Monday, May 25, 2009

Impressões (VI)




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Sinto no corpo o peso da descrença
E dos ossos um fulgor intenso e frio
Decaindo no abismo vácuo da vida.

Pudesse saber dos recantos de mim,
Achar o que não sou senão por ti,
E pelo absoluto inesgotável que de ti me enleva.

Pudesse entender esta laminar incerteza,
Esta pressão expansível e estridente
Devotando o meu cérebro à exaustão.

Sentindo, intento não sentir o que tão cedo se revela,
Quando num qualquer pensamento distraído,
O sonho interpela a pérfida vontade de te não querer.

E procurando cumprir esse desígnio estranho,
Aqui fico e assim me estendo ao (des)engano da razão,
Consentindo a cordial e conforme ausência de mim.

Pesam-me os ouvidos, o dorso desfalecente de água,
Frustrando-se no leito do pensamento, despojado e livre,
A frívola conduta que do silêncio abnegado demais exige.

Assim resisto, assim me assisto neste falhar constante.

~



Bachiana Brasileira nº 4, Prelúdio (H. Villa-Lobos, int. Nélson Freire)

Wednesday, May 20, 2009

Hoje, o tempo



retirado de www.olhares.com (link autor)

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Prossigo com vagar pelas ruas da cidade, matinalmente floridas de gente fresca e semi-desperta correndo freneticamente para mais um dia de trabalho. Prossigo em contra-mão ao revés de exasperantes filas que se amontoam no Terreiro, toldando-se como finas partículas de pó desfalecente sobre os umbrais do Palácio da Justiça e infiltrando-se na calçada do Paço, hoje tornada calabouço autárquico.

Prossigo perseguindo a maresia, a suavidade do vento que por instinto vocaciona o meu corpo para um ponto específico do espaço. Fixo o passo e olho em redor procurando o mar, a inconstância das ondas sobre tela, das listras douradas sumindo-se à beira rio, diante de uma faina postergada à desventura num qualquer convés de cartão diluindo-se nas águas infectas do Tejo.

Cerro as pálpebras procurando estilhaços de vida, de tempo dissipando-se na inutilidade das horas que passam, vagarosa e regularmente como as ondas que sempre retornam ao mesmo cais, ao mesmo poste de metal, ao mesmo autocarro que tarda em chegar.

Filas, buzinas, pó, ruído. Tudo num espaço onde, aquando no tempo julgava estar livre, ser livre, o meu corpo tremia extasiado de esperança, da mesma esperança com que de novo e com vagar prossigo pelas ruas da cidade, Rua áurea, Praça da Figueira, Largo de Camões.

Hoje, o tempo sou eu.


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Ausente, Custódio Castelo (in Tempus)

Monday, May 18, 2009

Torga ...



Eurico Carrapatoso | Dois Poemas de Miguel Torga

*

Requiem por mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.


Miguel Torga, Diário XVI

Para escutar ...



Nocturno em Ré bemol maior, António Fragoso (int. Miguel Henriques)
Fotografias de Monsaraz retiradas do site www.olhares.com

Sunday, May 17, 2009

Das ruas da cidade




Percorro velozmente as ruas da cidade. Veloz como as luzes que riscam e ferem os meus olhos, como o vento cortante e espesso embatendo contra os vidros. Nele se imiscui a música, dele vociferam ruídos, pensamentos tornados ruído, saber tornado ruído, procedimentos tornados ruído, palavras, gestos, sons, cores, movimentos, queixas, dores, sofrimento, tornados ruído.

Procuro esquecer, procuro não ouvir os gemidos da loucura, a cólera obsessiva da loucura, das palavras errantes consumando impropérios de comportamento. Procuro esquecer a total ausência de juízo, a negação total da realidade. Nada pretendo saber acerca da frivolidade das suas intenções, da utilidade dos álbuns que laboriosamente constrói, dos restos de jornais que avidamente esconde sem que desse agir me ocorra uma intenção plausível, qual prosélito obstinado pregando a sua doutrina de plástico, rezando a um Deus que não existe, que não cabe na (in)justiça dos homens. Talvez porque aqueles que se julgam homens sejam mais loucos do que ele. Talvez porque dessa ausência de sentido flameje tão somente o embuste da doença, tão querido quando o que fazer não mais existe, nem mais o que dizer.

