Saturday, October 31, 2009

Percursos

Sintra
foto retirada de www.olhares.com (link autor)


(...) Tendo escrito a maior parte da minha obra em Sintra, onde tanto sonhei e trabalhei, eu desejaria ficar ali para sempre (...). Desejaria ficar sepultado à beira duma dessas poéticas veredas que dão acesso ao Castelo dos Mouros (...). Ficar perto dos homens, meus irmãos, e mais próximo da lua e das estrelas, minhas amigas, tendo em frente a terra verde e o mar a perder de vista – o mar e a terra que tanto amei. (...)

Ferreira de Castro (ligação)

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Escrevo de uma febre que ascende, adentro, em mim. Escrevo escutando o silêncio, ao longe. Longe dos prédios, das multidões ofegantes, dos laivos de gordura anediando a tez de ilustres iluminados, de famosos contadores de estórias aclamando a si a mais plena das razões, brotando a si o aparente e fleimonoso saber de todas as causas, de todos os homens, anunciando chavões abstrusos, lançando e impondo, do antemuro da ignorância, a sua suprema e incontestável dádiva pessoal ao mundo. Escrevo ao som crepitante da terra, das pedras soltas rolando sob os meus pés, das folhas secas de Novembro caindo ao som mastro do vento, ondulante, sibilante, vago.

Dependem cascos de árvore cindindo o horizonte-mar, entrecortado ao longe por construções esguias, colunas de cimento arborizando a cidade. Silente e revigorada, sinto em mim toda a força da terra, todo o esplendor do húmus, desta seiva que me alimenta, desta frescura álea devolvendo-me à vida, de que ando ausente, toando em crescente, reluzente, resplandecente, aqui e agora, neste presente instante em que o amor renasce autêntico e capaz, dimanando da força árida dos penedos, da eucaliptal fragrância de saudade dos tempos em que éramos
um e um todo só de mar, de céu, de terra, olor bruto de verdade, viandantes astros ao vento-abrigo da vontade, extinta a imposição das horas, depostos os limites da frialdade para que fomos deportados em massa. Pressinto aqui e agora o beijo-olhar unificante, contestante, de nossas vidas fremindo na devassidão dos tempos - tempos de valores apátridas impondo-se contra-vontade. Trago e sorvo, aqui e agora, fragmentos desta glória de estar viva, de sentir-me viva, de dar-me em vida e pela vida, bebendo em êxtase deste momento de fraternal intimidade.

E escrevo, deambulante... Escrevo de uma dor que lanço ao acaso distante, de um estar sendo amargurado, soía doce, alastrando-se, adentro, em mim. Escrevo escutando o silêncio, ao longe. Longe da pólvora amordaçante das almas, do viver altercante e desapaixonado com que dia-a-dia em vão consomem suas vidas... Escrevo longe... Ao longe de tudo aquilo que te não invoque, viandante raiar de solidão. A ti e à sempre presente ausência que me assiste.

Friday, October 23, 2009

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Chove, uma vez mais. Chove como quando em tempos idos um brilho-olhar refulgente de criança, sorrindo sem desfaçatez às incongruências do mundo, era mais sincero na imberbe (in)compreensão da vida, do que as falsas pretensas trazidas a lume pela idade. Digo, pela idade, não no sentido pejorativo, mas sim com sentido meramente temporal. Experiências, sucessos, insucessos, elogios, críticas, bonanças, desavenças, todos reunidos na amálgama do agir, do pensar, do sentir e, em findo caso, do ser.

Passam dias como fitas de longa-metragem, rodando incessantemente a contra-tempo das horas. Ressoam telefones, apelos, gritos de dor, palavras de conforto, sorrisos de amizade. Dobram as portas da reanimação, sibilam sinais de vida, (dis)ritmos debilmente audíveis, fácies de dor gemente, que não vêm referidos nos anais. E ao longe, do i
nfindo infinito corredor transbordante, o sorriso acutilante, pseudo-devoto-inteligente, de uma espécie de gente pregando à suprema vitalidade, à fantástica ideia de ser bem, e dizer bem e fazer bem, porque assim se parece bem, e se é bem. Ignorância? Falar de ignorância ao magnânimo dos seres? Falar de ignorância e humildade no antemuro da arrogância, da petulância interpondo-se a qualquer tentativa de diálogo?

Também, ao fim de contas, que importa? Que importa um corpo ulcerado, repleto de escaras, cheirando a morte, jazendo nos confins de um corredor? Que importa se importará ou não, quando na realidade esse corpo amorfo nada comporta, pois que dele nada mais se poderá esperar para além de uma dose letal de trabalho e complicações? Não, nem a família importa! Ministeriais? Doutores? Claro. Mas da miséria, do suor. Sofrem como os outros? Sentem como os outros? É bem certo, mas que importa se não dão provento?

