Saturday, April 25, 2009

Tolerância




Falar-te de tolerância, daquele estado nominal de alma que não surge por geração espontânea, nem tão pouco quando bem se quer ou entende, mas antes mediante um processo gradual de modelação desta espécie eminentemente violenta e grotesca que é a nossa. Falar-te de (in)tolerância em Abril, neste mês da liberdade, mês em que o coração se reveste de cravos e se choram lágrimas de festejo pelo então objectivo (in)alcançado. Falar-te de tolerância quando um sentimento colectivo de glória invade repentinamente um povo mutilado, em cujas lamentações hoje desagua um pseudo-sentimento de esperança, uma força renovada ao retumbar de foguetes apelando à sensibilidade e sentido de união.

Mas não vim para falar-te da revolução, deste corpo estranho que jaz esquecido na desunião dos homens, reacendendo-se apenas quando é preciso vender souvenirs épicos ou animar os canais televisivos com uns quantos documentários, cumprindo estes a sua missão informativa e educativa, tantas vezes relegada para segundo plano, pois que não convém que as massas se animem de força crítica, daquela consciência que abala os pilares da indiferença.

Vim para falar-te da tolerância entre os homens, daquele estado nominal de alma de que depende toda e qualquer evolução, daquela forma de estar e ser equilibrada em que o desproporcional peso da frustração, os ímpetos de ira surgindo quando algo ocorre de forma inesperada e indesejada, não servem de motivo nem desculpa para estados de tristeza ou de agressividade infundados.

Não existem mundos perfeitos, assim como não existem fármacos perfeitos, nem seres perfeitos, nem corações perfeitos, pois que a interacção com o exterior desperta em nós os mais reminiscentes sentimentos de competição, de luta, de auto-defesa, mesmo que isso implique infligir contra aqueles que nos acompanham nesta luta inglória pela sobrevivência.

Vivemos na era do safe-se quem puder, atoladamente isolados, sem amigos que nos apoiem nos momentos em que de facto estamos mais fragilizados, e não apenas quando, plenos das nossas faculdades, lhes estendemos as mãos e nos prontificamos a dar o melhor de nós. Vivemos saqueando os outros até à exaustão, procurando a sua companhia tão somente quando dela se vislumbra um pedaço de pão, sorrindo-lhes e acenando-lhes com o perfídio intuito de alcançar projecção.

É por isso que vim falar-te de tolerância, pois sendo ela o garante da amizade, também ela se extingue nos limites da verdade. Idealizei, amei, dei de mim como se fosses sangue do meu sangue, corri pelo teu bem, calei quando precisavas de alguém que te ouvisse, dei-te a minha força quando o cansaço te arrastava, partilhei os segundos de que tanto precisava. Por momentos achei que poderia entregar-me por completo àquela amizade que parecia pura, sincera e honesta, desprovida de interesseirismo, de ambição. Pensei que um qualquer sorriso teu seria de facto um sorriso de alma. Tolerei desvarios na certeza de que não eras má pessoa, de que não eram mais do que acessos fugazes motivados pelas vicissitudes de um dia-a-dia que tanto exigia de nós.

Mas o silêncio ensina e a distância abre alas ao pensamento, à razão puramente desprovida daquele sentimento e devoção que me amauravam. Agora já consigo ver, já consigo perceber como estava errada quando pensei que a tua luta era a minha, quando acreditei que partilhavas as mesmas convicções, que serias capaz de assumir publicamente aquilo que, não bastando dizeres que apoiavas, incitavas ao longo das nossas infindáveis conversas.

Na senda daquilo que considerava justo, esgrimi argumentos, expus-me ao ridículo para defender os interesses dos outros, dei o meu nome à causa, sem qualquer tipo de anseio, sem qualquer tipo de receio de um dia poder vir a precisar, de um dia quem sabe reconhecerem o meu nome, de um dia... Receio sim um dia partir desta vida mesquinha e insalubre com a boca seca de tanto repetir a mesma frase sem beber da sua seiva, sem agir. E onde estavas nesses momentos, nessas alturas em que cada voz contava!? Estavas exactamente no lado oposto, cumprindo os desígnios determinados por lei, mesmo que não concordasses ou dissesses não concordar com eles.

