Friday, February 26, 2010

... por ti



~

hoje descobri a palavra
amplexo
onde menos esperara
e senti
talvez sem nexo
que em todo o meu corpo
a felicidade se encontrara

e nesse rosto de lua morna
nesse olhar terno de mãe
tocando-me na mão
como se digna de ti
alguém fosse em vida
mais do que este mim
desferente de plágios
que sou eu só
manhã ante madrugada
correndo por te ver

nesse olhar terno e verdadeiro
dos sábios sem nome

amo-te em silêncio 
sabendo-me ninguém

Wednesday, February 24, 2010

Hoje




~

do acaso encontro
ao desvelar acaso de nossas vidas
acaso o tempo quisesse reunir
o acaso sentir de estranho mundo
fremindo consonante em nós

acaso assim cumprido o feliz acaso

~



retirado de www.olhares.com (link do autor)

~

pressenti em ti o amor puro
manhã minha de outrora
e por ti só e por teu sonho
voguei sobre nébulas áleas de carmim
perfilando no horizonte vago
o traço frondoso dessa inquietude apaixonada

mas hoje não corro senão de arrasto
e não sorvo nem transpiro
daquele sentir alarvo fasto
ferido das palavras que disseste
a contra-traço do ascetismo crasso
dimanante do silêncio disfémico de ti

lúbrico e triste poema
aquele

em que te não encontro

Sunday, February 21, 2010

quem está livre, livre ...



~

Talvez soubesse
em tempos
quantas verdades
cabiam num acorde de guitarra

Em tempos
que foram cor
torrentes de amor
iluminando a madrugada

Talvez soubesse
que eras tu
a estrela cintilante
que nimbava as demais

E talvez por isso negasse
em esquivo olhar
poema aquele
em que te não achasse

Naquele tempo
quando a pele respirava
ao poente do mar
e o corpo todo pulsava

Talvez conhecesse
o cântico dos homens sãos
toando ao vento sibilante
no desvão confidente da palavra

Naquele tempo
em que o sorriso
era tão somente um sorriso
e o correr arterial e vivo um desejar absoluto

Talvez o azul do céu
fosse de oiro
e o rumor das árvores
um segredo desnudo

Naquele tempo...

Naquele tempo
em que ser púbere
era viver em liberdade
cantando o infinito em nós

Talvez soubéssemos
no amar inconsciente e imberbe
de nossas paixões errantes
aquele nome que o tempo gastou

- Amizade -

Thursday, February 18, 2010

~



~

Pensei que hoje não escreveria;
que hoje um tão só olhar de cansaço
repousasse pesando sobre o sono,
escasso.

Pensei que hoje não sentiria
senão o fruste e amargo quadro
de me não ver, e não sorrir, e não ser,
levada na sede imensa de um Fausto.

Mas o sonho é grande
e a vida tamanha em realidade:
arsénica e comburente verdade
usurpadora deste existir exangue.

E então escrevo donde não pensara,
e enleio a mentira ao desalento,
e corro ao vento da ilusão
tornada poema em ti.

Assim beijo o vazio
quando a noite és tu só.

Tuesday, February 16, 2010

regenese


regenese
Ajentejo 2009

~

se a importância de nossos actos
nos leva a nós
a imberbe pretensão
de nos acharmos alguém
falho será o dia
o ímpio e derradeiro dia
em que nos não encontraremos
senão na desvirtude de palavras gastas
no gesto puído e seco de nossa carne
erguida ao saber-se nada

nesse dia secular
nessa imortal revolta do poeta
esconjurando o consumar-se tardio

aí seremos homens
e os deuses poesia

Monday, February 15, 2010


florescente
2009
~

possível fosse
fazer de um poema
o mais perfeito

perfeito fora dizer nada
silêncio só
de que são feitas as palavras sãs

Sunday, February 14, 2010



retirado de www.olhares.pt (link do autor)



faz frio

aqui
e é vento
sibilando
de través
o eco de
silêncio
que escuto
por entre
gelosias
gastas
de tanto
me ouvirem
pensar
o teu ser
e proferir
o teu nome
e desejar
a distante
presença
que me
não
falha
à memória
nem ao
saber-se
verdade
única e
constante
verdade
ao sendo-
-incerto
porvir
de outrora
que agora
se refaz

