Saturday, August 28, 2010

... por Lisboa


foto de Carlos Froufe (link do autor)

~


passo

do silêncio
aceso
da cidade
estandartes
mudos
acenando
à compaixão
de nós

passo

tarda
a brisa
tarda
da noite
jorrando
em cópula
múrmures
vagos
de ninguém

passo

triste
corpo
aquele
indistinto
que se
não vê
e não
existe

passo

(passam
por
nós)

Sunday, August 22, 2010

~


foto retirada de www.olhares.com (link do autor)

~

dizíamos tanto

um ao outro
quando a verdade maior
nos não furtara
a brisa clara da noite
ou o vento lesto do entardecer
e percorríamos caminhos
e destinos que eram exclusos
de outro olhar que não o nosso
(talvez o meu olhar apenas)

sabíamos sem dizer
o silêncio-verbo do sentir
e amávamos todas as coisas
todas as dúvidas e escolhas
antepondo-se ao sol cadente
fluente
sobre o cais

quando a verdade maior
(a palavra)
nos não furtara
ao silêncio

~


foto retirada de www.olhares.com (link de autor)

~

gastas-me
excedes a calma
do meu pensamento
e insurges-me
com palavras
contundentes
que são gestos
e movimento
em teu corpo
abnegados

sofres
sei que sofres
irmão

Tuesday, August 17, 2010

~


foto retirada de www.olhares.com (link de autor)

~

nas casas
e em todos os lugares
desconhecidos
a palavra existe
e é fonte
e força

e verdade
descrendo em espera

nas casas
e em todos os lugares
esquecidos
persiste
quando à luz póstuma
do entardecer
dois lábios se unem
tristes
antecipando a solidão

nas casas
e em todos os lugares
de onde partiste
é amor
o vocábulo
denso
afilo
que resiste



Monday, August 9, 2010

infância


Retirado de Lisboa "cidade triste e alegre"
de Víctor Palla e Costa Martins

~

daqui
donde ninguém
nos vê
e
nos não ouve
e
não conhece

daqui
deste desvão
da infância
de onde
nos recordo
a sós
com o nada
e o riso-tédio
de uma estrela
que nos iluminara
e que ao escuro
encordoado
da noite
nos furtara
o silêncio
e a fome

daqui
deste chão-filtro
ardente
sucumbindo
à miséria
e ao fracasso
plangendo
vivo
pelos interstícios
da pedra

daqui
do bulício
da cidade
suja
e amargurada
estranha
em mim
e aos tristes
olhos
daqueloutra
criança
abandonada

daqui
te recordo
irmão

o abraço
e a língua
e o pêlo
e o olor
e o doce
afago
e o sorrir

inocente
(sor)riso
que era em nós


Sunday, August 1, 2010

alvoradas


mons lunae
2010

~

escrevo donde um dia
parti
em busca de um silêncio
mais forte
que o silêncio aqui
e penso
talvez com mágoa
ou certa desilusão
sem sentido
pois que o acaso
do amor
assaz vivido
nem sempre é tão real
quanto o sentir
dormente
dos sentidos
penso
agora
em concreto
e longe
do recordar-te
imcumprido
(metragem nula
de sentido)
que nada foi verdade
nada o som
transluzente
das tuas mãos
nada o brilho cavo
das palavras
dissecadas
nada o olhar prófugo
e distante do partir
silente
que negava

torno então
ao lugar donde parti
e escrevo do pódio
da esperança
ao horizonte vago
do porvir

parto

na alvorada serena
do meu corpo
erguido ao saber-se nada
o amor constante

deselegante
áspero
de minhas mãos
vogando sinceras
e em verdade

sobre o desespero
insofrido
de alguém

assim beijo o silêncio
e tomo em mim
o estro primeiro
de um tão só sorrir
globoso
e
cheio

à luz
prima
e
clara
da manhã