Wednesday, July 30, 2008

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Maria João e Mário Laginha


Nazuk (Frágil)


Lento suave e firme
é o assentar das minhas patas no chão.

As ruas carregam coisas
ruidosas que se empurram e
me empurram sem razão,
separando-me de mim.
Caminho pesado e o meu corpo,
rugoso e sagrado, tem pintadas
as muitas cores que os homens fazem.

Aqui estou eu, enorme e frágil,
no meio da cidade, com a minhas
presas intactas.
Aqui estou eu, debaixo deste sol
escaldante que nunca me deixa
esquecer as selvas, montanhas e
imensas planícies verdes e livres
duma Índia que é minha.


Vem
Escuta o silêncio desta quase noite
Sentes o vento?
Sentes a brisa fresca
Que leva os teus cabelos de linho?

Ouve
Ao longe rebentam ondas
Sobre a encosta
Repara como gritam
Sentes o seu aroma de mar?

Repara
Pousam nele gaivotas
Que voam ao luar
Escuta como cantam
Sentes o coração pulsar?

Dá-me a tua mão
Abre o teu coração ao mundo
Pára um pouco para sonhar
Não sentes a vida passar?

Olha

Respira
Sente
Sê!

Saturday, July 26, 2008

Um pouco de Bach ...

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Glenn Gould (1981)

A beleza da música de J.S. Bach em todo o seu esplendor. Vale a pena ouvir Glenn Gould, aqui numa interpretação mais intimista e introspectiva em relação à gravação de 1955 (http://www.youtube.com/watch?v=PRMV1fktwLc).

Percam-se no Youtube com os fantáticos vídeos que por lá pairam;)


Sombras

Que no passeio

À luz da noite

Caminhavam unas

Devotadas ao amor


E na mais gélida aparência

Que consente a solidão

Outra sombra ímpar

Ardia em chamas

Invisíveis nuas


Coração mudo este

Que habita o meu corpo pétreo

Onde a solidão sublima o desejo

A verdade renuncia ao cortejo


Por quem baterás?



Falam a língua do olhar, sincera e humilde, como os recandos da sua alma.
Falam de amor e de amizade, têm vontade e querer, preenchem-nos de saudade.
Como penso em ti Pipas, quando procuro um sentido para o vazio dos dias e das gentes ...
Amo-te pelo ser que és!

Tuesday, July 22, 2008

La Divina



Tarde luminosa de Verão. Os reflexos de sol transgrediam os limites do olhar e a brisa de fim de tarde restituía o fôlego suspenso daquela jornada solitária, muda. O rosto do Tejo, interciso pelos pilares da ponte ondulante, convidava à reflexão, espraiando a calma e tranquilidade que eu tanto procurava.


Caminhei sem destino, olhando apenas para a margem esquerda, sorvendo o ar e os odores matizados pelas cores frescas e claras da juventude. Rolavam crianças pela relva, corriam jovens no desespero frenético de um golo, sumiam-se barcos na aura esfumada do horizonte.


Dei por mim a recordar as viagens intermináveis para o Algarve, em que me entretinha a olhar pelo vidro do tejadilho do meu carro, procurando esquecer que estava em terra. De súbito, após alguns minutos de trânsito à saída de Lisboa, eis-me planando sob o céu azul da ponte a que sucediam o pôr-do-sol de Alcácer, o manto estrelado do Alentejo, o cheiro a alfarroba, a praia, a mar daquele destino tão desejado e planeado desde o último regresso. Tínhamos por hábito cantar as músicas da moda, desde Ministars e Onda Choque a sons dos anos 80-90, que o meu pai conseguia convencer-nos a ouvir, para bem dos seus ouvidos e, diga-se de passagem, do seu sistema nervoso, construindo de forma inconsciente e despretensiosa momentos únicos e omnipresentes, evocados pela energia fremente de um sorriso de criança.


Percorridos alguns metros, em pleno Museu da Electricidade, apoderou-se de mim uma vontade imensa de seguir aquele rosto tornado silhueta, ali exposto em cartaz. Entrei.

Numa sala escura, ressoavam excertos de árias de ópera, interpretados por uma voz singular. Ali ecoavam reminiscências de um passado conturbado, feito de esplendor e de escândalo, de apoteose e de amargura, postumamente deificado pelo tempo, à semelhança de tantos outros seres sitiados na época em que nasceram.


