Saturday, August 15, 2009

Escritas unas ...




O Beijo

Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.

Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...


Alexandre O'Neill
(No Reino da Dinamarca)

Saturday, August 8, 2009

Algar



Carvoeiro
2009


Poderá, no quotidiano passageiro e incauto dos dias de hoje, esta angústia parecer não mais do que produto do facilitismo a que a nossa juventude, por força intrínseca de nossos pais e por inspiração e sofrimento dos avós, fora acomodada. Poderá desta tristeza amarga emanar a fragrância rósea de quem jamais talhara a terra com a enxada da fome e do suor. Poderá este corpo mole, cansado e torpe, albergar a redundante falência da vontade, talvez por excesso de tudo, ou tão somente pelo vazio a que tal desmesura nascera condenada.

Creio contudo que esta ânsia, que este querer mais do que a vida, que esta insatisfação perene, que esta ira que (a)dentro se revolve, que estes acidentes de mim, em mim são verdades sem nome, que só a chuva, o vento e a noite acalmam. Pressinto em si a autenticidade das sensações que se alevantam sem aposto, do grito que o silêncio todo estremece, da alvura de um sorriso de criança que preenche e enternece o vazio dos dias vãos. Sei-me estar sendo, a mim e a este peso que carrego, tão espesso, tão denso, que apenas em verdade, e porque verdade, se não esvaece.

Agosto. Mês do calor vácuo das gentes, da opulência melânica escorrendo sobre fácies ressequidos, das paixões breves quebrando-se como crostas de açúcar acre ao beijo primo do porvir incerto, das noites de insónia, de suor deslavando corpos que se roçam e enroscam, ensurdecentes, num clamor alvo de
timidez nuda. Agosto. Mês do esturro e do vapor escasso das ondas jazendo ao horizonte longe. Mês do tédio, do tempo lasso, do bulício gástrico findo o repasto. Mês de nadas.

Como ensejo pelo frio, pelo aconchego do fogo ardente das noites boreais, pela chuva batida a vento nos umbrais. Pudesse ao menos a este azul ardente suceder a opalescência de um dia de Novembro, a calma devolvendo-me à vida íntima do pensamento, das palavras. Pudesse ao menos tomar nas minhas as tuas mãos; consentir este sentir vasto que ao silêncio da noite se revela, todo em si por habitar. Entanto houvesse neste tempo baço ósculo estivo que me amasse; olhar terno e derradeiro aprazendo à esperança a força que tarda e cansa.

Mas o tempo passa, e passam Agostos evocando a saudade. Saudade de tudo quanto não tive, porque te não tinha e esperava. Saudade que persiste, por te não ter aqui, comigo, nesta luta que traço a contragosto da razão. Saudade sabendo-se para sempre saudade, única, unívoca, inconsumada, porque só esta, para todo o sempre, em mim existirá.

E resto-me a mim, fria, confidente de mim só, procurando no amar, despojado, sincero e livre, a realização plena do meu ser. Elogios, oferendas, sorrisos, todos largo avulso à sorte de ninguém. Nada espero para mim senão o constante instante da memória, o júbilo e intrínseco viver que fora em vida e que vida em mim sorbrevirá. Mais do que ter é dar. Mais do que para mim querer é querer para o mundo. Mais do que para mim viver é fazê-lo pela vida, em absoluto.

Sopram gaivotas ao silêncio póstumo do dia, e sobre o mar, reluzente, negro, perfilando-se além no rútilo contorno das ondas, avisto já os dias breves de trabalho e dedicação por que tanto esperei. Por si devolverei à solidão o dom da espera e à vida o sentido que me guia, contigo sempre.

Pesa-me o cansaço do mar nos braços doloridos. Estala-me a pele, ardem-me os olhos raiados, aturdidos. Tamanha a beleza que ante mim se impõe - Arcturo, Vega, Deneb, Altair, Júpiter.

E aqui me estendo: extática; vogante sobre a frescura deste algar; bailante na
brisa maresiada e doce de alfarroba e figo.

Escuto as ondas que se esbatem. Fecho os olhos. Sonho-me viva.

Friday, August 7, 2009

Nem sempre ...



Nem sempre
Belém 2009

~

Nem sempre é fácil sorrir aos dias de desalento, nem tão-pouco assistir às misérias humanas desfilando ante o cansaço. Nem sempre é fácil atender à chamada quando a dor interpela a vontade, que assim se cala num - Afinal não posso. Não faço. Nem sempre é fácil aceitar o erro, a derrota
; consentir a fria abstracção do sofrimento, à mingua de um pouco de tempo, de espaço. Nem sempre é fácil constantemente ser e amar. Nem sempre é fácil viver, nem sempre.

video
Asturiana, Manuel de Falla
Kim Kaskashian - viola; Robert Levin - piano

Monday, August 3, 2009

idem "



Foto retirada de
www.olhares.com (link)


~

Pensei que as palavras, por si só,

meus pensamentos revelassem,
e que o gesto natural e puro
- sorrir sincero, aberto, vasto em si,
fosse evidência bastante do meu sentir.

Mas o vento passa, fresco, indelével,
e trago brisa da brisa alada e doce
trazendo-me a verdade desse olhar

- olhar seguro, grave, derradeiro,
longe de um presente, sendo, que tardou.

Já nada segura o vento que passa.

~

video

Gabriel Fauré, Le Secret, op. 23, N.º 3 (Armand Silvestre)
Contralto - Nathalie Stutzman; Piano - Catherine Collard)

Sunday, August 2, 2009

idem



Sesimbra 2009

~

Revolvem forças escorchantes
Esta terra onde ninguém se agita
E no silêncio absorto da indignação
Falecem murmúrios lancinantes
Desvalidos no alúvio da descrença

Talvez pudesse ser feliz -
Dalém uma voz de alento
Sustentasse o meu corpo
Do peso de querer bem ao mundo
E tornasse o sonho menos real do que a vida

Mas aqui fico e permaneço silente
Boleando arestas de ausente vontade
Estirando fragmentos de incerto querer
Concretizado na dormência pétrea de mim
Toda ali subjugada ao saber-se insuficiente

Assim vão os dias vãos ...