Sunday, January 30, 2011

outras músicas, outras palavras


video

Igreja de Santo Estêvão
Gabriel de Oliveira / Joaquim Campos da Silva
( Fado Vitória )


Voz:
José Bogalho

("Miúdo de Benfica")


~

Há alguns meses publiquei um texto referente ao meu avô (link). Muito ele cantou por Alfamas e arredores, desde que se conheceu, a si e aos seus companheiros de cantorias e guitarradas. Por muito passaram, e muitas foram as histórias que me contou, sempre como se fora hoje.

Assim publico este fado, reencontrado e retirado de gravações V.H.S. que por casa encontrei (perdoem-me o barulho, os toques de telemóvel, etc.; penso que esta gravação terá sido realizada no dia em que festejámos as Bodas de Ouro :)), em gesto de homenagem a ele e a tantos fadistas que cantaram Lisboa de forma despretensiosa, repletos de amor, transbordantes de verdade.

A todos vós (e a eles, por onde estiverem), e porque este é sem dúvida dos fados que mais aprecio, dedico este presente que o meu avô me deixou.

Igreja de Santo Estêvão, um fado tradicional, dado a conhecer aos ouvintes caseiros por Fernando Maurício, que o meu avô tanto admirava.

Um pequeno reparo apenas - o meu avô sempre dizia que se diz "junto ao cruzeiro no adro" e não "do adro". Não sei se certo, se errado, a verdade é que ele fazia sempre referência a este pormenor. Enfim, coisas do FADO.


onde das palavras


Foto retirada de www.olhares.com (link de autor)


Para Ana

~

talvez num lugar

qualquer
distando do mar
e do orvalho denso
que fosse cacimba
cortante e fria
e pulmão
e sentir vivo
sucumbindo em poesia
e lágrimas e riso
sobre nossos corpos
livres e (in)sofridos

talvez num lugar
qualquer
distando do amor
que não encontro
senão em solidão
e do mar que é longe
e do amar que é interdito
porque verdadeiro

talvez neste lugar
qualquer
onde me encontro
e não pertenço

(...)

Monday, January 17, 2011

~

Retirado de www.olhares.com (link de autor)

~

ausente
a voz
que não existe
e o silêncio
vasto
do corpo
cálido
de onde
partiste

ausente
o mar
que não reviste
e o amor
que nem sentiste

ausente
a tua
ausência
imagem
triste
que persiste

e o teu segredo
que era bem
tão somente
bem

e o silêncio
que esgotaste
entre báratros
de fumo
e solidão

ausente
a tua luz

(...)

~

foto retirada de www.olhares.com (link de autor)

~

enredados

pelas cores
que julgamos
verdadeiras
e pelo mar
ondulante
que se afigura
seda
somos todos
voltados
ao erro
que é sorrir
adentro
em nós
de costas
para o sentir
do outro
que é nosso
também
e viver
de mãos
atadas
ao silêncio
que é voz
no suplício
e canto
em desespero
quando
ela

chega
toda
em si

triunfante
inesperada

Sunday, January 16, 2011

~


video

Valsa - Carlos Paredes

(arr. guitarra clássica)


~

nota: sem pretensões nem desrespeito pela música. ainda que arrítmico, desconexo e imperfeito. apenas um pouco do que em mim restou depois de um passeio nocturno por Lisboa.

~


foto retirada de www.olhares.com (link de autor)

~

procuro-te

lugar distante
e ao espaço
imemoriável
das coisas
que perderam
a razão
e volto
sem sentido
ao espectro
indizível
que é presente
desfeito
o prumo
da certeza
e o motivo
périplo
que não torna
porque em fim
e pendo

os meus braços
ao entardecer
célere
da vida

e o coração
ao desejo
incumprido

procuro-te

desespero todo
que foi
promessa

e vida
e ânimo
crescente

ao som-velo
da esperança
que não sinto

procuro-te
amor
por caminhos
e causas
que não sei
desfolhando

o ventre insofrido
à luz das estrelas
e o dorso imóvel

contorcido
ao leito-mar

e rio
rio rio
de mim


~


video

Sonata nº 3, Opus 23, Fá# menor (andante) - Scriabin
Evgeny Kissin (piano)



Monday, January 10, 2011

~

foto retirada de www.olhares.com (link de autor)

~

entre as palavras
e o frio denso
e verde
da manhã
vertente
em lava
pelo corpo
acro
de sentir
o silêncio
cortante
da espera
e a força
restante
do teu olhar
cadente
e de todas
as estrelas
escondidas
além-céu