Friday, September 25, 2009

... até sempre



Foto retirada de www.olhares.com (link autor)

~

Corpo débil gelado
Defraudando o pensamento lúcido
Já cansado de tão só lutar

Olhar de sofrimento
Impossibilitado de ao menos dizer
Uma breve palavra um ínfimo querer

Rosto macerado pela dor
Dor carpindo a dor demais
Dor pungente que o amor calou

Mas tudo finda
O sorriso de esperança
A força contrariante do partir

Hoje dia plácido derradeiro
Hoje cumprir-se-á a tua sede
O justo desejo de não viveres por mais

Até sempre



Good night!, de On an Overgrown Path (Leos Janacek)
Josef Pálenicek - piano


Saturday, September 19, 2009

... de uma folha em branco




~

Existe uma capa que se esconde

Na contra-capa da razão
Lugar onde habita o sentir
Saudoso alento dos dias vãos

Mas uma outra capa ainda
Na ante-capa do amor persiste
Fronteira onde o sol se esconde
Deposto o sonho que nem viste

Não sei qual delas escolher
Se a razão que na vida assiste
Se o terno amar suave e triste

Talvez um bago báquico de sonho
Antecipando-se ao dia inteiro e lúcido
Velando a ulterior ausência em mim

~



Por Vezes uma Núvem
António Victorino d'Almeida / José Carlos Gonzalez
Gabriela Canavilhas (piano); Ana Ferraz (voz); António Costa (trompa)

Thursday, September 17, 2009

[...]



[...]
2009


~

Sempre uma pergunta
Sem resposta
Uma folha perdida
Apátrida esquecida
Um tempo arrítmico
De um coração
Que sem tempo corre

Sempre um querer
Difuso confuso
Uma força íntima
Fragmentando a inércia
Um demais sofrer
No limbo-amar
De um sonho desfeito

Sempre um dó
De por não ser ser
Um óbelo de afecto
Soerguendo a exaustão
Um corpo imperfeito
Sem propósito nem jeito
P'ra sorrir a dizer não

Sempre um ai de outro
D' aqueloutro de ti
Uma perifrase rouca
De alento e esperança
Uma chamada à solta
Frustrando o esforço
De fazer parecer vida

Sempre um amor
Subjugando a impassibilidade
Um impossível querer
De um corpo que se quer frio
Uma verdade premente
Irrompendo do olhar sem brio
Vacilante esquivo

Sempre por dentro
Adentro de mim
Aquilo que
se não vê
Um sentir íntimo de saudade
Que não revelo
Um esquecimento redundante
Por que torno e escrevo.

Sempre.

Saturday, September 12, 2009

... por Lisboa (II)



é de plástico este poema
agónico e deflexo
que arroto
e amarroto
sem sequer saber
de que é feito o amor
desinteressado
absorto
despojado da inércia-
-ânsia de superação
afásica
demente
sorvente de humilde querer
neste mundo que se fixa
a uns olhos amargurados
de criança gemendo
madrugada fora
órfã dos seios ocupados
de sua mãe
vendendo suada vontade
leite que de dia
sustenta
sustém
mas que na noite
amortalha o corpo
derramado
e consigo a pureza
de uma alça
que descai
sem rosto-
-alento
que a[s]segure
nem grito algum
que a não revele
toda miséria
toda poesia
de um coração
blindado
que se cala
faminto
ignorado
nesta cidade
adormecente
dormente
ao múrmuro
clamor de um
e de um só pensamento-
-nome: meu-Filho

nOTA pRÉVIA



Neblina
2009


Não. Não me canso de repetir o silêncio e de nele envolver o meu rosto, o meu dorso, as minhas mãos. Não me canso de repetir, no silêncio, o pensamento que à escrita me traz e acorre, dia após dia de ausente presente, manhã após noite, tarde, antetarde, diluindo-se no vulgo transitar das horas.

Percorro o espaço na [des]razão do fazer incerto, fintando a lazeira a passos céleres, adoptando ao dever de explicar o gosto de dar a conhecer do pouco que julgo saber, partilhando a entrega e o âmbito com que esboço o porvir incerto, esperando, esperando e ansiando pelos dias que tardam, pela escolha que se impõe cada vez mais forte e perene, pela decisão tomada ansiando na iminente eventualidade do [in]concretizável.

Por vezes não sei se o que penso chega a ser pensamento, ou se por contrário será não mais que uma manifestação involuntária cantada em verso suado e escravo - métrica de uma vida autómata, impondo-se ante a fraqueza e o fracasso. Há uma sucessão de acontecimentos que passam, mantendo-se incólume o recanto da deliberação e da vontade. Em si nada perturba a dormência em que se encontra encerrado (tempos idos, quando o querer era um poder mais que o não poder).

Agora?! Agora aquilo que corre somente corre desgastando um corpo a mais, [sub]jugado, jogado como pedra cansada por sobre si tod'água vogar, sem que nada fique. Nada de terno, nada de sincero, nada de contencioso. Se passo pelas coisas sem as ver, passam-me elas de viés, sem que um gesto meu infira um sorriso, um acenar não-cénico, acénico, aCÉnIcO, aCÉNICO.

Mas sobrevivo sem mágoa nem desprazer, pois que é mais forte a força d'acção, da razão de ser desta contenda entre o presente e o acaso. Quando me faltas, sonho, pensamento involuntário; quando trespassas aquilo-eu que ama, como coisa fosse, como objecto transponível esbanjando beijos que se não sentem e não voam; quando tudo inflora de ti em mim e realizo a solidão, a tua sempre presente ausência - logo habito e me habito na alvura do hábito, na candura que a dor instiga, na fragilidade escoando de um socalco-franzir de desamparo e sofrimento.

Talvez hoje saiba aquilo que procurei esquecer quando errante deambulava no melindroso idílo que inventara. Talvez hoje saiba tratar-se de uma espécie de pensamento autómato, de um tal de querer anópsico que inusitadamente me abarcara a ti.

Por agora, sei que todos os dias são dias.

Tuesday, September 1, 2009

... por Lisboa



Lisboa 2009

Tristeza esta que trago comigo
.
Tristeza que consome e afasta,

Tristeza que o corpo todo desgasta.

E de um querer já farto
De tanto crer,
De uma sorte resignada
Ao perder ...
A luz de um dia denso e espesso,
De chuva e frio,
Devolvendo-me na espera
A real-sonhada esperança
Neste viver abnexo.