Friday, February 27, 2015

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retirado de olhares (link do autor)

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Recordo-te no som inconspícuo da memória. Na penumbra do silêncio indefinido. Nele abarco armas, vislumbres de emoção constrita, que não sinto. Reergue-se deste estranho despertar a precisão de ser nada, de inexistir para o mundo concreto dos homens, que se mordem e arranham.

Sigo na direcção inversa da procura, do vazio pleno. Agora que a vida surge bela e injustificada, que o sonho é lento e reverso e enfrenta a finitude que nos condena ao ponto de sermos nada.

Reconhecer a transitoriedade, o prazo escasso para sentir o intransmissível. Saber da inconsequência da acção, da clandestinidade subjectiva e breve do amor, que surge e esquece dentro de nós. Abrigar-me num caminho sem fim, ininterrupto - resposta que não existe. Porque o motivo essencial é tão só lembrança magoada.

Recordo e estranho esta presença ainda em mim, passadas a incredulidade, a interrogação, a inevitabilidade de aceitar sem perceber. Agora que o mar é só azul e água e o vento apenas vento.

Mas a vida tem de prosseguir e em si o desejo inato de viver a todo o custo, a necessidade primeira de amar o próximo, o idear de uma certa utilidade para o mundo imediato, a procura do amor extrínseco e constante, que nos ouve e sabe.

O tempo passa-nos e nós através dele e quando damos conta ficámos para trás. Porque o peso é muito e não cabe lá muita gente. E o que resta são os nossos pares apenas. É com eles que nos destinamos a partilhar o espaço que nos restou.

Não há nada que hoje em mim que valha. Não tenho nada para dar. Cheguei até aqui a custo e no percurso fui esvaziando as mãos e o coração e a capacidade de preencher a solidão. Angustia-me a perda, o afastamento, a desilusão antecipada.

Olho em frente e é escasso o percurso alcançável. Perfilam-se tolhidos os corpos. Procuro-te sempre na decrepitude das palavras e gestos perturbantes. O teu olhar lúcido, o abraço breve que me recebe e entende. Porque és para mim a verdade que julguei existir no próximo, a presença grave e insuspeita, que não encontro além de ti, o afecto, contido no verso, esparso no agir. Mas estás longe, também.

Sei que há um caminho a seguir. Que há sempre um início e um fim simultâneos. Que nada é certo nem previsível. Que a vida se passa a sós e injustificada.

Talvez fosse já tempo de me não espantar com esta insignificância, com a falta de sentido que é o viver inconsequente, mas ávido, o caminhar em círculo, com a ilusão de que se progride.

É difícil aceitar o sofrer sem motivo. Porque, na essência, somos apenas espelhos reflectindo-se entre si. Luz contida nos intervalos de nós. Erros que ganharam vida.

Recordo-me do quanto de esperança era o desespero. Do horizonte-luz, o único e possível, quando na tarde tarde éramos silhueta cindida ao sol poente sobre o mar. Não importava o frio. Em nós havia o calor absoluto da vida toda para viver.

Falávamos dos males do mundo, com a incredulidade verde de quem acreditava na justiça. Porque o passado como recordação, alegre ou triste, é-o nas cercanias da separação, do corte abrupto com as nossas certezas. E naquele tempo, não havia passado alegre nem presente triste. Vivíamos abrigados na nossa existência, falávamos da fome à mesa farta, dormíamos ao relento porque nos esperava o conforto de um banho quente. Vivíamos sem sentir aquilo que julgávamos saber, quando confrontados com as assimetrias da vida. De nós ouvia-se o mascar ruminante e voraz da gente nova e imperturbável, que se fere e não aleija.

Falta-me a voz. Ou talvez, mais, ouvido que a escute. Sinto hoje a presença ausente dos espaços. Os corpos que se abraçam sem se unirem. As mãos que se dão, mas que deslizam, esmorecentes.

E porque a reciprocidade nos falha (e espelha), receamos sempre revelar o que de mais intrínseco sabemos de nós, a nossa fragilidade.

É difícil existir em conformidade com aquilo de que discordamos. Dizer que sim, consentir o que nos é estranho e repele. Dormir de consciência cega. Temer o menosprezo dos outros, a diferença que nos não distingue do grupo dos falhados.

E por isso tendemos a prosseguir, de rosto lavado, ante os desígnios da mesura. Gostamos quando nos tocam no ombro por nos portarmos bem. Somos chamados a corroborar o que não sabemos e dizemos – sim, sem pudor. Somos aplaudidos se não pensarmos e não pensamos. Somos postergados se não colaborarmos e assim calamos.

Não existe justiça na natureza. A justiça é uma invenção do homem maquinal, um desvio centrípeto das condutas marginais, uma forma de imposição da ordem segundo o grupo dos mais fortes. Se o Homem fosse bom talvez nos bastasse a ética. Talvez seja por isso que possamos fazer tão pouco e que o nosso grito seja tão baixo e irrelevante.

Houve um tempo em que se acreditava. Em que sonhar nos era permitido, sem que daí nos sucumbisse o alheamento inconsequente. Houve necessariamente um tempo do amor, porque se o não guardássemos na essência, não existiria esta sensação de perda, de saudade. Aonde ficou não sei. Desconheço a razão do fogo extinto. O derroteiro dos sonhos que nos instigavam, das paixões que nos enterneciam.

Findo o inebriamento, resta-me pouco. Perdi o lugar que pensei ser, calei a voz, as mãos que ninguém escuta. Olho-me ante os espelhos e o que vejo é luz extinta.

Mas a vida continua. E os dias passam. E precisamos de manter os mínimos de nós, pelo menos em consideração àqueles que nos são irmãos. Dignificar o que não é dignificável. Representar a peça enquanto o pano não cai.

É desleal subjugar o sonho dos jovens, deitar por terra a sua força ante as nossas angústias, confundir os nossos desesperos. Porque o futuro é neles. É na superação, na revelação que nos facultam, a nós, que um dia fomos como eles. E é por isso que, extinta a matéria que nos inflamava, é preciso mostrar-lhes os caminhos que errámos, contrapor direcções, construir desafios, encontrar um sentido.

Precisamos urgentemente de um motivo, de uma utilidade para a nossa existência. Dizer que a felicidade está nas pequenas coisas não é ludíbrio fácil. Privamos hoje do afecto que julgámos ser incondicional. Somos aborrecidos e indesejados. Ninguém quer saber da índole do que fazemos, nem porque o fazemos. A despretensão perdeu-se na mesquinhez, na ambição, no egocentrismo bruto. As nossas expectativas são distorcidas.

Talvez não exista uma saída. Talvez a fragilidade do nosso futuro seja superlativa e o limite a consciência de tudo isso. Mas só existe uma vida. Só existe um corpo cansado e com sono, mas que ainda assim é corpo, que dói e sente. E é nessa verdade, nesse estar sobrevivente no mundo, nessa nudez que somos nós ao frio da desesperança, que corremos contra o tempo que passa.

Nada do que vivemos faz sentido. Tão pouco esta interrogação permanente. Seremos eternos descontentes. É essa a verdade uníssona que nos nivela e incita, a nossa consolação.

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retirado de olhares (link do autor)
 
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de novo
o estar triste
que antecipara
em cada sorrir
em cada fremir
tácito
quando eras
perto

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onde estás?