Tuesday, November 29, 2011

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~

não intento entender
a justiça dos homens
nem tão pouco
o desespero das causas
que lhes não valem
em solidão

(bastam-me os motivos
que são nossos)

não
não intento amar-te
mais que o amor
nem interrogar-te
a propósito de nós

gastei-me já
gastei-te em memórias
que não foram
em gestos
que me pareceram gestos
em palavras
que me não disseram
aquilo que julgava ouvir

estou só
sólida em mim
e nas coisas que me gritam

só nas dúvidas
que em mim condenam
o sorriso


contra o muro pedregoso
que nos separa
contra o olhar de esperança
que é brilho e chama e fogo
extintos

só contra o mistério
que é viver
na pergunta eterna
da noite
que vem e esparsa a vida


no abraço terno
que esboço em mente
na palavra quente
que ninguém me disse
porque só

não sei se grite
se cale
tão somente


(...)

Thursday, November 24, 2011

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à espera

talvez seja
a definição
maior
do que sou

à espera
de nós
que tardamos

do céu
gelado
das cores
sem nome
que inventássemos
numa manhã
que nos esperasse
além-madrugada
imensa
além-céu imenso
expurgado
de tudo
quanto nada
nos dissesse

à espera
de uma palavra
qualquer
a mais
além de mim

(...)




Saturday, November 19, 2011

Wednesday, November 16, 2011

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encontro-te na

insignificância

de mim

no espaço restante

dos meus dias


se o silêncio

é hora que não passa

e a dor de sentir

ruído que se não cala

seixo transbordante

de vagares absurdos

é na tua voz

o raiar de esperança

e no olhar doce

a verdade

sem descrença

que era já

antes de nós

nos sonhos

que construímos

longe

quando nos

não sabíamos

ou nos poemas

que líamos

em uníssono-

-silêncio


reencontro-te

na pequenez-procura

da claridade

do sabor

azul e branco

que desconheço

desde a essência

de mim

do querer dar

sem fim

que não controlo

do ruído instável

adentro

que (in)suporto

da justiça

que se não faz

sem contraponto

do mel vulnífico

e amargo

de que são feitos

os sorrisos

do olhar furtivo

daqueles que nos

condenam

na retribuição

mísera e fasta

da verdade

que procuro

crente

ao sol-pôr da tarde

sobre o mar

que tarda


abraço-te

agora

beijo-te

no conforto

da solidão

a cada espaço

pequeno de nós

a cada palavra

que antecipo

de ti

a cada rio denso

que sonhámos

e à chuva batente

aos algerozes

transbordantes

de águas

escorrentes

sobre o tejo

ao silêncio

que é bach

e castelo

e sons

e revérberos

de redenção


sou exausta

de mim

neste tempo

que me falha

exaurida

pela indiferença

pela força gasta

que sou

procurando-me

procurando-te

na evidência clara

do encontro

na certeza telúrica

de sermos felizes


mas falto-me

na destreza

no savoir-faire

na candura aparente

no aroma floral

na delicadeza

no modo ordenado

de dizer o que não serve

no gesto terno

na mão que te não toca

e acena tolhida

no cumprimento célere

e frio

de todas as manhãs

na indumentária

curvilínea

no rosto purpurínico

de pastel coloriforme

nas humílimas palavras

inventadas

no intentar

do teu olhar

como objecto

ou pedra

que me pertencessem


toco-te sem que o sintas

sem que o saibas

por palavras constrangidas

que não sei dizer

espero-te

espero-te aqui

neste lugar

que não existe

além de nós

e da poesia


(...)






Monday, November 7, 2011

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~

não sei bem

onde

me encontro

que margens

me acercam

na tarde escura

e fria

em que nada sou

além do imediato


é o meu corpo

este

imóvel

que não serve


é o corpo

a única coisa

que possuo

deste espaço-solidão

e o silêncio

a palavra significante

da fragilidade

das coisas humanas


passam corpos

corpos possuídos

passam cores

aromas e lágrimas

e palavras-pensamento

que não detenho


passas-me tu

a sinceridade

desprotegida

do teu olhar

o gesto terno

a voz trémula

com que dizes

o teu sentir


pudesse abraçar-te

e dizer-te tudo isto

e sentir

que tudo isto

é verdadeiro


pudesse amar-te

sem matéria disforme

que o impedisse


ser eu terna também

e frágil

no ruído perturbante

das minhas imprecações


amo-te


amo-te no segredo

da música que partilhamos


amo-te aqui

neste lugar estranho

neste espaço

irreconhecível

onde és memória

e saudade

e vida que renasce


~