Friday, June 22, 2012

~


foto retirada de www.olhares.com (link do autor)

~

disto do lugar
aonde combinámos
o reencontro são 
dos nossos versos
do mar sem fim
aonde brilham 
os astros todos
e a terra 
é não mais
que recordação
vaga e lírica 
de um outrora
viver precário

por agora
permaneço 
aqui
neste instante
incerto
que não entendo
neste lugar
que não existe
além do desejo
inqualificável
de aqui 
não estar

procuro-te
procuro
um rosto
que fosse
 manhã de sol 
um olhar 
qualquer
atento e verdadeiro
sorriso 
que fosse alento 
e esperança
ante multidão
incerta
que corre 
sem sentir-sentido
pelas ruas
profanadas
de gente
atropelando-se 
no intento
súbito e fugaz
de aculturação

não consigo
suportar
tudo isto 
à distância
da verdade
rio
à distância
do Tejo
azul 
que é no céu 
da cidade 
única e possível
aonde sou
aonde posso 
ser-me feliz

não consigo
conter-me
no fausto
sufocante
das calles
rangentes 
como calhas
de eléctricos
que não há
no ruído 
soía ausente
de uma multidão
errática e ébria
que não escuta
nem sente
nem entende
a poesia 
que é no som 
silente
de uma guitarra
que chora
sobre a noite

percorro
em desmesura
os recantos 
deste espaço
sem sentido
sem percurso algum 
como destino
além de
 outro qualquer
que o não fosse

que fazer
quando 
só à música
só a ela reconheço 
o prazer da hora
que passa
quando
o tempo 
não existe
além de estar só
neste lugar

(...)

~

Monday, June 18, 2012

~

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida.

Fernando Pessoa

Friday, June 8, 2012



casa
Barcelona 2012

*
onze horas
de um presente
que não existe
e tardas
de um tempo 
que é só tempo 
onde de ti
veleidade
desconhecimento 
absoluto 
do que é ser feliz
dói-me o corpo 
onde estás
e a alma toda
pesa-me a descrença
por que fontes
escorres
absoluta
e o mundo todo 
onde a tua sombra
é sem sentido 
onze horas
e há gente que passa
ausente
trémulo 
o meu corpo 
e o som 
de uma guitarra
longe
por que calhe
larguei o meu corpo
vazio
toca a solidão
estou só
e o fausto das cidades
que são grandes
porque grandes
apenas
onde de ti
e os prédios 
as sombras
os escombros
existirás
além de mim
os rostos sem olhar
que ignoramos
do pensar-te
a impossibilidade
de sermos homens
do amar-te
simplesmente homens
a sós de tudo 
livres
do recusarmos
juntos
as vontades 
que nos não pertencem
para sonhar
é já manhã 
e nada acontece
nada além de ti 
que não existes

~


 Barcelona
(foto retirada de www.olhares.pt - link autor)

*
posso amar-te
por um instante
beijar-te
abraçar-te
sem que o saibas
pensar-te
sem que o sintas
olhar-te 
com fixidez absoluta
sentir-te por fim 
na distância de nós