Monday, October 26, 2015

Wednesday, October 21, 2015

Poslúdio

Sábado. Manhã fria. Daquelas em que o ar arrefece o peito, bem dentro de nós. É cedo e por isso o silêncio de quem dorme ameniza o bulício da semana que passou. São horas de acordar. Há um dia para viver. 

Nem sempre é fácil, sobretudo quando a dor que sentimos por dentro é maior do que nós. Não há limiar nem limite nem fim para ela. Está sempre, simplesmente.

Mas hoje é uma manhã diferente. Uma manhã de revelação. Um despertar sem ontem. Sinto-me triste, ou pelo menos magoada, com a hipocrisia e cinismo de algumas pessoas. Revoltam-me as injustiças. Indispõem-me as manifestações de vassalagem e medo. Dispenso aqueles que se vergam, que não olham de frente. Que se não olham. Os (ine)céfalos que não contestam nem pensam. Os tristes que não dispensam o protagonismo, seja a que custo for.

É certo que nem sempre estamos tão preparados quanto julgamos para enfrentar o inevitável. Ontem foi um dia assim, de surpreendimento sem surpresa. De revelação revelada. De representação. 

Por vezes é-nos inacessível o entendimento das coisas e pessoas em redor. Talvez porque aquilo que julgamos ser verdadeiro seja tão somente a reprodução dos silogismos éticos que cedo nos ensinaram, dos padrões de conduta do afrouxamento.


Desilusão. Talvez seja essa a palavra certa para a confirmação clara do que em nós existe de pérfido e grotesco. Mesmo entre pessoas como estas, que vivenciam os limites frágeis da vida, todos os dias. Para pessoas que deveriam ter já como certa a vulnerabilidade do ser, sem título algum de acesso à eternidade.


Independentemente da crença de cada um, certo é que somos todos feitos da mesma massa, que todos nós sentimos e pensamos. Que todos temos o dever e o direito de partilhar ideias, de expor sem subterfúgios a insignificância irrisória que é a nossa existência quando comparada com a vida imensa que é dentro de nós. É nisto que reside parte da magia, como nas histórias que ouvimos e nos fizeram vibrar. 


Importa agora parar para sentir as cores, os aromas, os sons que ficaram longe. E embora seja triste esta manhã que desponta, há nela uma serenidade intrínseca, um peso que se abate sobre o que passou. 


Mais importante que o sentir-me humilhada, é despertar e saber que não estou só. Que neste mundinho pequenininho e mesquinho existe alguém, por mim. 


Há um caminho a traçar, de fronte erguida e, por mais que se prevejam tempos difíceis, não há preço para sermos livres e em verdade.