Thursday, January 28, 2016

~

ressurgir-me
porque
lá fora
há um sol
e um mar

consumir-me 
pela dúvida
que é nossa


não há sentido 
possível
nem resposta
para a vida
que começa
e acaba
síncrona

não há expressão 
alegre ou triste
num corpo 
arrefecido

somos  
o que vamos
sendo

o absoluto 
intangível
que procuramos
entender
são as nossas
limitações

a eternidade 
não existe
senão 
no egoísmo
nosso
de querer
deter
a vida
a termo 
próprio
suspender 
o cair
das folhas
secas
fixar o verde
dos campos
os troncos
cansados

é preciso 
inexistir
para que
as flores
despontem
e os pássaros
cantem 
o dia novo

partir 
é um sopro
que se extingue
em nada

somos 
amar breve 
e imperfeito 

e o sol  
e o mar
não esperam

~

fazes-me falta
ainda que 
sejas
sempre aqui

penso-te no partir
nos momentos
escassos
nas ausências
prolongadas

são pares
os nossos 
caminhos
e por mais que 
se não apertem
as nossas mãos
há o sentir-te
no silêncio 
restante
do dia farto
sem vocábulos
ou gestos
necessários

somente olhar-te
no reflexo
do olhar-me

Friday, January 22, 2016

~


tarde
2015

~
 
Caminho no deserto vazio de mim. Esgotei, até à exaustão, todas as possibilidades. Tenho cãibras, sinto as pernas presas contra o vento, falha-me a força oponente. Olho a sépia fosforescente. Ao horizonte a turbidez quente das pessoas que passam. São correntes contínuas de esperança, pontos que se afastam, longe. Estendo o braço para a vida distante que se escapa entrededos. Um dia era ali, à luz do dia são, sob o aconchego da noite terna e quente. Abre-se a terra mole e seca. Piso e cheiro e vejo apenas esta amálgama barrenta. É preciso seguir, mesmo que o amor dimanante não me seja dirigido. É preciso beber ainda que a sede seja extinta. Porque as maiores privações são a utilidade, o propósito de nós, mesmo que desconsiderados. O importante é a validade de nós para nós. Aquela que uma vez perdida é difícil de encontrar ou reconstruir, por mais que sejam as alternativas provisórias e incertas. Fazemos o impensável, agimos pelo contrário das nossas convicções, recriamos a personagem, representamos o papel, revisto e emendado por fora. Termina o dia e faltam-nos sempre elementos para o balanço. Apetece-me qualquer coisa doce. Não tenho fome. Bebo um café bem longo. Queimo peito adentro a frustração. Outrora espreitaria o frio fumegante, a chuva batente. Escutaria uma música, talvez um nocturno ou um fado menor. Embrulhar-me-ia confortavelmente na leitura. Porém, não consigo. Lá fora há uma revolução. Pessoas que se matam, crianças esmorecias pela insanidade a que são obrigadas, impulsos nervosos propagando-se por ecrãs e montras e luzes ofuscantes. Estar aqui é aceitar tudo isso, à distância. Estar aqui é negar a mão à pessoa que é só. E nem por isso deixo esta sala. Este idílio cárstico, este marasmo vulcânico, este querer inoperante. Desconstruo a vida, peça a peça, com requinte e tempo. Descubro erros, ideias obturadas. Aqui chegada, a este ponto sem retorno, a este limite, a esta consciência irreversível, não sei para onde ir. Não consigo sorrir, não consigo abrir o coração ao mundo, não acredito nas pessoas, com as devidas e raras excepções. E por mais que procure um sentido para o que realizei, reconheço-o apenas dentro de mim, para mim. Não existo. Talvez não tenha sequer existido senão nessa presunção. A acção desenrola-se voraz. As vozes são as mesmas, os desfechos iguais. Não há justiça nem arrependimento. A guerra foi minha. Fui eu que me feri. Tudo o resto passou lesto e indiferente. A vida continua. Dedicação, ética, respeito. Nada disso importa neste meio em que vivemos. Enganei-me. Deslumbrei-me com a possibilidade de, finalmente, poder vir a fazer algo de útil, de estar no caminho certo para a concretização de um projecto de sempre. É incrível quando nos apercebemos da desfaçatez dos nossos ídolos. Quando, de repente, nos deglutem e digerem corrosiva e lentamente. Sou objecto. Poderia ser esta cadeira onde me sento. Esta mesa sobre a qual me apoio para escrever. O mundo permaneceria igual. As mesmas pessoas seguiriam os mesmos passos. Numa altura, talvez do momento primeiro de onde partem as memórias mais antigas de nós, nessa altura tomamos consciência da nossa presença no mundo, mundo esse que é tanto por descobrir. Aprendemos o nome das coisas, já sabemos andar, começamos a ler e a escrever, crescemos,  já temos força e altura, temos coisas urgentes para descobrir, explorar, fazer. Nessa altura, sentimos que somos únicos, que somos importantes, que temos uma missão, um papel a desempenhar. Ainda que os exemplos paradigmáticos de desigualdade, vulnerabilidade, efemeridade da vida estejam expostos descaradamente, não permitimos que nos demovam a esperança, nem a força. A rebeldia, intransigente e pura, é a nossa arma de arremesso. Somos um escudo incorruptível. Questiono-me, hoje, para que serve tudo isso. Privar os sentidos das cores, aromas, sons. Deixar escapar o brilho da natureza, o céu constelado, aberto ao infinito do infinito. Correr para as aulas, passar horas infindáveis a estudar, entre quatro paredes, sem luz. Todos esses sonhos nos são roubados. No final desse trajecto monótono e escorchante há apenas contas para pagar, um emprego para manter, sob ameaça de despejo e de fome para os nossos filhos. O corpo muda. Não somos já a imagem que ficou, fotografada lá atrás, quando o passar do tempo fora irrelevante, não fosse a vontade desmesurada de andar no banco da frente ou de fazer dezoito anos para poder tirar a carta. É chocante olhar o espelho e não reconhecer o rosto que nos encara. O tempo revela-nos a verdade. Não somos preparados para ela. Não estou preparada. Persigo um modelo passado, obsoleto, idealizado com o passar dos anos. Procuro lembrar-me do que pensaria dantes, do que faria se dantes aqui estivesse, de que forma sairia deste esconso. Talvez outrora eu não pensasse no futuro da mesma forma. Talvez nem o pensasse, pelo menos de forma racional e contada segundo a segundo. Reconhecidos os limites da significância, enquanto hipótese crível, a impossibilidade da realização essencial, a incerteza, não sei o que fazer, o que ser. Por agora, paro.

