Saturday, September 11, 2010

resposta adiada


Entardecer
2010

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Pensei nunca vir a escrever deste lugar de onde escrevo, pois que o tempo que aqui passo é tão célere, tão mutável e inconstante, que cada dia é uma espécie de globo imenso de descobertas, um ostinato rigore cumprido em si mesmo, na verdade espontânea de um sorriso, num olhar confiante que parte, num sentido só que incita e enleva o que de mais belo existe no amor. Deste lugar de onde escrevo, à luz póstuma da noite que sonhara quando em tempos me não pertencera, nem ao corpo brandindo em ansias, longe, sobre o leito imóvel da espera. Deste lugar de onde escrevo, ao ostro íntimo da hipnagoge-embriaguez insurgente de silêncios rarefeitos.

Penso nas palavras que escreveste. Adiei-as sim. Evitei o confronto, pois que em verdade sempre soube da ausente comunicação em nós, como de resto é ausente em tudo o que sinto ou faço, sempre em contenção, sempre sem expressão alguma que de mim se revele. Terás experimentado já, noutros caminhos que não o nosso, o estro dimanante de um encontro de almas que se entendem, que se complementam, sem verbo algum impondo-se à compreensão. E por isso certamente saberás o significado desse fruir terno, onde é presente o adstrito espaço do olhar, tão profundo, tão sincero, tão simples.

Assim sucedeu, quando por fim sentira essa dádiva a que chamam paixão, mas que antes de ser paixão é amizade, é equilíbrio, é ânimo, é color dos dias vãos, olor de chuva e terra e lenha e brisa boreal murmurando ao canduro entardecer de um dia de inverno. Sinto falta do frio, do vento frondoso, estridente, da força que pela primeira vez sentira afora, da infinita possibilidade de partilha, de projectos, de vida.

Mas tal não nos
foi acedível. Talvez porque nos esperam caminhos distintos. Talvez porque esta jornada implique a constante falta de, o querer sempre algo, o imperioso renovar de paixões. Talvez porque ame(mos) tudo com magna intensidade e me disperse na intransigência dessa procura. Talvez, tão somente, porque assim não haveria de ser.

Deste lugar de onde escrevo, que é fonte em mim, desta casa onde redescobri um sentido, talvez o meu sentido, não mais importa a significância do que digo, pois que o saber-te distante é tão real, tão concreto, tão lúcido, que palavra alguma poderia alterar o decurso desta paixão presente, por ora única e maior, que é amar o próximo.

Porém escrevo. Escrevo ressalvando a amizade que a nós, mutuamente, concedemos. Música, Lisboa, ruas, noite, riso, serra, estrada. Momentos insubstituíveis, concedendo à memória um passado que é ausente.

Também eu estarei sempre por aqui, de onde escrevo, em prontidão e com fraterna amizade.

Até sempre.

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