Saturday, August 20, 2011

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foto retirada de www.olhares.com (link de autor)


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regresso assim
ao ponto crucial
de onde partira
tarde já
sem onde
nem porquê
além da verdade

que pensara


motivos maiores
de luta
e desespero
causas de homens
e gente e coisa
que sofre
no desfaiar sem lei
pelos desígnios
do progresso
inexistente



mas é espessa
a esperança
e tolhido
o sonho
que torna
e esmorece


por isso findo
e recomeço
no amor

no segredo
das palavras
estrídulas
que o presente
não consente



instante inaugural
este

de olhar
para trás
e reconhecer
no silêncio
o porvir

que nos espera


de escarnecer
da solidão

e permanecer
feliz e triste
junto ao mar


Wednesday, August 17, 2011

Danças Portuguesas




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Portugal


Avivo no teu rosto o rosto que me deste,

E torno mais real o rosto que te dou.

Mostro aos olhos que não te desfigura

Quem te desfigurou.

Criatura da tua criatura,

Serás sempre o que sou.


E eu sou a liberdade dum perfil

Desenhado no mar.

Ondulo e permaneço.

Cavo, remo, imagino,

E descubro na bruma o meu destino

Que de antemão conheço:


Teimoso aventureiro da ilusão,

Surdo às razões do tempo e da fortuna,

Achar sem nunca achar o que procuro,

Exilado

Na gávea do futuro,

Mais alta ainda do que no passado.


Miguel Torga, in 'Diário X'