Sunday, April 22, 2012

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houvesse em ti

motivo algum
que denunciasse
o silêncio
em que ficámos
e o sentir
consonante
que tudo dista
e perde em si
a verdade última
por que somos
homens
e não coisa
inanimada

fossem o canto
do quarto
a esquina que se
afigura sorte
o beco escuro
de náusea
e vómito
embriagado
de incertezas
o sorrir débil
e esquizóide
de um corpo
magro e curvo
que corre
sem sentido
ao frio-nu
da manhã
que não começa
motivo bastante
para (re)conjugar
o verbo amar
no pretérito
daquilo que
nos não bastou
para o sabermos

.

fosse real
o azul do mar

(...)

Saturday, April 21, 2012

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não existo

como quando
caminhava
ao frio rente
da verdade
e o vento escuro
era não mais
que o acordar
distante
sobre todas
as estrelas

que em nós
sorriam


.

perdemo-nos
para sempre

Tuesday, April 10, 2012

... para uma quase manhã




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se o amor

não trespassasse
nunca
o miraculoso
encontro
que a nós
foi concedido
em tempos
quando te não sabia
quando me não sabias
perfeito seria
o momento
em que te perco
inconstante
o abraço firme
que cresce
na ausência de ti
no sentir de ti
que é sempre
presente
nas coisas
que me não dizes
no cicio
das tuas mãos
leves doces
que me não
tacteiam
além-sonho
de criança
dormente
sobre um colo
inanimado

entristeço
envelheço
ao sol-raiar
que deveria
ser esperança
na fímbria
da solidão
de ti
da tua ira
das palavras
que me não dizes
ou daquelas
que não mereço

amo-te tanto
sem regras
sem espaço

para ser-me
além de ti
sem gesto
que não faça
senão por ti
sem poema
onde te não escreva
sem música
que te não lembre

falha-me o futuro
indistinto
o teu calor
silente
maternal
numa quase-manhã

aonde a palavra
nos levasse
sem hora
nem lugar
além de nós


.

porque é o amor
tão só

Sunday, April 8, 2012

... in Cântico Final

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... a propósito de ser médico


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"Cipriano sorriu, benévolo (porque não consultara ela o Félix?), disse ainda da porta:
- Sabe quem operava eu quando você telefonou?
O Mário.
-O Mário? E que tinha ele?
- Um cancro. Só para nós. Ele pensa que era uma úlcera.
E saiu. De novo no carro, atravessando a cidade, rodava agora devagar, como se repousasse profundamente ou profundamente emergisse de uma noite subterrânea e reencontrasse enfim a vida, esquecida, fácil e evidente de sol, evidente de um destino que se cumpre em perfeição. Dia feliz, dia azul, fresco e linear como uma verdade tranquila. Os eléctricos passavam cheios de gente que regressava aos empregos, as árvores dos canteiros douravam-se de sol, a hora era perfeita como um amanhecer de Verão ou, antes, sim, como a sua memória. E Cipriano sentia-se tocado desse halo de alegria aguda e fugitiva como um aroma de música que se recorda. Que fazia ele na vida? Que redenção o aguardava? Que voz lhe respondia? Então lembrou-se do pobre Pina morto, do pequeno de Guida, de Mário, de Cidália. E um prazer profundo e calmo como só havia no sono dos filhos, invadiu-lhe o corpo fatigado com a obscura certeza de que alguma coisa nele anunciava uma certa convergência dos amigos sobre si, alguma coisa nele respondia à aflição do mundo, alguma coisa nele não era inteiramente inútil e trazia o eco, sim, o eco apenas dessa harmonia que era o sonho derradeiro que todos os homens arrastavam ao longo de longos séculos. Sim, as suas mãos eram bem umas pobre mãos mortais, perecíveis e tão cedo! E a sua palavra nao tinha talvez nunca a unção das palavras que se esperam. Mas alguma coisa da sua alegria ou da sua resignação ou dessa profunda humanidade que ele podia ainda reconhecer em si nas horas da aflição dos outros, alguma coisa de si falava a voz da harmonia, alguma coisa de si se encontrava nos gestos de quem recompõe e ordena e recorda o rasto da esperança. E só por isso, só porque uma breve parte de si mesmo, uma breve fracção respondia ao que havia de profundo e eterno no homem, à sua dor e à sua esperança, Cipriano sentia naquela fugidia manhã de sol, que a sua vida estava certa à sua face e à face do universo que haveria de absorvê-la, aniquilá-la, submergi-la no silêncio. Breve alegria sem fulgor, evidente e fugaz, irreal e presente - era bom, todavia, senti-la agora, sentir através dela que um homem viera ainda ao mundo com
alguma razão, que um pobre ser humano pudera ainda sentir-se fugazmente unido a si, entre uma memória longínqua de música e de amargura... Lembrou-lhe Mário: " a arte não é apenas o seu sinal sensível, um quadro, um poema". Mas era bom que esta sua plenitude não tivesse nenhum nome - ou só o nome de paz.
Quando chegou a casa, Paula esperava-o ainda para almoçar. E Cipriano, olhando-a profundamente, sentiu-se inundado de gratidão e de alegria, porque era bom que Paula o estivesse esperando, se sentasse com ele à mesa e ambos compartilhassem de tudo quanto ele tinha para dizer, como do pão e do profundo mistério dos seus corpos."


in Cântico Final de Vergílio Ferreira