Percorro as ruas da cidade sorvendo do seu ar peganhento, emplastro penetrando nos meus poros como gordura. Cheira a esgotos desaguando no rio, a entulho, a fezes, a urina, a lixo escamoteado por entre girassóis e ervas daninhas de um jardim em flor. Asfixia-me este ar seco. Cheira a borracha queimada, a suor repassado, a naftalina, a gasóleo. De novo aquela imagem, este constritor nó que me aprisiona o pensamento.

Veloz pelas ruas da cidade pressinto um vulto lancinante de aço esvoaçando sobre o asfalto. Do epicanto do olhar reflui um renque esverdeado de metal, uma parede tatuada pelo grito revolto de um qualquer jovem de hoje. Nela subjaz o desespero, o transtornado e angustiante vazio das horas, o epígono da pobreza. E desse mural, dessas paredes pulverizadas de obscena descrença, brotam placares penfigóides de ministros, de candidatos a ministros, todos eles metamorfoseando-se em listras coloridas sumindo-se ao tremor crescente e agónico do pedal.

Dói-me o corpo, as pernas, os dedos. Consigo ainda escutar as suas queixas, o braço esquerdo que prendia, a cabeça que batia, o coração que não sabia a quem se queixar. Escuto ainda os seus lamentos, as dívidas por saldar, o pai que não enviava o sustento, a mãe só, os filhos para criar. Escuto as palavras que a mais ninguém podem contar. Tolero a somatização dessa ausência. Partilho a dor da descrença. Parto. Parto acenando, para o exterior. Existe um mar fosforescendo ao sol poente, um bailado de esferas trazendo a noite e consigo o aconchego da música. Parto sorrindo, para o jardim, para um parque donde ao longe reverberam brincadeiras de crianças, bolas embatendo contra postes de ferro, repuxos jorrando gargalhadas de uma vitalidade sem limites.

Procuro um espaço, um rasgo nos seus discursos verborreicos, nos seus monólogos doentios. Lanço a voz à brisa alva da manhã, às ondas estendendo-se em toalha sobre a areia fresca, ao odor primaveril donde decorre a esperança, a força para lutar. Tento explicar-lhes a efemeridade da vida, a beleza das coisas simples, a clareza prática das soluções... Mas tão cedo me sinto só naquele vácuo tungsténico onde a própria luz é fria.

Os comprimidos apenas, passe-me comprimidos apenas doutor, um remédio, um xarope, uma injecção, uma receita, doutor, preciso que renove a baixa, a situação está insustentável, não consigo trabalhar, não me sinto capaz, cortei um milímetro de dedo, estou incapacitada, sinto-me deprimida, doutor, o que eu tenho é depressão, renove-me aquele comprimido que tomo ao deitar, preciso é desses, dos outros tenho lá, dói-me a cabeça, assim tipo pressão, não sei explicar, do que eu precisava era dum táque à cachimónia, tenho dores em todo o lado, nas pernas, nas costas, no ombro, nos joelhos, nos pulsos, o outro doutor disse-me que era reumático, eu julgo que está a passar com estas pílulas de alho que também fazem bem à minha sinósite, já agora, por falar em sinósite, passe-me aí umas análises, eu sou saudável, vim cá só para pedir um cheque up, umas análeses de rotina, que isto do castrol é preciso ter cuidáde.

Procuro um espaço apenas, um qualquer meio que me teletransportasse para o silêncio líquido do campo, para o mais recôndito e incólume recanto onde contigo pudesse esquecer este amargo em que me extingo. Esgotam-se as reservas da tolerabilidade, do humanismo hipócrita do fazer de conta consumado em dois apertos de mão, quatro palavras toscas e seis sorrisos solidários. Apodera-se do meu corpo o cansaço, o sono exasperante da inércia. Atormenta-me o facto de nada poder ter feito diante daquele rosto baço que palidamente circunspeccionava o meu agir, testando os limites da minha indiferença.

