Wednesday, June 10, 2015

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rasto
Abril 2015

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Os dias passam. Iguais a tantos dias que se perdem entre aquilo que não fazemos e não dizemos. Tememos revelar-nos. E se o sol desponta sobre nós o azul claro do céu, também a vida toda é nele que se revela e sofre. 

Vivemos do equilíbrio com o sentimento do outro, mesmo daquele a quem não é permitido sentir. Achamo-nos especiais e únicos na nossa identidade. Aceitamos a desigualdade, a diferença que não é justa. Porque nem este azul de que dispomos para chorar, nem esta angústia que me obceca, são motivos de preocupação maior para quem não tem chão nem mesa nem afecto nem nada que pareça vida. 

Tentar compreender a desconformidade no trato. Justificar este nosso alheamento recto ante o olhar circunspecto e incolor que nos investe de súplicas e vénias contidas. Falar do que se não sabe e depois ir à igreja, não vá o diabo tecê-las a lembrar-se de nós.

Mas o diabo somos nós. Nós que corremos a pretexto do que não existe. Nós que passamos pela existência única que temos sem entendê-la. Nós que somos subterfúgio constante e insatisfeito.

Faltam-nos minutos de silêncio para dizer nada, horas de estrada infinita e densa, restos de sons e vidas que passaram por aqui.


Viver é esperar sempre. Procurar por alguém que nos escute e saiba. Ser elemento neutro mas ter com quem partilhar essa desilusão.


Porque tudo o que se espera e anseia não existe senão cá dentro de nós.

(...)