém espreitava. Pudesse o tempo calar as almas suplicantes que ali ecoam, pudesse eu ignorar a reclusão da espera!

A água deslizava no granizado íngreme por onde escorriam laivos roxos de sangue pisado, coalhado, de ninguém. Os carros, os doentes, os familiares dos doentes, os fornecedores, a carrinha dos bolos, as ambulâncias, os seguranças, os andaimes, as latas de tinta, os estetoscópios, as tábuas de madeira, as gerações e gerações de ciganos, as carretas, as macas, e tudo o mais, contribuíam para ornamentar aquele vazio de sentido, de espaço.

Ao longe, séquitos de bata branca e caneta em punho arrastavam-se atrás de criaturas fantasmagóricas, vomitando nomes de doenças, expelindo bichos que vivem nas entranhas, anotando meticulosamente a liturgia monocórdica que o engalanado professor vociferava. Feitas as vénias ao saber magistral e findado o discurso de apresentação, eis que um desprezo enorme se encarregava dos pobres jovens, despojados, colados nas esquinas dos muros como vermes, segurando as paredes dos corredores, anotando cada pormenor do rodapé à sanca, sem que nada lhes escapasse.

Como tudo era ridículo. O ensurdecedor ruído do comboio auschwitziano em cujo vidro embaciado escorria um fácies de criança esmagado pela multidão, o bulício nas plataformas do metro onde jovens de nariz, unhas e sapatos esguios, de código penal em braços, estonteavam os olhares acutilantes do “pica”, o corpo caquéctico do bate-ritmos do metro, o dorso aquilino do vendedor do Borda d’ Água, o emetizante odor sudoríparo dos corpos contra corpos, o asfixiante fumo dos escapes, o infindável tempo de espera nos imensos corredores daquele hospital de pedra.

O sol daquela Primavera de ersatz esfumava os contornos escuros da sala. Ao canto, dois olhos secos e minúsculos perscrutavam o movimento dos enfermeiros que se aproximavam, acenando em sofrimento à limpeza das escaras que, como larvas, carcomiam o seu corpo lívido, semi-morto, velado pelas composições serialistas que emanavam dos monitores cardíacos. O sorriso meigo e complacente de criança esboçava a dor, a solidão e a espera, retardadas pelo esforço inglório da ciência, ali subjugada perante os desígnios da natureza.

Como, naquele espaço vazio onde lençóis de batas brancas enforcadas por estetoscópios pretos, cinzentos, azuis, grenás, que entravam e saíam sentindo o frémito balbuciante, a pressão ténue, órfã de vida, daquele ser jazendo sob braços jovens que se cruzavam e descruzavam em ânsias para responder às questões do professor, como, naquela indiferença de sentir, naqueles apontamentos onde o insolente visco da petulância derramava como sangue sobre mãos envernizadas, sobre fácies pseuo-jovens empinados, proferindo palavras pseudo-doces, em pseudo-divinos gestos redentores, era ignorada pelos doutos e pseudo-doutos que num franzir de tez, discutiam apressadamente o seu estado clínico, transitando de fármaco em fármaco, de doente em doente, de caso em caso, de cama em cama, de número em número, como se de um papel se tratasse.

Tudo calava naquele vazio súbito, nequele verde marinho onde boiavam enfermeiros verdes, médicos verdes, doentes verdes que jaziam em silêncio, na esperança vã de um milagre. O azul do céu de Ourique, o verde maresiado do Tejo, o matizado odor das árvores de Sintra, o reverberante som dos pássaros, volatilizavam sobre os vidros do comboio, sobre os corpos etéreos daqueles corredores pálidos, infindáveis, de gelo. O clamor das suas mãos preludiava os ossos descarnados com que tacteava as grades de metal, e ao idílio primaveril sucedia a cor carne, deslavada, das entranhas, naquele ventre de mulher onde apenas ecoavam timbres metálicos de nada, de um ninguém sentindo a força anímica e afásica do silêncio.

Pudesse eu descobrir a razão de ser deste sofrimento cáustico, deste sufocante epílogo mahleriano que devassa os meus sentimentos mais profundos, desta luta desigual que ultrapassa os limites do inteligível, desta vida sufragada pela vontade dos outros, desta morte velada por pessoas incógnitas, na solidão recôndita de um quarto onde dispo esta bata branca, desamarrando o estetoscópio que ostentava como medalha da minha nobre condição de quase-médica.

Caem folhas que dançam sobre mim como cabelos enriçados, descarnados ao som da brisa clara da noite. E no ímpeto do cansaço, nesta amálgama de contradições maceradas pelo sono, recobro a força telúrica que diariamente me impele. A nascente, vislumbro já bafos de multidões ofegantes, aceno aos séquitos com que me cruzo nos infindáveis corredores e, neste campo de forças bipolares que me desconjuntam e exploram até à medula, corro feliz na irredutível esperança de um simples rumor de vida.