Monday, May 31, 2010

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por Lisboa 2010

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Passei. Igual a tantas tardes de quase Verão. Em mim mesma. Passei centrada em projectos inconsumados, pensamentos que não chegam a surgir, tamanho e infindo o cansaço, o torpor, a chusma de nadas instalando-se comoda e cautelosamente no friso dos dias. Passei com a força de quem procura, desconhecendo o quê e o onde, descrente de qualquer indício, de qualquer rumor de verdade.

Amo. Amo incessantemente tudo quanto em mim desperte o sentir terno. Amo deste silêncio escoando em brisa, deste vazio dimanante do espaço de onde te recordo e escrevo e não encontro, porque és distante.

Perdi-te já. Perdi-te enquanto nos perdíamos por aqui. Enquanto percorríamos, já sem hora, quelhas e becos de luz parca dissipando-se ao cande entardecer. Nada mais importava. Nada mais para além do sonhar, que ali era viver e estar sendo.

Ousei pensar que éramos um só querer, um só sentido. Mas agora passo. Passo tão somente, em uníssono, comigo só, remoendo restos de sentir sobrevindo ao pensamento. Passo ao corrente da impossibilidade em nós, igual a tantas tardes de outras tardes. Passo amando tudo, a cada instante primordial. Passo beijando as esquinas das ruas que se cruzam, escutando o tanger da multidão resvalando pela calçada. Passo. Simplesmente passo, amando tudo aquilo que te não evoque.

É tarde, quase noite. Já não há barcos, nem pessoas, nem gaivotas, nem ninguém.

Saturday, May 29, 2010

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Interrogação

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onde ando eu
que não estou
senão ali
por quem mais
que não eu só
presente em mim


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não encontro nas palavras
meio ou forma
de expressão crítica do sentir
se as escrevo é porque as escuto
se as digo é porque as li algures
explanando pensamento alheio

e por isso não escrevo
e não digo este poema que nasce feito
de tempo algum de anseio ou espanto
quando ao luar escutava o céu estrelado
e o múrmuro germinar quente da terra
que era o mundo inteiro amando em mim

Friday, May 14, 2010

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sobre As Palavras Interditas
Procuro-te - Eugénio de Andrade

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há um pesar maduro
pendendo inteiro
sobre o esquecimento

fosse dia
e houvesse cor
e olor e amor
assim cairia nú
o poema que não veio

Wednesday, May 12, 2010

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foto retirada de www.olhares.com (link)

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venha a nós
o mais impiedoso
dos sentimentos
puros
reacenda-se
o mais pérfido silêncio
calando estridente
no púlpito afortunado
da virtude embriagada

oremos senhores

oremos
ao osso e à carne
da verdade
exilada
no pecante altar
de nossas vidas

assim sejamos irmãos

Monday, May 10, 2010

interlúdio breve


Olhei-te. Olhámo-nos na distância de um vidro, de uma janela, de um quadrático e estuporoso obstáculo cindindo nossas vidas. Dizias-me alguma coisa, talvez, pois que te não ouvia senão de vislumbre. Eram os teus lábios, sim, os teus lábios, estes que amovíveis se não exprimem senão já e tão somente pelo conjunto todo deste teu rosto-morgue.

Partiste sem que desse por isso, e levaste em ti a tua presença. Recordo ainda o teu olhar de ovo ardente, o teu gemido ardil ludibriando qualquer questão, qualquer palavra que invadisse o teu ser perene, em guerra.

Lutaste e venceste, porque não. Venceste o temor, o incerto existir daqueles quem se não encontram senão no fim a que todos nascemos destinados.

Pressinto-te aqui, sem corpo, nas horas que viveste já sem ti, nos desejos que pensaste com fulgor e esperança e sonhos deliberadamente impossíveis.

Partiste hoje. Mas eu sei, eu sei que estarás para sempre.

Tuesday, May 4, 2010

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por lisboa dormente
2010

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aturdidos
os meus olhos
e cansadas
minhas mãos
de tanto pregarem
à intimidade
do ser conforme
e ao amor que tarda
e gasta a esperança
em nós

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estou só

neste presente
que devassa
o ser-me feliz

neste lugar
de pedras
gementes
suando
em cérebros
retardados

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e comigo
um olor de almas
pecando na enxurrada
da dor
que somente
aqueloutra morte
sustém

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que sou eu neste lugar

[de] alguém?

Sunday, May 2, 2010

stasis


foto retirada do sítio www.olhares.com (link de autor)

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naquele sítio qualquer
onde me encontrasses
e ao tempo que desprezo
dispersa neste rio sem margem
que sou eu olhando-me
e à tua imagem
que é pensamento só

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