Tuesday, September 30, 2008

Escritas unas...





Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

Fernando Pessoa (2-7-1931)

Friday, September 26, 2008



Procuro esquecer
Mas não consigo
Procuro vencer
Tão cedo esqueço


Há no sonho uma memória perene
Vontade de um querer adiado
Há o rosto e o olhar disformes
Corpo vazio inabitado

Procuro entender a saudade
De um tempo que não foi
Desejo inconsumado
Amor deixado para depois


Trago em mim palavras interditas
Signos que a vida não cumpriu
Guardo o beijo e o toque desse corpo
Que sem chegar cedo partiu

Como...
Procuro esquecer
Mas não consigo
Procuro não sentir
Tão cedo esqueço

Monday, September 22, 2008

... perfeito!

Há em mim uma saudade imensa de abraçar a guitarra e tocar. Tocar sem que os limites do tempo interrompam a intensidade do momento, a beleza do som dançando no espaço.
Esconde-se nos meus dedos um espírito sedento de liberdade, de ar, de luz, de música. Como creio em ti, música impregnada neste corpo dormente, nesta insónia estridente apaziguada pelas notas que proferes.



Hoje foi um dia especial, dotado de um sentido excluso porque livre, belo porque verdadeiro. Como tinha saudades dos serões musicais, do castelo erigido com a veemência dos nossos encontros, eternamente perfeitos. Como tinha saudades vossas, amigos de sempre, para sempre.
Penso que os blogues também foram feitos para homenagear e louvar as pessoas que amamos. Obrigada pela vossa compreensão, amizade e companheirismo.

MELHOR É IMPOSSÍVEL!

Sunday, September 21, 2008

Sei de um rio



Pressinto a cada nota palavras sentidas. Existe nelas uma amálgama de cansaço e esperança, sonho eterno, proibido. Voam gaivotas neste céu de Lisboa, ressoam guitarras junto ao rio, ecoam vozes de um povo que apela à vida. Nas esquinas do presente, reacende-se a veemência de Homem de Mello, o génio de Oulman.
Como é belo e insalubre viver deste passado que agora nos revisita. Como é forte o arrepio que sinto ao ouvir este fado, tão português como a voz triste de um marinheiro, de um povo sitiado no cerne de um país gratuitamente destruído, palco de um futuro incerto.
Já não sei o que sentir, o que querer. Tudo se desmorona, tudo se desfaz por entre os dedos, tudo é nada. Há nas coisas uma fragilidade iminente, uma inércia que nos atrai para um passado imperfeito, solidário com a angústia e melancolia dos dias de hoje.
Ao som da música esqueço-me de onde estou, para onde vou, quem sou. Escuto apenas, escuto...

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Sei de um rio, sei de um rio
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando

Pedro Homem de Mello - Alain Oulman
in Sempre de Mim, 2008, Camané

Friday, September 19, 2008



Não são vultos,
Nem sombras,
Nem luzes,
Nem ninguém

Não são pedaços de contas
Que contei
,
Nem caminhos de sonhos
Que sonhei


Não sou eu
Neste corpo ignoto
De alguém

Onde de mim?

Procuro e nada sei!

Monday, September 15, 2008


Naquela tarde dançavas ao vento. O teu olhar vago espraiava uma opacidade de cristal, pura, como a verdade. Os teus cabelos ondeavam na sombra desse corpo de elástico, e dele os braços, as mãos, repeliam os últimos reflexos de luz. E gritavas. Gritavas para que te ouvissem, sorrias para que te acenassem, choravas na impossibilidade de concretização do mundo à escala gaussiana, à margem do desvio padrão, da exclusão matemática dos que sofrem pela (in)diferença desta sociedade em que vivemos, feita à medida da distribuição normal.

Moldavas os gestos e as palavras sobre os mesmos gestos e palavras dos demais, daqueles que não te ouviam, nem tão-pouco se esforçavam para ouvir-te. Fora do jogo de pares, à sombra da competição nojenta, da petulância repugnante daqueles que te ignoravam, não pertencias àquela pseudo-amizade desigual, injusta, cruel. E saías, de sorriso tenso no rosto, sempre com essa contractura mentoniana, dissoluta no caminho para casa.

Quantos os gritos que lançavas sobre o mundo. Quantas as lágrimas que devoravas em silêncio, quantos os caminhos que sonhaste sem viver, as paixões que nem chegaram a ser. Quanto do teu ser se encontra fechado em ti, ser que sofres no tumulto da superação, aceitação. Não deixes que o silêncio seja a tua arma, nem que a timidez seja o teu abrigo.

Segue o teu caminho na certeza de ser esse o teu próprio caminho. Revela ao mundo o que de belo há em ti, num ostinato audível e indelével. Nem sempre o que é mais importante para os outros nos torna mais felizes. Firma a tua existência, é nela que reside a felicidade. Vai em frente, não percas mais tempo.



Pressinto no sufoco arauto do tempo que se esgota ecos de uma multidão degolada, derrotada, cansada. Há uma pressão que se instala nos interstícios da vontade, há um sonho que decai no abismo da incerteza, há um querer fragmentado pelos desígnios do anti-querer, há um quantum dissipado na procura do saber, existimos nós, assim, na impossibilidade de ser.
Sem alternativa, façamos da luta motivação e da descoberta o nosso pão.
Não faz sentido, sei que não. Contudo, nunca o céu foi tão belo!

Thursday, September 11, 2008

Suo Gan



Sleep my baby, at my breast,

’Tis a mother’s arms round you.