Ao longo da exposição tive oportunidade de apreciar fotos, manuscritos de amor, programas de concerto autografados, e valiosos adereços e vestidos, pessoais e cénicos, desenhados por estilistas de renome. Assisti ainda a um documentário sobre a sua vida e tacteei a aspereza do mesmo cenário que, em 1958, adornou o segundo acto de La Traviata, em pleno palco do Teatro Nacional de São Carlos.


O calor ofegante daquele espaço exíguo, onde fui submetida à pressão de “pseudo-eruditos(as)” que desbravavam os corredores à laia de corta-mato, nem dando tempo para localizar a peça referente à legenda, sendo para tal necessário levar uns quantos empurrões sub-reptícios, façanha dolorosa para uma tarde de sábado, desprovia aquele espaço de qualquer mística.


Aquela promiscuidade de sedas e de perfumes, de pouchettes e de bijutaria, a que se juntavam comentários sórdidos sobre a sua vida, ou melhor dizendo, sobre os seus affaires de coeur, sussurrados de forma intencionalmente audível, como sinal de cultura e erudição, já para não falar do trautear de Vissi d’arte, vissi d’amore, que duas senhoras de virtude teimavam em repetir, perturbando a audição do transeunte mais desatento, provocaram em mim uma angustiante sensação de náusea.


Feitas as contas, nada se passou naqueles vastos minutos impregnados de um vazio materialista, de strass, tão pobre como as falácias de um público que se auto-intitula de “apreciador de ópera”, adornando as salas de concerto com o seu savoir-faire, numa luta árdua e calamitosa contra o sono, algures desperto pelo pungente e habitual grito de morte no final do último acto.


Considerações à margem de todo aquele fausto que me roubara preciosos minutos de claridade, eis-me de novo junto ao rio e à brisa maresiada da tarde, continuando aquela jornada solitária, muda, então acompanhada pela inconfundível voz de Maria Callas, La Divina.


Livre das roupagens lucífugas daquele espaço quente, onde cada recanto prenunciava a sua morte prematura, eis-me diante do rio lançando as cinzas daqueles objectos insignificantes, agora viajando de terra em terra na clausura do silêncio final, do acto final, de todos os actos. Tejo, mar Egeu, nada importa quando o espírito supera o corpo, perpetuando-se na memória de cada um de nós, fulgurando nos minutos de intenso prazer proporcionado pela emotividade e realismo das suas interpretações. Callas está viva, pelo menos para mim.


O raiar último do sol dissipava-se no céu escurecido, feito de um azul índigo iluminado pelas luzes de Belém. A brisa dera lugar ao vento, os barcos a holofotes que ao longe reluziam. Era hora de regressar.


No silêncio do quarto, fechei os olhos, escutei...


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Sunday, July 20, 2008

Into The Wild

Sem palavras...

Ainda que os mais cépticos possam dizer que se trata de uma "visão romântica do suicídio", a verdade é que esta história é verídica, constituindo esses argumentos o retrato da realidade pérfida e meterialista em que vivemos.

A quantos de nós não terá dado vontade de sair pelo mundo fora, renunciando à superfluidade impregnada nas nossas vidas? Chris apenas teve coragem para concretizar a amálgama de ideias que teima em florescer nos nossos sonhos.

PS: A banda sonora é genial... ou não se tratasse de Eddie Vedder! Se forem à Fnac poderão encontrar um pacote dvd+livro que ainda dá 18 pontos no cartão e 2 euros de desconto noutro filme (perdoem-me... isto não é publicidade.. apenas acho que o que é bom deve ser partilhado)!


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Friday, July 18, 2008

Epílogo



Rogo ao cansaço por um pouco de sono. A lassidão dos meus dedos, reclinados sobre o teclado como corpos que mergulham num mar sem fundo, procura nas palavras a emoção do momento e num fulgor de pálpebras, músculos e tendões, trôpegos como as asas de um pássaro ferido, procuro transpor as estacas do pensamento. “Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível” quando perdemos a verdade, seguindo o prumo descarnado da vida que os outros nos impõem por capricho.


Há seis anos atrás, a ansiedade apoderava-se dos meus nervos, numa taquicardia súbita e constante, qual desespero lancinante pela causa das (minhas) causas: entrar para o curso de Medicina. O estudo passou, os exames nacionais passaram, a espera angustiante pelas listas de admissão passou, tudo passou e eis que de repente, num súbito abrir e fechar de olhos, o dia de hoje acontece. Acabei!