Sofria, sei que sofria, pois que dos sentidos se activou um certo modo de compaixão, como se esta
em nós existisse num estado pré-programado, independentemente da causalidade de uma dor prévia, partilhada. Não. Não consigo chorar, não consigo sentir o que em mim não cabe, talvez por defesa, não nego, talvez pelo simples facto de tratar-se de uma doença da sociedade e não singularmente dos que nela vivem. Procurar em si um sentido para a vida e na dor o aconchego desconcertante de um médico, de um estranho, reflecte tão somente a insanidade em que vivemos, tendo por fim último uma felicidade disforme, para a qual (con)corremos de forma apressada e às cegas. Só em ti encontro esse viver verdadeiro e sincero, despojado das circunstancialidades materiais, da mesquinhez e tangencialidade com que se engendram projectos, vidas resolutas no momento da concepção. Só em ti.

Inspeccionava aquele corpo, percorrendo prega a prega do seu rosto, evitando sempre o confronto do olhar, como se ali eu fosse um elemento estranho, uma presença indesejada, tal como a sida que o consumia, que o havia remetido para a clandestinidade, para o cárcere da exclusão, do preconceito, do obsessivo medo de contágio, da inquietante vergonha, da devassidão de uma vida questionada a pente fino, como de resto acontece quando alguém por nós assume o sofrimento tornado incapacidade, exigindo em contrapartida aceder aos pensamentos mais íntimos, intimando qualquer fragmento de passado mais turvo, manipulando o pessoal e intransmissível direito deliberativo em troca de parcos cuidados e alguns trocos para o internamento. Depois? Depois partem por uma semana, por horas que aparentam não caber nos limites da eternidade, pelo menos do ponto de vista de quem sofre.

No alheamento do sono, pressinto pertencer à sida, sida de uma sociedade de pseudo-artífices, atolada de obras plastificando a mente dos que se julgam magnos. Também eu pertenço à sida que te remeteu para o silêncio, para a dor ocultada pelo temor da discriminação, pois que hoje não há espaço para os fracos. Também eu, também eu sou sida, também eu sou produto de uma espécie de desvario replicativo, de uma geração de modas, transviada por interesses acéfalos. Saíste com a mesma dor, com o mesmo rosto macilento, com os mesmos receios, sem que ao menos eu pudesse ajudar. Saíste devotado ao similar silêncio com que havias entrado. Saíste recurvado. Saíste. Saio.

Eis-me percorrendo velozmente as ruas da cidade. Veloz como quem dormita ao volante de um carro descontrolado, como quem se agita no cerne de uma contenda predita, como quem contesta a sorte na certeza de provento garantido, como quem renuncia à doença por antecipação de um futuro débil, doentio. Veloz como as ideias que se sucedem, que mesmo antes de serem ideias embatem desgovernadas no mural da desatenção, nos prédios truncados emergindo desta paisagem degolada por fios de alta tensão.

Procuro. Procuro-te no constante instante da memória... veloz... , ..., d-a-a-s... r-u-u-u-a-s-s.... d... cida-a-a-d ...

Monday, May 11, 2009

Reflexão




Discorre do amor o mais pitoresco dos estados de alma, o mais exangue estado do pensamento, o mais obstinado estado do sentir. Tudo num confronto de almas enternece, seja o mais sóbrio dos sorrisos, o mais desinteressado acenar, o mais subtil adeus, o mais exasperante e indesejado partir sem que dele um olhar se revolva, sem que dele uma palavra me devolva a esperança ou a mim. E num estado de fustigante insónia aqui fico macerando o sono, degustando o cansaço, consentindo os nervos que afloram da exaustão. Aqui fico catalisando as palavras que não disse, o imenso sentir que ficou antes que alguém visse, a apraxia que constantemente silencia o agir, a concretização desta certeza cada vez mais perene, cada vez mais certeza. Discorre do amor o mais grotesco mas sincero modo de vida, o mais indefinido mas absoluto sentido, o mais constrangedor mas livre querer. Pudesse... Conseguisse ao menos dizer.