Thursday, December 10, 2009

Botche


Foto retirada de www.olhares.com (link autor)

Recurvada sobre quadris de lenho doce,
desconjurando por bondade os anjos maus
e sorrindo aos homens que embalaste no ventre,
e que sublimaste no esguio afago dos teus dedos,
sorris basculante à flor melânica desse brilho-olhar de mãe,
de mãe-avó, de mãe de todas as mães, mãe-irmã, mãe de nós.

E dançando indulgente ao canto mutilado da fome,
subvertendo o dorso diáfano à batuta do tempo que te maltrata,
gemes silente no leito pétreo e gelado do esquecimento,
sem sonho algum que de ti se alevante ou revolte,
convulsando em acessos kochianos de dor cálida e plangente
múrmuros desejos alastrando-se sob a capulana solidão.

Monday, December 7, 2009

Invocação


Se esta noite não acabasse nunca,
e este saber inconsciente não mais findasse,
e o som que em mim estala fosse tão real
quanto aquele que de mim sinto em mim só.

E se o mais profundo e cenestésico querer,
astro vigorante do panteão dos sonhos extintos,
porventura trouxesse um pedaço que fosse desse olhar

nesta noite de cristal desnudo, desflorando a solidão.

Se assim fosse, assim não acabasses nunca, ó noite!