Friday, May 17, 2013

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(in)sentido
2013

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É difícil viver de incongruências. Acordar de manhã e arrumar o corpo cansado numa roupa condizente com o mundo. Seleccionar do cartel de cores desvanecidas o brilho que os outros procuram de nós. Sair para a rua em silêncio e não sentir a fragrância das flores porque cá dentro é sempre inverno. Envergar a luta e caminhar sob o desconforto lombar que a nós nega destino-outro. Enfrentar os vícios de quem nos recusa. Encenar o modo de agir mais hábil. Sorrir sempre em frente e sem olhar. Pensar pouco. Ser feliz no modo concertado de não ser. E ao fim do dia chegar a casa na penumbra do sonho humilhado. Desarrumar de novo o corpo. Enxaguar a alma num banho quente e prolongado. Vestir o calor do fogão e partilhar só a verdade restante. Não habita ninguém aqui. Imobilizar os sentidos frente ao sentido ausente do ecrã. Procurar nas histórias dos outros uma invenção que se assemelhe vida. E no final de tudo perceber que o amor nos não pertence. Que somos esquecidos desde nascença. Viver é andar perdido no labirinto dos perdidos. Sentir o frio que vem de fora. E no calor ausente enfrentar o sono. Dormitar sobre a vigília desconexa. Baralhar o sistema das ideias com o cansaço-ópio da insónia. Reprogramar a cordialidade. É difícil viver de incongruências. Esfregar o corpo que se sente sujo. Arrumá-lo numa roupa condizente. Seleccionar do cartel o brilho que hoje será azul porque faz chuva. Sair para a rua em silêncio. Num dia a mais que ontem. A menos que amanhã. 
   

Thursday, May 16, 2013

Sunday, May 12, 2013

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foto retirada de www.olhares.com (link do autor)

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A grandeza. Mas o que significa esse querer sem lei, essa vontade reclusiva que nos fala sem rosto. Inquietude interpelante das horas que não passam. Mosca volante do espaço limitado que a nós coube.

O que significa o desespero constante da solidão. Da nossa presença indiferente no mundo. Porque existir é uma questão utilitária. Só existe quem serve. A verdade, o amor sincero, são já coisas decadentes.

Dizias-me tu que a grandeza é tão-somente em nós. Que a força, o motivo tirado a ferros, vêm de dentro, do incognoscível sentido de sobrevivência parcelar. Mas eu corria sempre por mais. Porque um sorriso tosco era a vida toda em mim, o meu corpo derretido em dádiva sincera, o espírito todo erguido ao ar fresco da manhã. 

E então foram passando os dias, as gentes que sonhavam, o inintelético sentir das ruas povoadas de sentido, daquele sabermos ali ter estado um dia, antes de nós.

Como é difícil resistir à despertença. Desejar incessantemente sair deste lugar longe na certeza de um cais que se recusa. Partir em desabrigo, sem porto-abraço em espera. 

Mas a vida, esta, é uma só. E a reclusão nos aposentos de mim pesa. Reconhecer-me nada e não poder sequer partilhar este vazio que me trouxe ao mundo.

Partilhar. Dizes que talvez seja aí o segredo, a causa de todas as forças, de todos os sorrisos pelas manhãs frágeis de sentido. Que talvez seja esse o propósito da vida que se sabe transitória e indesejada. O merecer do despertar breve que a nós foi concedido, desta saúde que ainda assim vamos tendo ante corpo-irmão do nosso que sofre de causa prematura, ao sol poente de uma qualquer imensidão sem mar.   

Mas como viver desse saber. Como encarar a manhã próspera, sair para a rua com a envergadura mais pesante de nós e encontrar a frieza necessária para umas tantas palavras doces. Porque a grandeza, a falta de humildade, a certeza fictícia de que o nosso alguém é algo, tudo isso vem de dentro, da recusa das nossas limitações. E a intransigência, o conflito absurdo que esgrimimos contra as pessoas que nos ouvem ainda, talvez porque as únicas que nos amam, sejam a procura de uma afirmação inexistível.

Por isso algures na nossa ilusão comovente, na nossa consciência traída, surge o momento em que percebemos que o tudo que passa fomos nós apenas. As árvores, os rios, o céu, todos permanecerão para outros olhares. Chega o momento em que do alto da nossa glória inventada, no topo prodigioso da nossa carreira, do tempo que nos não demos ao conhecimento do mundo, caímos frágeis sobre o corpo redimido.

Mas aí é tarde já para subir às árvores sem nome.

Nesse tempo é o amor já longe. 

Thursday, May 9, 2013

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ilusão 
Sorrento - 2013

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Talvez se não chame despertar ao sol britado da manhã, quase tarde já, entrando-me pelo silêncio do quarto. As crianças brincam. Lá fora existe a vida sã. Os pássaros, as flores, as árvores coloridas por fim erguendo-se em triunfo e vitalidade. Pesa-me o corpo em vertigem. Volto-me para um lado, para o outro. Passa-me o tempo assim calado - madorna concedida ao conforto dos lençóis.

Penso-te a meu lado. Tu sorrindo-me. Procuro a tua mão. Sentir-te apenas no imo de mim, de nós. Fecho os olhos. Mas o cansaço é grande. A impossibilidade é grande e o tempo não pára. E então de novo as recordações. Os porquês das coisas que se não dizem, talvez por medo antecipado de recusa. A vida vai passando lá fora. 

É difícil estar a sós comigo. Ver-me ao espelho e não reconhecer-me no rosto que me olha. Seco, pálido, invertido. Calou-se o motivo em mim. Não me apetece falar. Desconfio ter-me já dito tudo e qualquer gesto que faça é gasto de sentido. Mas o corpo inquieto avança-me ainda pelo tempo adentro, pela inércia que o não pára. Há qualquer coisa que não eu, qualquer força que o constringe e submete ao rigor da incerteza. 

É difícil caminhar sem onde. Perder algures o amor, a paixão pelas coisas, o sentido da verdade. Sentirmo-nos nada quando em nós arde uma chama imensa e incontrolável. Acordar e reconhecer-me na inutilidade insignificante que sou. E encontrar no desespero a força restante para mais um dia. 

Procuro-me antes. No limite original das causas, quando o sol, o mar, o vento, o céu estrelado de Verão, eram brisa-alento de esperança e as cores das árvores sem nome um sentido para seguir sem medo o que me dizia o coração. Apetece-me ainda sair, correr pelo ar fresco da noite ao som da música e do vento, sem onde. 

Apetece-me estar contigo, presença que não existes além de mim, apetece-me amar, falar, sorrir, correr, deitar-me novamente sobre a areia e inundar-me de mar. Sentir que há vida possível. 

Porque o tempo é breve e os ossos começam a doer-me na vertigem do meu corpo.