Na senda do sonho de exercer medicina, cumpriram-se votos abnegados de estudo e dedicação. Foram muitas as faltas nos jantares, nas tentadoras idas à praia quando o sol fulgurava sobre a minha tez derretida, suada. Tudo passou, tudo e tão depressa como se fosse ontem. Agora, entro na biblioteca e os meus colegas olham-me de outro modo, como se fosse um elemento estranho àquele espaço impregnado do orgulho imberbe dos caloiros que, pela primeira vez, ali pisam a quadrática carpete azul, sorvendo o cheiro a livro velho transfigurado no odor do saber. De repente, cruzo-me com olhares de respeito, por mim, ser insignificante e banal. Os funcionários tratam-me por “Senhora” ou “Dr.ª” e eu, que ainda encontro as mesmas borbulhas na face, o mesmo acne, as mesmas sobrancelhas por fazer, o mesmo cabelo despenteado, o mesmo olhar absorto, como quando tinha dezassete anos, descubro no seu trato cuidado, a subserviência e respeito (ou medo?) infundados, como se de novos semideuses nos tratássemos.


De sorriso jovem e dentes brilhantes, compondo um fácies engalanado pela petulância e sensação de superioridade, passam por mim saltos altos de donzelas que, apunhalando-se entre elas, soltam gargalhadas de conluio pela sua miserável condição de “nobre”. O seu fétido esplendor dissemina-se pelos corredores, pelas salas, pelos terraços, que derramam lágrimas de desilusão e fracasso. Onde do saber humilde, da ajuda despretensiosa, da arte pela arte (leia-se arte médica), nesta “ditadura dos números” em que vivemos? Claro que para bem do mundo, e para felicidade minha, existem também aqueles colegas e amigos com quem posso partilhar as minhas angústias, aqui prestando o meu eterno agradecimento. Certamente que a amizade continuará ad integrum pelo tempo que nos espera e pelo qual tanto ousamos desejar.


Quando entrei na Faculdade pela primeira vez, senti uma enorme felicidade. De repente, perfilavam-se diante de mim múltiplos sonhos e perspectivas, vontades distantes que então se tornavam possíveis, qual quimera tornada realidade. Contudo, hoje encaro a fachada da Faculdade de forma mais límpida e nítida, sem qualquer nostalgia pelo passado. Em mim resta apenas o presente, esta enorme vontade de rumar em direcção a outros mundos, a outros problemas, a outras gentes.


Sinto um sufoco constante perante este voluptuoso edifício, impregnado de interesses, de cargos despóticos, de vassalagem a uma massa anti-pedagógica, amorfa e obtusa, estagnada num tempo longínquo, repassado.


Hoje saio de mochila às costas, de ténis, de ganga, como um dia entrei. Trago comigo um espírito cansado e vazio, como se destes seis anos nada em mim restasse. Saio como um mutilado de guerra, que desmesuradamente procura o norte. Saio assim, perdida, tentando reencontrar o que de mais puro e belo resta em mim.


A vida afigura-se agora com maior precisão. Durante estes anos descobri a intriga, a falsidade, a petulância, o “intresseirismo” e o oportunismo, sofrendo por vezes das suas consequências. Percebi o quão rara é a verdadeira amizade, contando-se pelos dedos de uma única mão os amigos que para sempre guardarei no meu coração.


Saio ávida de referências, de Homens de valor e de virtude, quais Mestres que em qualquer local ou contexto prendem a nossa atenção, ensinando-nos o caminho, a descoberta de nós mesmos. Saio ávida de saudade de um tempo que passou, que simplesmente passou.


Freme em mim a mesma vontade de exercer medicina como quando entrei. De borbulhas no rosto e alma aberta para o mundo, eis-me de novo perante a incerteza de um futuro que desconheço. Durante estes seis anos fui adquirindo a força e coragem para enfrentar o “mundo de cão” que me espera e contra o qual vale a pena lutar.


Hoje, dia 18 de Julho de 2008, termino uma importante etapa da minha vida, não obstante a mesma sensação de começo que preludiou o início do curso.


Desta incólume liberdade de onde escrevo, aqui me despeço sem título nem sobrenome, apenas com uma enorme esperança e vontade.


Livre dos quês e dos ses, encontro finalmente a paz e adormeço ao som da música, fiel companheira de armas (… 2º andamento do concerto para piano em sol maior – Ravel).


Escritas unas ...




Nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,

Filho esquivo da noite que flutua,

Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,

Sobre o meu coração, que tumultua,

Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,

A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

Tuesday, July 15, 2008

índigo



Ao perto

O som silencia

A solidão fremente

E pelo corpo vazio

Tornado sono e cansaço

Escorrem notas percutidas

Ecos de seda e de aço


Pudesse beber delas

E do seu doce lamento

Sorver a esperança

De um justo entendimento


Pudesse transformar

O pérfido ruído da mediocridade

Numa melodia etérea

Feita de amor e de verdade


Pudesse gritar ao mundo

A angústia da indignação

E do estertor da morte

Fazer um cântico de revolução


Ao longe

O ar pesado

Sufoca o sopro

De um espírito agitado

E ao vento maresiado

Batido pelo rumor das ondas

Perscruto um silêncio resignado


Pudesse impregnar esta força

No âmago do seu corpo suado

E da cobardia dos fracos

Fazer um cântico renovado


A meu lado

As palavras vibram

No pulsar disrítmico da hora

Que apressa esta enorme vontade de ser

E no limbo crepuscular do dia

Anseio pelo primeiro raiar de vida

Luta eterna apaixonada

Princípio do meu viver


Lutemos!



Saturday, July 12, 2008

Tributo Cinema Paraíso

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Um dos filmes mais importantes da minha vida! Aqui fica um tributo (sobretudo para aguçar a curiosidade da Andreia)!
PS: quaisquer "pregos" na música são pura responsabilidade minha ... sorry ;)

Como dantes?

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Música: Jorge Palma
Voz: Ilda Feteira


Friday, July 11, 2008



Fácil seria idolatrar

Alguém que por nós pensasse

Seguir o fio do manancial do bem

Justificar a vida por algo

Digno de qualquer inususpeição

Quais mártires da oração

Palavras descarnadas gravadas

Terços derretidos

Sufocados nas mãos!

Suor...

Água benta pura!

Façamos primeiro o bem

Para livres

Amar o próximo ...

Deus!




Ser que a mim te unes

Numa fusão de sentidos

Somos espíritos singulares

Unidos pelos grilhões da amizade!

Thursday, July 10, 2008



Baixo complacente
Corda confidente
Piano escuro cintilante...
Noite quente!

Reflexos de névoa
Voluptuosa como a melodia
Que paira num sopro...
Vento que arrepia!

Voz reverberante
Sedução constante
No flutuar deslizante
Deste setim magnetizante... jazz!


Por que caminhos

Passará o meu corpo

Em busca de algo

Que não o toque

De alguém que o deseja?


Que amor é o que procuro

E quando chega

Afasto com garras de certeza

Da imprudência

Frágil e cega...

Adolescência!

Que tudo quer

Tudo nega...


Porquê esperar

Olhando o vento

Ouvindo-o passar?


Porque o sonho

Despertará algures no tempo

Tão puro e verdadeiro

Como a vida!



Se uma ideia surge
Mas a tinta esquece
Para quê pensar...
Se o brilho submerge
Mas a ideia esquece
Para quê suar...
Para quê engraixar
O que sempre serviu para pisar?


Primo à pressa

A tecla presa

De tanto a usar!

Convulsa

Sinto o pulso

Num ouvido a tilintar!

E o zumbido amplifica

A dor que sinto

E me impele...

Não consigo descansar!

Magnetismo ilusão

Ecrã do fascínio adição

Como me chamas até ti

E nada encontro... ninguém!

Só vício e lascidão

De um tempo que se esgota

Entre os dedos... já nada o sustém!



E no vazio do pensamento
Presa à memória que não vem
É o corpo que me guia
São os dedos
Que no final de tudo ficam
Movendo-se neste vazio
De esquecimento

Quis o dia que a noite perdesse a alma
Mas o seu rosto permanece
Nas ânsias nos desejos
Para sempre perdidos em mim
Vontade que o corpo não permite
Liberdade que o tempo limita
Amor que não alcanço

E no vazio do pensamento
Presa à memória que não esquece
Sinto a confusão fremente
Deste ser que mente
Sempre que te ouve passar
Música eufémica, outorgada
À constante impossibilidade de amar

A vida!


Estás por toda a parte

Não escolhes o tempo nem o lugar.

Basta um olhar para te ouvir,

Basta uma música para te sentir,

Basta um perfume para te ver

A ti, súbita memória presente

Dos belos momentos ausentes

Daquilo que fui, daquilo que fiz

Enfim, daquilo que com sublime intensidade vivi!