Friday, January 29, 2010


por Lisboa - 2009


Por fim,


quando seca a voz extinta em desvarios;
quando amargo o doce amar amor desfeito;
quando liberta a ânsia em mim ardente ao peito:
o cansaço perverso e fasto de mentir.

- Coração,
porque bates sem leito,
a sucumbir?

Friday, January 22, 2010

arvalap|palavra


lugar
2009

por toda a música
preenchente de lagos livres
lagos livres de contradição
lagos rios de paixão

;

por tanto que abraço
dentro em mim
sem que tacto algum divague
sobre o ardente escolho de amar por fim

;

por tanto que gritar
e tantas sílabas por cumprir
sem que alento algum me valha
ao medo-sonegar de me expandir

;

por tudo o que sinto
e de mim afasto
refeito o pensamento íntegro
o rojar de um beijo casto

;

por todo o desejo
intimando o gesto fasto
por todo o sofrimento
de um nú-corpo amargo gasto

:

concedo ao silêncio a palavra

............................................................................................amor
...................................................................................................

Saturday, January 16, 2010


senda
2009

*

E o que fazemos é tão pouco. Pouco como a mesquinhez entrelaçante de nossas vidas; como a desfaçatez de nossos actos iludindo a paz-consciência em nós.

Não sei que inércia é esta que nos ganha, nem tão pouco se inércia será o torpor que em nós se entranha.

Sorrimos na força sem vontade de nossos lábios palrantes; corremos na pressa sem razão, à mingua de um pouco mais de espaço: espaço incerto por cumprir; caminho inteiro de estilhaço, que é todo o nosso corpo a resistir.

Pergunto-me - onde do amor? - no coração que carrego. Coração mudo que um dia em mim foi cego de tanto bater por quem; verde pétala de amor puro turgescendo de esperança ante estranho mundo aquele que lhe restara.

Mas agora tudo cansa, e em mim nada alcança o sentir que na desmesura do tempo estranhou.

Sem resposta, vasculho imberbes fragmentos de verdade; pedaços de companheirismo, de amizade; lágrimas confidentes de saudade extinguindo-se na memória.

Assim procuro e assim parto ao reencontro em nós.

Monday, January 4, 2010

Apontamento



Monsaraz
2009

*

A chuva escorre pelos vidros. Vêm reflexos de luzes, gemidos de uma multidão longínqua que se atropela, sirenes que em tons de azul desesperam, agonia que impera, sangue que exaspera em mim, aqui. Tudo lá fora tem vida que se esconde entre as fragas da solidão, e eu, só, vivo a energia deste silêncio, da vibrante calma que o consente.



Tudo dorme a par do cansaço lúgubre dos tempos. De repente, como se lá estivesse, ouço passos de gente que se aproxima, maquinal como o correr dos dias, maciça como o cimento dos prédios que me cercam. Cidade incrustada em mim.

A noite vai longa e a chuva ressalta nos cristais de que são feitas as pedras. Vagueio pela escrita sem rumo à procura de um lugar, mas nada encontro, e então esqueço. Esqueço quem sou, se é que sou. Recrudescente de interrogações, divago ao odor lenhoso de um toro colossal ardendo na praça. Estendo ao gelo floral da planície um rol imenso de incertezas e interrogações, indagando a autenticidade daqueles momentos que em tudo aparentavam ser verdade. Erro, pensante, o sentir apaixonado que a razão condena. Falho sempre, por acreditar na inverosímil comunhão de nossas crenças.

Longa vai a madrugada e a reconfortante solidão deste Alentejo que me habita desde as origens. Alentejo, ventre maternal onde germina a força e a esperança, arquétipo da melodia serena e clara ressoando ao vago abrigo do horizonte, terra das "searas ondulando ao luar", luar límpido, companheiro, arauto da impossibilidade em nossas vidas.

Transbordam ossos, músculos e articulações. Dos meus vasos jorra uma espécie de sangue que se espraia ao vento. Dos meus nervos, descarnados, escoam vermes rastejando pelo chão, infiltrando-se na terra. De súbito rebento e renasço ao pó de que fui feita, e sinto em mim a música que ilumina, o som que embala.

Vem, melodia serena e bela. Abraça-me com todo o teu fulgor e leva-me nessa viagem. Por ti vivo e em ti concretizo a paixão que por mim alastra silente. Vem trazer-me ao encontro o reencontro da vida que um dia extinguiu em mim. Não tardes.

*

video
Joly Braga Santos, Aria
(José Pereira de Sousa, violoncelo; Álvaro Teixeira Lopes, piano)
[foto: À noite em Monsaraz (2009)]

Sunday, January 3, 2010

Ano novo... Vida ...


I.P.O. Lisboa

*
A vida reserva-nos momentos miraculosamente surpreendentes e felizes. De facto, nem só de agruras se fazem os dias, nem tão pouco apenas de desejos inconsumados ou de labores frustrados. Há momentos em que sentimos levitar o peso das horas de trabalho e em que o germinar ao sol nascente do sonho tornado realidade nos recapitula o dever de amar e cultivar as paixões que tomamos por verdade e que nos impelem a prosseguir.

Amanhã (a julgar pelas horas, será já hoje ...) iniciarei a formação específica em Hematologia no I.P.O. de Lisboa. Sei que não será fácil, não faltando porém motivação para enfrentar o que por aí se apronta. Foi decerto uma escolha decorrente da mais íntima vontade que há vários anos me acompanha. Pelo menos desde os tempos do valdispert, blog de um grande amigo (link), o qual me incitou a participar pela primeira vez no blogger. Também a ele devo esta escolha e sobretudo grandes momentos de faculdade, para sempre recordar.

Prefaciado o novo ano bloguístico, e porque se faz tarde, é caso para dizer - "vou dormir que... amanhã é que são elas!". Boa sorte a todos, com votos especiais para aqueles que amanhã iniciarão a "especialidade". Força!