Vim falar-te de tolerância porque procuraste saber em que estado estava a nossa amizade, ao que respondo dela nada saber.

Monday, April 20, 2009

Impressões (IV)




Aqui me estendo, neste chão flutuante de espuma e fibra, carcomendo como bicho restos de uma razão exclusa, destituída pelo ímpeto consciente deste sentir imenso, deste inverosímil querer que me exaspera e tarda sem que o sonho sequer chegue a ser miragem. Faço deste chão a minha casa, destino clandestino onde ao frio e ao vento a verdade se revela e a saudade se desfaz em pensamentos.

Pensamentos. Pudesse eu dar ao mundo aquilo que eles não dão, pudesse eu esquecer os contornos de luz e sombra no momento exacto da revelação, pudesse eu permanecer ali, no ínfimo momento em que todas as dúvidas se prostraram, em que todas as certezas se tornaram tão nítidas, tão reais.

Procuro na vastidão do mar uma resposta e no vento um caminho. Nem sempre é fácil amar o intangível, nem tão pouco manter incólume um amor que nasceu puro, idealizado, sublime. Nem sempre é fácil silenciar a vontade de um beijo, de um abraço nascendo voraz na beleza do momento, mas retraindo-se a medo e sem resposta. Nem sempre é fácil fazer da verdade um segredo, jubilar essa ausência por meio de obsoletos rudimentos de memória, viver tentando ludibriar a saudade. Nem sempre é fácil saber se os revérberos desse olhar serão reais ou tão somente reflexos do meu querer.

Mas que importa, que importam os desígnios materiais quando deles se antecipa uma qualquer espécie de sofrimento, de perda, de conflito. Talvez o mais importante seja o que ficou por dizer e não o que se disse, o que ficou por viver e não o que se vive, pois que assim em nós se mantém um motivo, um sentir partilhado emergindo do interlúdio da razão, uma força imensa incitando à criação. Talvez tudo isto esteja errado, não sei.

Num agora em que todos os nomes pedem aposto, em que todas as falhas requerem uma justificação plausível, em que de todos os actos se pretende auferir um resultado aprazível, estendo-me neste chão frio e poeirento olhando o tecto do meu quarto, um tecto que de súbito se torna chão, um quarto que de repente é espaço. E assim, tragando a música que loquaz me envolve, perco-me no tempo, liberto-me de mim.

Wednesday, April 15, 2009




Vem no meu sonho
Inteiro por acabar
E às avessas do presente
Trazer-me o passado que ficou

Vem agora
Silenciando a espera
E por inteiro realizar
O futuro que nesse passado errou

E de novo
Clareando de esperança
Vem trazer-me o amor
Que um dia em mim esgotou

E no meu sonho desnudo vivo
Todo em si por habitar
Vem às avessas de um coração mudo
Devolver-lhe do sorriso aquele olhar

Vem não tardes
Que a noite corre e o sonho esvai ...

Saturday, April 11, 2009

Contra-poema




Escrevo ao pulsar latejante da noite, desta noite perfilando um todo de silêncio por desvendar, um lânguido lençol de memórias por sentir, por habitar, por calcar sobre um qualquer papel flamejante de luar, de um sol resplandecendo algures noutro lugar, longe desta reclusão, destes olhares indiscretos, destas vozes afiladas esgrimindo-se no vazio das suas vidas amarguradas, resignadas a um objectivo diminuto.

Sustém-se em mim um grito perene de revolta, uma ânsia infundada, uma tristeza remota que se sobrepõe a qualquer vislumbre de felicidade, a qualquer sorriso distraído, a qualquer meta que se cumpra. E dessa inconstância, dessa frágil estabilidade que em mim nasce impossibilitada, cuspo palavras laminares, degladio-me contra actos irreflectidos fervilhando nesta irascibilidade que me consome. E luto, luto como bicho para que no final o arrependimento monopolize o meu pensamento, para que do corpo cansado, arranhado, mutilado, apenas o suor e as lágrimas fluam, nada mais.

