Sunday, August 30, 2015

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Caminhar pela praia. Por diante o espaço amplo da praia. O ar fresco do final da tarde, de uma tarde que se cumpre magnífica e aberta a todas as possibilidades da vida. É preciso respirar. Lavar o corpo em brisa e maresia e ondas que rebentam sobre os nossos corpos, pálidos e doentes.

Horizonte velejado. Imagem absoluta. Evidência serena e bela da nossa estranha possibilidade de ser tudo, sendo nada.

Humildade isenta de submissão. Conhecimento inexacto e inconstante. Avanço e recuo desta nossa abstracção perante a vida programada para o fim. Final que se não pensa e não sente como nosso.


Por diante é apenas o vazio esfumado. A frescura de um dia que se cumpre. O som das ondas, que hoje foram maiores e mais severas. O abismo transitório. A sensação de liberdade. Os braços abertos à infinitude do nosso sonho insatisfeito. Por momentos a afirmação. A força contrariante do peso que exercemos sobre o mundo, o nosso velho mundo.

Mas mais mágica do que a imensidão é a presença silente dos pares. A jornada partilhada. O reflexo indefeso e quente de nós, viandantes, sobre este espelho de água e pedras e conchas coloridas.

Porque a cumprir-se a concretização da vida, a afirmação do seu sentido, será certamente em função daqueles com que nos cruzamos.

São esta necessidade de amar e ser amado, este ímpeto de entreajuda, esta paixão intrínseca que nos leva à concessão de nós, por inteiro, esta amálgama de proximidade e afastamento e falta, são estes os motivos que nos conferem um propósito concreto ante a indefinição que é existir.

Por quem antes de Porquê. Não deveria ser esta a interrogação primeira? A dúvida reverberante que nos consome o sono e a vontade?

Antes de sermos mínimos e finitos para o mundo, somo-lo para os que nos amam e choram e sorriem por nós. Esquecê-lo é ser egoísta. Presumir que há apenas o nosso sofrimento, que apenas ele é real e verdadeiramente penoso. 

Mas não estamos sós. E antes de nós e depois de nós e entre nós existem tantos outros silêncios tolos.

Caminhamos pela praia. A par. A paço decidido.

É preciso continuar. Voltar o rosto para o vento e sentir que ainda estamos vivos. Que existe alguém por nós.

(...)

Thursday, August 20, 2015

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frente a mim
é um lugar desocupado

espaço vazio

matéria
de que se faz vida

(a nossa vida)

adiante um coração
apoiado sobre a mesa

o teu

rosto amargo
sorrindo de soslaio
aos tropeções
da esperança

e entre mim
e o teu rosto
imaginado
o ar que nos
condensa
num momento

liquefeitos

os corpos
de amor vácuo
que se não dizem
nem tocam
por defeito

entre nós
a vontade silente
de gritar

de arrancar
a crosta que nos contém

esvair o pensamento
a inquietude que dói
a inequalidade implícita
que se não questiona já

é esse o nosso ímpeto
inquieto

(...)