Tuesday, June 23, 2009

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Escuto com desdém berros estridentes e afilados profanando o sossego, o silêncio que o meu corpo todo pede, talvez porque qualquer som alheio ao pensamento desequilibre o êxtase mnemónico que daquele momento [me] ocorre. Escuto ainda, sinto ainda no corpo o calor (es)corrente, a ânsia sublimando-se ao abrigo de uma voz serena e doce velando o suor das almas, o pélago vítreo dos meus olhos diluindo-se em lágrimas de felicidade, de um sonho por cumprir, cumprido, de uma espécie de saber contido nos limites que o tempo, material e lento, impõe ao porvir incerto.

Escrevo ao som cavo, já longínquo, da memória, da invocação obsessiva e constante deste coração que tanto insiste, desafiando os limites do seu corcel de nastro, do envólucro que o traz guardado desde as origens. Escrevo sobre mim, sobre este ser que carrego e mal conheço, sobre o conteúdo que se não mostra senão à razão e ao intrínseco sentir que adentro de mim leveda, sem que o mais ínfimo fragmento se exteriorize.

Que importam as palavras já escritas? Os excertos de vida germinando de um sentir alheio, de uma indignação que não é minha? Que importa o que a arte me revela se de mim nada encontro que explique - nem uma alínea, nem uma palavra ou eco do que sou. Comigo apenas, e ao largo do ousar querer que em mim errou, prefiro contemplar a arte da descença, aquele momento ínfimo, mas inteiro, provindo de um estar sendo que algures no tempo idealizara. Comigo apenas, vivo no aparente silêncio da memória, do surrealismo quimérico que por instantes, ali, me fez feliz.

Monday, June 8, 2009

idem idem " "



[Doca do] Bom Sucesso
Belém 2009


Repousa ao vento, amortalhado, escorrendo de um qualquer refúgio de água. Escorre, letra a letra desbotado, diluindo-se no frio chão do esquecimento [que procuro]. Desse fluido denso e espesso, reciclam-se vozes de um outrora-agora resplandecendo ao cimento abrigo deste céu triste, de pedra. Nele ecoa um sentir recluso, presa de um coração jovem, puro, honesto, ideando os limítrofes contornos de além-vida.

Da razão, do ímpeto do pensamento tornado desejo e incontornável querer, ergue-se o vulto de um amor imenso, o gesto da criação perfilando-se nos escombros da existência, na celeridade mórbida que o ar da cidade impõe. E dessa (in)cumprida falta, desse exasperante presente que em estar sendo implica não ser, invoca a força ondulante da terra, o silêncio
telúrico do mar.

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Sorvente, talvez imberbe, trago dessa seiva escoante, desse vapor de barro exalando do teu corpo frágua, e embarco, embarco inebriada por essa sede, por essa ânsia que foi [e ainda está] em mim [dormente]. Parto imbuída desse agir sincero e obstinado, algures perdido ao largo da desilusão [agora por ti e em ti revisitado]. Reacendem-se agora velhos motivos abnegados, restos entusiastas de uma espera tornada cansaço. Descubro-me a mim e à vida que não foi, talvez por letargia, ou tão somente porque o tempo é escasso. Agora olho, e escuto, e cheiro o que os meus sentidos censuraram, sinto agora o frémito que o dever laboral [ou talvez a certeza de por quem esperar] calou. Lanço-me à desventura de um abismo tão profundo quanto a tua existência, consciente de que o tempo de ser passou, certa de que outros seres virão, e por ti, como eu, revisitarão fragmentos da ténue e frágil beleza enucleada de seus âmagos invioláveis [e que o presente férreo tornou de aço]. Aceno à queima-roupa desvelando um pouco mais de mim, retirando aos poucos o camuflado saturnino que me sufoca, verticalizando ao céu as arma[s]duras que carrego, confiando ao pensamento axiomas de um amar tão inteiro, tão puro.

Que importa o desenlace se aqui e agora, nesta trégua que me concedeste, retomo o fôlego e a esperança que um dia ficaram. Que importa a singular reciprocidade deste amar [também ao sol germina a vida e ao raiar unívoco e fecundante de Apolo, um tropel de gerações peregrina no teatro-esfera da vida, não tanto no seu sentido, mas antes no sentido da sua presença, do seu amor universal]. Que importa o que sinto se é o teu sentir que me importa e que de mim importa a vergonha e devolve a humildade com que firmo e afirmo este desnível querer. Que importa mais que o presente que me trazes, mesmo que vivido a sós com o pensamento. Sei que não posso pedir mais, mais sabendo que não posso recusar o que me foi concedido. Reconheço-me tão somente como retalho de fractal sumindo-se na ilusão da [nossa] existência.

Vivo, o presente. Assim. Vivo.
Só o futuro, esfíngico, me ocorre.