Por onde andarás reflexo de mim, sorriso de mim, brilho de mim, deste corpo sem norte deambulando pelos dias como fantasma, procurando um sentido, um rumo que tarda, e que nesse desnorte, nesse desvario inconsequente, vagueia disseminando a confusão, pulverizando os que por si passam com o suco acre da abnegação. Por onde andarás desejo de mim, vontade de mim e dos que me acompanham nesta jornada. Onde do sentido do bem, da dádiva, da partilha de gestos e pensamentos nobres.
Como pedi para que não maltratasse os que me amam, como jurei que não infligiria contra os que me embalam e afagam quando a noite é fria, como falhei, como errei e erro nesta contenda que me corrói e suja, neste contra-poema de que faço vida e por que peço perdão.

Esgotaram-se as promessas, as chances de me achar bem neste mundo de frivolidades, de ambições, de motivos mesquinhos projectando-se num futuro exíguo aparentando segurança e prosperidade. Como me sinto insensível face a emoções tão materiais, tão distantes das minhas, como me sinto perversa quando, envolta neste lânguido lençol de desejos, sonho memórias remetidas para a clandestinidade que o pudor e a boa imagem exigem, como me sinto feliz longe daqueles olhares discretos e baços, daquelas vozes de rapina, daquelas mentes que se acham supremas, proficientes, dotadas de uma inteligentíssima capacidade para colar vinhetas e passar receitas, exames, atestados e tudo o mais, sempre de sorriso nos lábios, esbanjando um altruísmo fictício, exausto de boa disposição.

Esqueço, escuto, sinto.
Brilha no espaço uma folha, outra folha, um sem número de folhas rodopiando como aves, como penas de ave flutuando ao vento fresco da noite, ao som do mar requebrando-se sobre a encosta, ao travo doce, de esperança, germinando na alvorada brisa que me embala e conforta. De súbito um fulgor intenso, uma vontade que se reacende, um amor imenso que me transcende, uma força que do abismo me suspende, uma tempestade de ideias, um motivo, um sentido. Escuto, escrevo.



Vladimir Horowitz
A. Scriabin, Estudo em Ré# menor, Op. 8, nº 12

Wednesday, April 8, 2009

Revelação




Pensar-te no constante instante em que o meu olhar se perde, em que o pensamento deriva para um qualquer lugar distante, para um qualquer destino comum onde as nossas paixões se cruzam. Pensar-te e sentir-te antes dos nossos humores se trocarem, antes das nossas mãos se tocarem e entre si o calor vácuo desta insónia incerteza, o ténue raiar de luz extinguindo-se nos recantos do ádito de mim.

Cega, insana, consinto a tua presença, a tua energia refluindo sobre um mar seco, sobre este mar que trago comigo desde as origens, desde o momento em que me conheci e à minha frigidez ante os prazeres mundanos, os pseudo-sentimentos feitos de músculo e de pele, de saliva e de uma espécie de suor furtivo escorrendo desgrenhado pelos becos onde a carne se consome e extingue.

Inundam-me palavras de apelo, de dor, de insatisfação, procuram-me súplicas e desejos frustrados, pedem-me toda, por inteiro, neste momento saturado de pensamentos lascivos que nunca foram senão agora, aqui, neste instante constante que me consome.

Torno a procurar-te entre os braços que se estendem, entre as mãos que se abrem, entre os olhares que me degolam pedindo sempre de mim, exigindo sempre um pouco mais de mim sem que de si receba sequer uma palavra em troca.
Mas o tempo passa, o dia, o após dia, a noite que se desfaz em roncos e sibilâncias esvaindo-se por entre os dedos vencidos pelo cansaço.

Agora percebo que a nada pertenço senão a mim e que da minha passagem apenas um rasto de insatisfação, um grito de glória relegando qualquer sentimento invasivo, qualquer devoção amarga, qualquer poema de amor decalcado, qualquer raiar de sol refulgindo sobre montes já fecundados.


Finalmente o sono desejado. Adormeço.

Tuesday, April 7, 2009

Dia após dia


Sair dali apenas, sair para que não me encontrassem, para que os sorrisos, as falas, não se impusessem ao silêncio desejado, para que o meu rosto pudesse finalmente libertar-se daqueles sorrisos falsos, daquele humor postiço, crasso. Sair dali, apenas sair dali.

*


Nélson Freire, Concerto para piano n.º 2, Brahms