Friday, August 29, 2008

Regresso a casa ...




No final de mais um dia, após uma viajem matinal rumo a Lisboa e depois de algum tempo passado entre a Faculdade e a Loja do Cidadão, pede certificado, carimba certificado, pede registo criminal ... desculpe mas a assinatura não está conforme o bilhete de identidade [de olhos esbugalhados, como se estivesse a cometer uma ilegalidade] ... mais um impresso para que serve? ... nova assinatura, nem bom dia nem boa tarde, telefone a tocar, entrego a nota, recebo o troco, levanto-me sem reclamar ... eis-me novamente no conforto do lar.
Tira mala, mete mala, o telemóvel que não pára de tocar estás bem filha? cuidado não andes muito depressa ... faz tudo com calma ... não te esqueças de regar as plantas, sobretudo a das folhas brancas, que precisa de mais água [sim mãe] ... não te esqueças de fechar o gás ... ah! e sobretudo tenta manter a casa limpa e arrumada [ok, sem stresses] e o meu corpo a suar. Chave na porta, finalmente um cantinho para descansar.
Umas quantas páginas para animar mmm hoje vou mas é televisar [isso existe?]. Bife grelhado, sai uma torrada, um café, sem esbanjar a louça, que isto quando estamos a sós com os pratos e talheres custa mais a lavar. Acende televisão, zapping para a esquerda, para a direita [pena não dar nem para cima, nem para baixo], e a paciência esvaindo-se por entre diálogos calamitosos [e logo hoje que decidi televisar!]. Findo o jantar, trato da louça [qual dona de casa exasperada, afogando as máguas em bolinhas de detergente... diz que cheira a limão... eu diria que não], volto para o quarto, tento estudar, não dá, volto para a cozinha, retomo o comando, ligo a televisão, e eis que finalmente encontro algo verdadeiramente interessante, de tal forma que marcou esta noite, trazendo-me à escrita [a bem da verdade, deveria estar a dormir].
RTP2, documentário sobre Noor Inayat Khan (aqui fica um ponto de partida http://en.wikipedia.org/wiki/Noor_Inayat_Khan). Já tinha ouvido falar dela [algures numa aula de história, em tempos remotos], muito embora desconhecesse a sua história. Resumidamente ... Estudou Psicologia e Música (harpa), dedicando-se também à poesia e à escrita de textos para crianças. Dotada de uma personalidade sensível, inteligente e de índole pacifista, ou não fosse a influência sufista enraizada nas suas origens, rumou a Inglaterra em 1940, aquando da invasão de Paris pelas forças germânicas.
Inconformada com a guerra, alistou-se na Força Aérea (WAAF) a 19 de Novembro de 1940, onde estudou técnicas de radiotelegrafia. Os conhecimentos adquiridos nessa área, o domínio da língua francesa proporcionado pelos largos anos vividos em França e as suas características físicas, deram um contributo insofismável para o seu destacamento para Paris. Na qualidade de operadora de radiotelegrafia enviava mensagens confidenciais para Londres, desafiando a égide perfídia de Henri Dericourt e ludibriando os agentes da Gestapo, transportando de lugar em lugar o seu pesado companheiro de viajem, por si tornado pluma, digno de qualquer insuspeição.
Resistiu mais do qualquer outro agente, tendo sido detida pela Gestado após uma denúncia feita por Renée Garry que, num acto de ciúme, entregou Noor Kahn (então Nora Baker; nome de código - Madeleine) à Gestapo.
Após várias tentativas de fuga e tendo sempre permanecido em silêncio, sem nunca ter revelado as informações de que dispunha (assim o confirmou Hans Kieffer, então líder da Gestapo em Paris), foi alvo de tortura por parte dos agentes alemães, tendo sido enviada para Dachau a 11 de Setembro de 1994, onde viria a ser mordazmente assassinada. A sua última palavra terá sido "Liberté".

Noor Kahn

Noor Kahn recusou-se a sair de Paris, enfrentando o perigo de forma arguta e determinada, lutando por uma causa justa, mesmo sabendo que tal poderia implicar a sua própria morte, há muito prenunciada pelo destino dos restantes agentes. Fiquei, como se costuma dizer, com a lágrima no canto do olho. Penso que esta história é digna de ser partilhada, não podendo deixar de fazer este apontamento sobre um exemplo de coragem e renúcia aos prazeres e conquistas da vida mundana, ao convívio familiar, em prol da paz e do próximo.


