Thursday, February 25, 2016

~

tempo prévio
porque te revelas
sem teres chegado

melodia esparsa

daqueloutro dia
qualquer

escutei-te já

num sem onde
seguro e calmo

soubesse eu

por onde
regressar-te

mas o caminho

que se abre
é num sentido só

e eu estou diferente

também
como tu antecipado

reconhecer-me

noutrora
é estranhar-me

porque o corpo falha

mas o sentir cresce
imaterial e livre

Saturday, February 6, 2016

~

Trazes em ti a brisa fresca do mar revolto. Entregaste a tua vida interrogada ao tumulto do amor sereno. Esqueceste-te, transpuseste a incerteza e o medo em prol da prole que trouxeste ao mundo crasso. Sinto-te na manhã azul e branca que desponta, na solidão inapta que me afasta da multidão escorchante. Preciso apenas de um canto qualquer, silente, de um lugar onde possa ruminar a dor, pensar este existir desequilibrado e desconexo a que chamam vida. Ficar na companhia dos que não falam e não sorriem. Escutar o retumbar das ondas. É difícil começar o dia aceso. Enfrentar os pássaros, o ar fresco, o canto jubiloso da manhã. Sentir a fragrância primaveril, a força inata que germina e arde. Sentir e saber-me parte deste acaso, deste fogo de aromas oxítonos, desta casualidade entre milhões de milhões de casualidades possíveis. Saber-me mais um entre mais uns que se não geraram em detrimento deste mais um que sou. Saber-me mais um entre mais uns que acaso tivessem sido poderiam ser mais aptos que eu. Ter consciência da desigualdade, viver com ela a cada segundo que passa. Saber que a cada segundo há uma boca que morde em seco, um olhar (a mais) que se extingue. Procurar um sentido par esta luta diária, para este confronto que me interroga e estupefaz. Pesar as circunstâncias, as decisões avulsas. Construir vontades e afazeres para que o fio se não perca da meada. Assim passam as horas e os dias e as estações cíclicas e imperturbáveis. Conhecer-me é revisitar o passado, as escolhas, as gentes que foram, o alguém que fui sem saber, imagem do que agora não sou. Somos o que vamos sendo, disseste-me, a morte do que fomos sendo. E ainda que as palavras se repitam, muda a significação, a intenção, a intensidade. O tempo passa e nós com ele. No final do dia sobrevém o cansaço triste, depostas as expectativas, dissecada a verdade que afinal não existiu senão em nós idealizada. Apanágio é o sono que os invade à hora incerta. A necessidade imperiosa de um leito, de um pouso para o corpo em queda. Depois disso somos finalmente mais um daqueles que por nós não foram. Espero que nesse lugar desconhecido não existam pretensões além do silêncio vácuo de nada. Por enquanto mantém-se o ruído, a inaptidão, o questionamento constante da exegese, sem desrespeito nem ofensa aos que nos são pares na procura. Porque todos temos um sentido obscuro e incerto que nos entretém e inquieta. Mas por agora preciso de estar aqui, de regressar ti. À brisa renovada que me chama para o mundo e incita à práxis simples e imediata da vida normal. Singeleza contrafeita, talvez, mas repleta de energia e vontade. Sou prol da tua prole, ponte dos teus versos rasurados, dúvida intercalada na dúvida que é em ti, solidão interposta no vazio da solidão que é tua, ignescência mútua. És-me verdade, presença vasta e fértil por que me levanto, torpe, nesta manhã azul e clara. Pudesse eu sentir-te feliz, abraçar-te o abraço que me falha.

~

por onde andas 

tu

que ardes
de amor
antes de ti

tu

que a ti
esqueceste
primeiro
e abriste
sem restrições
as mãos
ao mundo
que te não 
merece

tu

que sentes
o sentir
dos outros
e compreendes
a angústia
dos outros
e choras
a dor
dos outros

tu 

que és corpo
de fibra
e barro triste

tu

que corres
sempre 
por alguém
mais
além de ti

tu

que ardes
pela terra 
inteira
e alancas
o peso
das vidas
fartas

tu 

que amo
antes
de mim

Wednesday, February 3, 2016

~

leva-nos a vida
em incompreensão
e falta

somos vazio 
inabitável

margem 
de olhar
profundo 
por que
nos não 
vêm

ansiamos
relutantes
pela noite

é nela
o beijo
maternal

o abraço
único
que nos
afasta
do medo

da inquietude
constante
que se sente
e não explica

(...)

quando o mundo
é submerso 
no silêncio 
do sono

quando 
só 
o nosso ruído
brade

se somos felizes

?