~

as palavras

talvez as entenda

ou tão somente
creia entender
aquilo
que só o coração
revela
e vela
à razão
moribunda
que te não sente
senão distante
ausente

as palavras
que me atingem

talvez as entenda

talvez
desejasse entender
o verde fruto
da criação
- elo germinante
de meu ser
fasto
no amar(-te)?

talvez
desejasse intender
este sentir
premente
- que é do poema
a fonte
e do epílogo
a revelação?

mas sou toda
dúvida

toda ilusão
e pele
e osso
e humor
secos

falto-me
no brilho
extingo-me
no andrajo
esqueço-me
no sentir
morro-me
no tempo

gasto

sou
massa
amorfa
corpo
enclave
do sentir
repito
traço
grosseiro
dorso
recurvado
gesto
lívido
livor
esparso

as palavras
de ti só

talvez
me contestem

por certo
me não pertençam

as palavras
- poema
de ti só

talvez
condenem
o equilibro
em mim
o encontro
de mim
por ti apenas

palavras
que são vida
- a tua

palavras-poema
que escuto
- porque tuas

palavras
sendo
em verdade
- porque de ti só

verdade
que não encontro
por mais esforços que invente
por mais poemas
que desfaço
porque de ninguém
mais

~

faz frio
aqui
e é lesta
a noite
e o vento
crasso
regelando
os meus
dedos
engolfados
no ímpio
deste papel
de
plástico

~

esqueço
o amanhã
e o agora
desfigurando-se
no limiar
límbico
da insónia

~

adormeço
- límpido é o sonho
e o teu corpo
(nosso corpo)
nele

Friday, February 12, 2010

in'"d''um dia destes

De entre em breve os seus olhos desabrocharão,
as suas pálpebras encovadas descoaptar-se-ão
à maneira de três de paus blasfemando manilhas
e reis e damas e valetes e ases de ouro.
E se como não bastasse a inumaptidão
desses comprimidos vesicanticoenxofrados,
receitar-lhe-ei estes, que entram pela veia
e que não saem a jacto pelas entranhas cavernosas.
Sim, pois claro, e está rijo que nem um pilar de betão,
daqueles armados até ao cérnico tutano que o condena.
Mas não, vá lá, dê-me cá a sua mão, dê cá, deixe ver,
destape-se, então? Assim não, puxe para cima,
inspire, agora, mais, inspire, força, EEEEEncha o Peito de Air,
está quase e ||||||:::|||||| QuAsE...Q'ua... oooppps, rebentou!!!!!
Ena que maravilha este pulmão!
Senhor tal e coisas, ah! como é mesmo o seu nome?
Vitório??? Sim senhor vitorio isto vai mesmo bem!
Ca'belo pulmão!
O quê, não mexe as pernas??? Não consegue respirar???
Isso são tudo impressões. Pronto já está!
Adeus e até ao seu regresso.

Saturday, February 6, 2010


ameia- 2009

Eu sou aquela que não cumpre
o silêncio livre, o sorriso indeciso;
sou o brilho-olhar que
se não esconde
no cumprir de um desejo antigo.

Eu sou a voz que dorme ardendo
de imposto-sentir, sentir-se vivo;
sou o agir apaixonado e livre
suspenso das palavras que te não digo.

Eu sou aquela que não vence
o travo amargo da desilusão;
sou um sentir que não consente
o servo amor imposto p'la razão.

Eu sou aquela que
por amar corre,
por amar mesmo que em vão;
sou a verdade que em mim morre
quando dentro em mim digo que não.

Eu sou o sorrir disforme, abrupto,
torrente de meu corpo em convulsão;
sou todo o amor suave e puro
fremindo silente em solidão - por ti.

por Lisboa 2009

Diz-me.

Diz-me e eu abrirei em mim o sol
e
todo o amor que me faltou.

Diz-me.

Diz-me tão somente se verdade
e em ti um sol imenso cantará ao mar
todo o amor que o mar levou.

Diz-me...