Sunday, March 28, 2010

~

vogar - 2009

~

É inevitável que escreva. Que escreva de um minuto donde tão cumprido alento destronara a solidão em mim, e de onde a música impusera em ímpetos frondosos todo o tempo que indelével não tardara.

Inevitável que escreva. Que escreva ao ínvio percorrer de um caminho que em tempos encetara. Linha clara, verdadeira, refulgindo ao aroma florescente de Maio. Abrindo-se em volúpias de si mesma ao transitar ébrio de nossos corpos vogando sobre o rio da invenção dos sonhos.

É vida, sim. É vida, este misantropo sentir que trago comigo. Vida ardendo ao peito férreo da verdade. Verdade que se esconde em cada gesto, em cada palavra, em cada sentir confessado a medo. Talvez não saibas. Talvez o não soubesses quando relutante afastava o olhar, para que de si ideia alguma escapasse (pudesse tão somente lançar um gesto terno - vocábulo que beijasse o teu sorrir).

Digo-te agora, no despropósito póstumo da acção, dormente ainda dessa maternal presença apelando ao amor em mim; afirmo agora, com a certeza intemporal de um outrora então refeito, que és presente no pensar-agir humano que me ensinas(te), dia-a-dia, ao raiar pleno da integridade em ti.

Agora sinto e não estou só, embora silente. É força, a tua força, o agitar constante que me enleva e incita ao presente. Por ti cumpre-se o ânimo de estar sendo em verdade. Assim consiga lá chegar.

Obrigada!

Saturday, March 20, 2010

em dois actos e meio


extemporâneo

~

tomámos nas mãos
o vazio em nós
e constringimo-las
no desespero
de nada em si
vibrar dolente
de asfixia

~

desfalecentes
aparataram-se asteniadas
as mãos
buscando inglórias
a esperança última
da verdade
acaso sufragada
ao desvão de si

~

vasto é o silêncio aqui

Tuesday, March 16, 2010

De após uma breve leitura breve


Distorção
2009

~

nada
não tenho
absolutamente nada

nem o teu pensar
poisando à margem
de mim

nem a vontade
cindindo o descrer
de ser sem fim

nada
absolutamente
nada

estou nua
completamente nula
de sentido

ignorada
de mim mesma
em desrazão

viandante de sonhos
fundentes
por cumprir

sábia de versos gastos
puídos ao silêncio-amigo
pétreos no sentir

nada
absolutamente nada
tenho que reste da vontade

urge a verdade
inconsequente pura
urge saber-me feliz.

Sunday, March 14, 2010

~



Luxemburgo
2010

~

o frio é denso
aqui

de onde te escrevo e penso

~

pressinto-te
desfoleante
em música

e percorro calada
as tuas mãos
e os teus dedos
pendendo
como finos ramos
humedecidos

~

beijo
sem que os sintas
todos os recantos deste lugar
todas as ruas
artérias nuas
invocando
o exultante partilhar
em nós

~

recordo-te com saudade

(...)

~


torpe
muito torpe
sofrendo de um torpor dourado
hotel desfalecente
algures num mundo devastado

torpe
muito torpe
chinelando em roupão de oiro
aberto ao peito seco
da riqueza-podridão

torpe
muito torpe
arrastando-se firme
na rua cambaleante de pobreza
sorrindo a mudo-
apelo de ninguém

torpe
muito torpe
tempo este morgue
indiferente ao abandono-sorte
daqueles que não vemos e não sentimos

.................................porque longe
........................................bem longe
...............................................de nossa candura-paz.

Monday, March 8, 2010

...

retirado de www.olhares.com (link do autor)

~

nada me comove
porque nada é grande
como a dor
que em ti nasce
em mim
e por ti morre

nada grita
nada escorre de maior
que os nãos
que lanças ao mundo
revolta por inteiro
em dúvidas impróprias

nada
absolutamente nada
irrompe em mim
que não o peso
da mágoa que carregas
silente sobre nada

~

nem o rumor do vento
nem o lamento
chocalhante
do tempo que passa
amargurado
por certa ausência

nem o silêncio
do som que embala
e aquece a solidão
e sufoca a saudade
de uma imensidão longe
algures sem fim

nem o amor
tecelão de palavras
verdes
doces
desvelando a verdade
primeira em nós

~

nada

nada me comove
mais que essa dor
que em mim nasce
por ti
e aqui morre
de porvir esperança