Saturday, April 24, 2010

por lisboa


foto retirada de www.olhares.com (link do autor)

~

diviso como água
escorrendo a fio
de nossas mãos
distantes

distando
é o meu corpo
e em si
a angústia extrema
de permanecer silente

-

é noite
o olor fértil
exalando algures
num desvão de primavera

*

dormente
pesando já
sobre toda a verdade
incerta

incerto
é o meu sentir
vogando errante
sob o lume de água
em que não sou

-

é noite
o fado triste
ressoando algures
nesta cidade

,

toante em nós

Friday, April 16, 2010

~


retirado de www.olhares.com (link de autor)

~

findo o dia
e em si
o retábulo
de luz
que foi
cindindo-se
em solidão
gelífluo
de cansaço

saudade

mosto inflame
que adormeço em mim

Friday, April 9, 2010

~

metamorfólio
2010

~

talvez porque acreditasse
que era em ti o sorriso que mostravas
e teu o canduro e calmo gesto-olhar de ternura
coabitando no mais íntimo recanto do sensível

talvez por isso

porque acreditava

tivesse esquecido o pouco de mim
extinto em pensamentos vagos
incertos do amor em ti

*

mas hoje
o teu brilho-olhar é seco
e o teu poema é gasto
de tanto planger incauto
pleno de sem vontade
ou sentido verdadeiro

-

motivo aquele
que em mim restara
de um sonho de criança

*

ó falha
erro
engano

,

desesperança

.

Friday, April 2, 2010

~


~

Chamemos-lhe sorriso, misericordioso sorriso, ou tão somente sorriso ardil, limpando o sucedâneo nebular dos dias que passam, sem condição nem saber algum que afugente a sua marginal presença.

Pressinto-a onde o querer acaba e onde a verdade, crua, toda em si se revela. É nesse espaço, onde a fé se tinge de descrença, onde as palavras se sucedem, melífluas, procurando explicar a incongruência da vida. É aí que ela existe comigo e de onde escuto, serena, o seu cantar ludibriante, signo perverso contentando aquele e aqueloutro olhar plangendo de esperança na vastidão da noite que os consome.

Eis um corpo, um rosto estendido ao afago seresteiro das horas. Silhueta pensante esta, que Rodin adulterara sob o másculo pretexto de configuração do intelecto ao gosto ignorante do homem-animal. Esta recurvando-se sobre a dor, toldando-se, já sem forças, sobre a causa que a enleva, sobre todas as suspeições, todas as dúvidas, todos os medos. Esta exaurida, já sem nome, combatendo apátrida por uma causa de sangue, de sangue apenas.

É lesto o tempo esvaindo-se em sonhos e possibilidades, emasculando-se entre quatro paredes fundentes. Em si, e no ígneo sentir tornado espanto primordial, em si tudo se dilata, silente. E é amor, é amor a força épica que o sustém, o epílogo que se recusa e tarda.

Por isso lhe chamei sorriso (e sorrio), para lhe não chamar solidão.