Que importa ser mel fétido, pousio de moscas vociferantes, vorazes, antecipando o reconhecimento das suas vítimas? Carne morta? Pois bem, que seja. Diariamente a consumimos sem remorso nem culpa, é um facto. Que fique então para ali, subjugado aos desígnios de umas coisas que palreiam, cacarejando boa forma, disposição, equilíbrio. A morte? O partir? Aqueles que ficam? Que importa, se dali a algumas horas o regozijante conforto do lar, dos amigos, da pessoa amada, suplantarão aqueles breves minutos de composto altruísmo? Que importa, se não tardará o
aconchegante cheiro de um forno a lenha, ou o humor contagiante de um programa televisivo, ou o apanágio de uma superior condição social, de um mundo em tons de rosa, como se nada se passasse, como se sofrimento algum existisse.

E enquanto isso... O mesmo corpo crepitando, o mesmo frémito bramindo de sofrimento, o mesmo estridor rouco apelando à paz, sem que palavra amiga, companheira, suplante a dor de uma picada, de uma algália perfurando bastidores de intimidade, de uma gargalhada seca regelando um corpo já cansado e farto de lutar contra si mesmo.

Para que serve tanta (des)humanidade? Para que serve tanto apego à vida? Para quê tanta ostensão, tanto conhecimento de lapela, tanto humor de intenção? Porque não ser-se autêntico? Agir na verdade do momento, mesmo que isso implique ser-se bom para quem talvez não mereça [quem somos nós para julgar os outros?]; mesmo que isso implique uma palavra de esperança impossível [quem não o merece?]; mesmo que isso implique dar sem receber em troca [não será esse o mais autêntico de todos os propósitos?]; mesmo que isso implique uma crítica, um alerta em relação ao muito que
ainda há para saber [não será isso oportuno para que possamos melhorar?]; mesmo que isso implique o contributo para uma morte condigna [não será esse um direito outorgado pelo criador?].

Chove. Chove chuva batida a vento gelado. É chuva verdadeira, autêntica. Chuva de criança escorregando na berma de um passeio-manteiga. Do mesmo passeio em que brindara ao presente livre, despojado de intriga, de ambição, de perene competição. E essa chuva, que agora (re)lava o meu rosto, é real. Sinto-a, adentro, por dentro de mim, reconfortando o meu espírito, que sorri. Sorri ante as incongruências do mundo. Sorri porque a elas pertence, em toda a sua plenitude, em toda a sua força, e nelas constrói um sentido para a vida. Para uma vida de luta, de combate na mesma linha da frente, ao mesmo nível de humanismo e verdade com que nos encara o confiar pleno de um doente, de um número que também sente, que também existe para além das folhas de diário clínico, do dossier verde macerado nas pontas, das argolas desalinhadas pelas quais, aborrecidamente, se desconjunta a informação burocrática [por vezes mais importante que o próprio doente].

Que importa? Que importa o bem-estar fictício, engendrado, pensado, planeado ao mais ínfimo pormenor? Que importam os bens materiais se a felicidade reside nas instâncias mais simples do nosso quotidiano? De que vale um carro quando um sorriso de criança invade toda uma sala? De que valem uma mala, umas botas, uns brincos, comparados ao terno olhar de um velhote carcomido? De que vale um chánnelle quando o preludiar de um simples odor de vida resplandesce no leito de esperança de um desvalido? De que valemos nós, carne da mesma carne, destino do mesmo destino? Mais que o ser que sem nada sofre?

Thursday, October 22, 2009

"positivo"


Quando os sonhos se desfazem

E o desespero cruento alheio
Que de alguém fora um dia
Em ti se infiltra e tarda
Sem tardar

Quando a lágrima infecta
Desbrida a casta integridade
Sem que ao menos um gesto
Uma contra-ordenação sequer
Justifique a dor presente

Quando o pudor alastra
Sobre o teu corpo já tocado
Beijado
Postergado ao abandono-sorte
Da ignorância

Quando a repugnância
Instiga a repulsa
E o medo vacilante escorre
Fervilhante
De um fácies-bicho encasulado

Quando da pessoa-ser
Tudo esquece
E ante apelo-amor de ti
Nada nem ninguém
Se enternece

Quando um olhar esmorece
Sobre a tua mão estendida
Sem que de si abraço alente
O desespero incógnito
De ter[ser]es sida

Quando do teu brilho floresce
A procura-amizade
De um só alguém que sente
Na monstra solidão
Da luta

Tudo erra

Mas quando dessa esperança
Um pulsar fremente
Nos ensina a escarnecer
De projectos-vida inconsumados
Deposta a resignação e a culpa

Aí aprendemos a viver!

Wednesday, October 14, 2009

Carlos Paredes - in memoriam


video

Porto Santo - Carlos Paredes
Voz - Lia Graça
Poema - Isabel Bogalho

(Teatro Sá da Bandeira - Santarém)

Monday, October 12, 2009



fontechoro
Restauradores 2009


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... o meu coração chora
chora a medo de cansaço
feito massa de silêncio ao peito
desfeito poema de ilusão ...

... chora porque ao longe
apenas o mar e o céu
e no porvir confuso
o dever de te não querer ...

... chora de olhar desfeito
privado de aceno-beijo
que devolvesse à saudade
o instante em que partiste ...

... c ...
.......... h ..
.................. o ...
........................ r ...
................................ a ...