Make yourself a snug, warm nest.

Feel my love forever new.

Harm will not meet you in sleep,

Hurt will always pass you by.

Child beloved, always you’ll keep,

In sleep gentle, mother’s breast nigh.


Sleep in peace tonight, sleep,

O sleep gently, what a sight.

A smile I see in slumber deep,

What visions make your face bright?

Are the angels above smiling,

At you in your peaceful rest?

Are you beaming back while in

Peaceful slumber on mother’s breast?


Do not fear the sound, it’s a breeze

Brushing leaves against the door.

Do not dread the murmuring seas,

Lonely waves washing the shore.

Sleep child mine, there’s nothing here,

While in slumber at my breast,

Angels smiling, have no fear,

Holy angels guard your rest.

American Beauty




"It was one of those days when it’s a minute away from snowing. And there’s this electricity in the air, you can almost hear it, right? And this bag was just dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes. That’s the day I realized that there was this entire life behind things, and this incredibly benevolent force that wanted me to know there was no reason to be afraid. Ever (...) Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it…and my heart is going to cave in".

Friday, September 5, 2008



No silêncio póstumo da noite, pesa-me o corpo sobre o epírito semi-desperto. Escuto os sons de uma Lisboa que dorme, ao longe, junto ao mar. O pulsar audível do cansaço, bramindo sobre esta almofada de pedra, revela a impossibilidade do sono, contorcido, amarrotado, como lençóis que se desfazem.
Recosto o dorso metamorfoseado sobre o frio da parede, qual carapaça kafkiana que carrego, como bicho. Ligo o rádio e escuto uma melodia ruidosa, destorcida.
O vento rodopia incessantemente lá fora, trazendo consigo a chuva, o aconchego do fado sintozinado numa qualquer frequência média.
Há uma voz que se acende, uma viola, uma guitarra, murmurando sobre a cidade ... vielas de Alfama, ruas da Lisboa antiga ... beijadas pelo luar, quem me dera lá morar p'ra viver junto do fado. Eis-me escutando e consentindo as memórias do passado...

Lembras-te dos tempos em que subíamos as escadinhas do duque, o elevador da Glória, a Rua da Rosa? Contavas-me histórias do fado, revividas na nostalgia, na repugnância de um presente electrónico, de metal, tatuado nas esquinas de um bairro sujo, saqueado pela mitra que agora vende pó e erva no passeio onde um dia se cantava e ouviam guitarradas. Dizias, os tempos estão mudados. Como, sem saber, te compreendia. Também eu procuro um passado que o presente tornou puro, que o futuro chama para si.


Acenavas a todas as esquinas, conhecia-las bem. Declamavas versos, cantados na fumegante penumbra das colinas e sorrias, sorrias, sempre que corríamos para não perder o comboio para o Rossio. Como é estranho o ser humano. À medida que o tempo passa, as recordações tornam-se cada vez mais nítidas. Tenho a sensação de que faço parte do grupo de pessoas que entrava para o elevador no momento exacto da fotografia.
Lembro-me da paciência com que esperavas por mim. Cada acorde que aprendia despertava em ti a satisfação plena da causa.
Mesmo que mal tocadas, as músicas que tocava eram sempre as melhores. Assim como as palavras, os gestos, os diálogos, os sorrisos, a companhia. Bons momentos aqueles que agora recordo, ao som do mesmo fado que teimava em não gostar, mas de que também sou feita e cujas origens não posso recusar.

Viveste o fado de forma despretensiosa, honrando-o a cada nota, a cada palavra proferida com a força e verosimilhança da vida. Pertenceste a uma geração que o amava como meio de expressão de um povo oprimido, repleto de sentimentos, sedento de gritar e de explodir. Não, o fado não se encerra na dormência da ditadura. Quantos os poemas que me deixaste, ainda com as marcas da censura, palavras riscadas, apagadas, à revelia da verdade poética de um povo que sofria, que escutava e cantava para não sofrer.

Ouço este fado que agora termina ... e então a lua, corada, ciente da sua culpa, esconde-se envergonhada... penso em ti e em como foram bons aqueles momentos partilhados. Pudesse retribuir tudo o que por mim fizeste, a humildade que me ensinaste, o amor que me deste. Trago em mim uma parte de ti, feliz contentamento da saudade.


Escuto os sons de uma Lisboa que acorda, ao longe, junto ao mar. É dia.


Thursday, September 4, 2008

Porquanto o tempo passa, há um cansaço que devassa este corpo que carrego. Pesam-me os ombros, as pálpebras, quebram-se as costas ogivadas, toldam-se os olhos balustrados pelo reflexo lenticular, de halogéneo, que vela o incessante ponteio das horas. Há uma força que arrasta o momento e consigo o meu espírito derrotado pela imposibilidade de amar a vida, de tocá-la, de sentir o seu fulgor. Cheira a terra húmida, a água escorre pelas janelas do meu quarto e um nevoeiro imenso perpassa diante deste rosto que encaro. Não reconheço nele o olhar inebriante da juventude, o aroma fresco da vontade. Sucede agora um olhar seco e pálido, uma pele fria e áspera, uma face espectral, reflexo deste meu espírito desnudado. Onde de mim, do meu ser... para onde me leva o vento?

Monday, September 1, 2008


Mãos

Para ti mãe... que estás sempre por perto.
Não há muito a dizer. Conheces todas as minhas expressões, pensamentos, atitudes e desejos, muito antes das palavras e dos actos. Obrigada por tudo!