Memorial - Dachau

Bem... o post vai longo ... já são horas. Agora sim, conseguirei dormir.... mas antes é ver o gás, trancar a porta... e sonhar com as histórias que deram vida ao presente em que vivemos, permitindo que aqui chegássemos.

Cântico Negro



Sombras - Ferragudo

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

Thursday, August 28, 2008

Modinha

O tempo escorre
Por entre memórias
Trazidas pelo vento tubular
Melodia plangente vibrátil
Que do âmago de uma flauta
Flutua sobre a imensidão do mar


video
Modinha Brasileira - Nesta Rua (arranjo H. Villa-Lobos)

Wednesday, August 27, 2008


Nunca para mim o silêncio foi tão decrépito.
Páginas, páginas, páginas e mais páginas ... in the absence of expression of the GATA-1 and FOG-1 ... que percorro nestas 24 heurs de L' Harrisons, numa luta desenfreada rumo a um futuro incerto, sem querer nem vontade ... tudo depende da nota ... The Viem-Siltzbach (só percebo a parte do Bach) is a specific diagnostic test for sarcoidosis ... blá, blá, blá... Thus, this test is of historic interest and is rarely used in current clinical practice... da nota, da nota, da nota ... que de tanto se repetir já perdeu o sentido. Agora, vivo do piloto automático que se instalou no meu corpo. Sou comandada à distâcia pela cacofonia que paira na mente dos iluminados inventores das provas de seriação. Mmmm... vejamos como eles são bons ... não sabe o gene?? não sabe a mutação?? isso é elementar meu caro ... qualquer pessoa tem de saber que o SCL7A9 e o SLC3A1 não são resultados de um jogo de Playstation ...
E assim vive um Harrisoniano... fechado no quarto a marrar sobre a delinquência de uma prova que decidirá o seu futuro. Nada faz sentido, as incongruências são mais que muitas e a relação risco-benefício, entenda-se, morte neuronal-saber, é sobejamente desfavorável.
Procura-se uma excelência a priori, de escritório, de escrevaninha, de quatro paredes, como se de uma empreitada se tratasse. Primeiro colocam-se os candeeiros, depois pintam-se as paredes, ladrilham-se as divisões, aplica-se o estuque, o cimento, colocam-se os tijolos e só no fim, caso a estrutura aguente, os alicerces. E depois? Depois logo aprende o ofício... que isto do ensino vocacional só nas artes... coisas de lunáticos que encontram vida num quadro, que vibram com o odor matizado do entardecer, com o eco da alvorada emergindo da placidez crepuscular... loucos, insanos, que amam o que fazem ... mesmo sem Mercedes nem Rolls ...
Nada disto faz sentido, nada, e o pior é que nem sequer posso ousar pensar sobre o assunto. Sou forçada a resignar-me a esta missense mutation e faço-o com o principal objectivo de me livrar disto da melhor forma possível, procurando manter o que resta da minha integridade física e sobretudo mental. Ainda não é desta que vou dar em louca!
Entre castelos de areia que se fazem e desfazem a cada página, procuro subornar esta sufocante falta de praia e de mar com um pouco de música, companheira de todas as horas. Luís de Freitas Branco, Concerto para Violoncelo, 3º andamento. Há quanto tempo não escutava esta melodia, perdida algures entre a tralha que guardo no disco do pc. Como é bom ser surpreendida por momentos assim, como é bom olhar para o mar do Carvoeiro ao fim da tarde, como é bom cheirar a brisa maresiada do Algar Seco e procurar nos contornos das rochas as iluminuras reveladas pelo brilho da lua. Como é bom olhar para o braço da via láctea que ao longe se dissipa, como é bom reencontrar Deneb, Altair, Vega, tão nítidas como os contornos do triângulo de Verão. Como é bom pelejar contra o vento fresco da noite. Como é bom respirar.

video
Luís de Freitas Branco, Concerto para Violoncelo, 3º andamento
Miklós Perényi (violoncelo) e Jeno Jandó (piano)

Saturday, August 9, 2008

bLOG temporariamente latente

Motivo?...



ID: unknown 19283892;
Profissão: marrar o Harr's;
Perfil psiquiátrico: em queda livre!