Wednesday, January 28, 2009



Não sinto na voz
O travo da descrença,
Nem no sorriso doce
O pudor pela (in)diferença.

Não escuto angústia
No passado que reconta,
Nem revolta, nem temor
Na
espera que se apronta.

Vejo tão somente um ser
Pleno de devoção e de bondade,
E dele brotando a beleza
Do amor, da tolerância, da amizade.

Mais um dia ...



Acordo sob o vapor fumegante dos carros transitando em meu redor. A lassidão dos braços e das pernas impede a audácia da manobra, a sagacidade do gesto que me faria chegar mais depressa ao destino. Mas não, não consigo antecipar o tempo, não consigo infiltrar-me por entre as filas que se amontoam, por entre as latas, os cubículos, os contentores que arrastam gentes e gentes para mais um dia de trabalho, e esqueço. Esqueço que deveria já ter chegado, que a reunião de serviço deve estar a começar, que o meu estômago ronca na iminência de não ter tempo para almoçar. Esqueço que se aproximam tarefas complicadas, mais não seja porque burocráticas e, portanto, fatigantes, desinteressantes, onerosas. Ligo então o rádio, recosto-me sobre o banco desportivo, desproporcionalmente maior que o habitáculo, e ao som da chuva, das buzinas, dos arranques desenfreados, das travagens precipitadas, escuto um prelúdio de Chopin, o número quatro (que importa?).

Por mais nobre que sejam as tarefas diárias, por mais que ame a minha profissão (parece estranho falar em profissão), por mais que devote toda a minha energia naquilo que faço, por mais que ame o contacto com os doentes, nada poderá suplantar a sensação de prazer, de libertação, de conforto, de alívio, que sinto ao escutar um pouco de música, um qualquer som que atravesse o espectro da rotina, da diminuta turgescência das horas, da rude frieza do momento.


Bem sei que é importante viver em sociedade, conviver com amigos, partilhar ideias e conhecimentos, rir e chorar com os outros, contudo, sinto por vezes a necessidade de ter tempo para estar comigo, para saber quem sou, para sorver e desfrutar de momentos como este, ironicamente reproduzidos no clamor do trânsito. Quando tudo parece estar perdido, quando o corpo implora por um pouco de descanso, basta uma simples melodia para reerguer a esperança, para renovar a força necessária para enfrentar mais um dia de trabalho.

*


Sergio Tiempo
Chopin, Prelúdio nº 4, opus 28, Mi menor

Sunday, January 25, 2009

Apontamento (I)

"To be lonely is a state of mind, something completely other than physical solitude; when modern authors rant about the soul’s intolerable loneliness, it is only proof of their own intolerable emptiness."
Isak Dinesen


Sérgio Azevedo
Concerto para dois pianos e orquestra (3º andamento)


Não raras são as vezes em que a música preenche esse estado de solidão da alma conferido pela sagacidade do tempo, pela impossibilidade de um futuro que se esgota a cada momento que passa. Escutemos, nem que por segundos, o que de mais verdadeiro em nós se revela à sua passagem. Ouçamos a voz que se esconde no vazio dos dias, na corrosiva frieza do instante.

Saturday, January 17, 2009

Impressões (III)




Desço ao coração da noite, desta noite de espuma, de silêncio, desfeito o pulsar do dia, o frémito desta juventude inconsumada, das luzes que se fundem, ao longe, no aconchego do nada.

Procuro a razão desta corda que me arrasta, desta multidão que me sufoca e gasta, mas não consigo, não consigo evitar a pressão, o caminho que não escolhi, as escolhas que vendi, o tempo que passou e que eu não vi, calando num sorriso o desejo, esquecido o calor de um abraço, a doçura de um beijo.

E ali fico, vislumbrando a sombra, pesando a derrota de uma vontade que não é minha, de um desígnio que aflora do intento alheio, de um projecto encetado pela ambição da posse, que em mim não cabe. E aqui fico, tentando compreender este desinteresse, esta força que me afasta da prosperidade. Fico, apenas fico, procurando-me neste mundo que não ama, e nele outra sombra em chama, outro olhar reclamando a inocência, a incoerência, o recanto incólume do amor, da verdade.


*


Alfredo Keil