Monday, January 4, 2016

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Começo o ano sem grande coisa para dizer. Com a mesma sensação de estranheza, de que algo errado está para acontecer. 

Não sei bem, ainda, em que imaginário viver - se no imaginado; se no real subterfúgio diário, que nos vai mantendo de pé. 


Porque sentir o medo do outro, a fome do outro, são hábitos que passaram de moda. Ficam mal. Mais facilmente aceitamos a necessidade de posse, o rosto duro e impenetrável das pessoas que sofrem para dentro, a problemática da ignomínia, de mostrar ao mundo o quanto somos frágeis, o quanto precisamos daqueles que nos são próximos. É insuportável a relutância anteposta a um simples e devido obrigado.


Mas nem por isso nos esforçamos. Antes, fugimos do perigo escondendo-nos atrás de um ecrã. Ganhamos voz batucando no plástico. Fechamo-nos no espaço seguro e asséptico que montámos em bloco e dele comunicamos ao mundo o que nos vai no pensamento anónimo. Pois que, por mais que nos esquivemos do face a face, persiste em nós uma vontade imperiosa de prevalecer, de deixar marca, de existir. 


Sem juízos sobre o que estará mais certo ou menos errado, confrange-me o vazio, a solidão que criámos à nossa volta, o silêncio habitado. 


Sentir com os sentidos, tocar, abraçar, rir com os dentes todos, molhar os dedos em gotas de sal humano, reconhecer a vibração silente de outros corações que batem e se interrogam. Talvez precisemos de reocupar os espaços que fomos fechando de geração em geração, de repensar o que andamos a fazer pelos dias que passamos, de adequar as motivações, as aspirações impostas, que nos toldam sem amanhã.


Viver requer tempo e dedicação. É preciso ser presente para aqueles que nos são presentes. A integridade começa lado a lado, no amar próximo, nas frases e gestos simples do quotidiano imediato.