Wednesday, March 30, 2016

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Manhã cedo. É Março. Escuta-se o reboliço dos pássaros contentes. Há sol que entra pelas persianas. O céu é inesperadamente azul, assim se aguente para o resto do dia. Sinto que talvez seja hoje o dia ideal para voltar a acreditar nos homens. Escolho o azul porque é a cor que apetece, dentro das cores de que disponho no armário. 

Espera-me uma entrevista concursal e, ainda que não seja legume de exposição, há que manter o aspecto dentro da normalidade que se aplica a estas situações. Ir pelo menos penteada, com sapatos íntegros e roupa ajustada ao tamanho. 

E então lá vou, sem grandes nem pequenas expectativas, pois que essas não as tenho há algum tempo. Chego mais cedo e por isso as cadeiras estão vazias. Abatanado, tostas, bolo alentejano. Tudo em silêncio matinal, fora os pássaros que no jardim continuam a cantar, mais e mais. São horas de ir. 

Chego com trinta minutos de avanço, para procurar o local exacto da reunião e porque o cumprimento horário assim o exige, pelo menos a meu ver - antes cedo do que tarde ou em cima da hora. O júri atrasa-se uns minutos. A entrevista começa.

Bom dia. Apresentações. Muito obrigada e tal por ter vindo. Sabe, o seu currículo, bom, é um excelente currículo mas não obedece aos critérios da grelha. Porque escolheu vir cá? Foi uma epifania? 

Não sendo eu crente, achei que deveria justificar a escolha de forma cordial e delicada. Bom, porque as decisões que se tomam na vida vão mudando no seu decurso, porque somos seres que se esperam versáteis num tempo que se apresenta dinâmico e vário. Porque sou apaixonada pelo que me proponho a fazer. Porque (penso para comigo) se não estivesse convicta daquilo que considero ser capaz, não viria sequer aqui, importunar os senhores doutores e a mim mesma. 

Desiludida, lá respondo às questões. Duram cerca de cinquenta minutos, sendo que desde os cinco primeiros persistiu um certo menosprezo, uma certa condescendência protocolar. 

- Pronto, mas olhe, não desista do seu sonho. Se não for desta, continue o esforço e tente noutras oportunidades. Vá ter aulas de canto. Tem boa voz, tem talento. Quando melhorar, num sem nunca à tarde, pode voltar. É provável que estejam por cá outras pessoas. Deixamos a batata quente para elas, que agora faz muito calor e queima, queima. 

Procuro manter a calma e tranquilidade de quem se sabe a falar para três paredes, espessas, porque nem sequer ecoa. 

Currículos à parte, grelhas postas fora, ficam os braços e a vontade transparente e imensa.

Saio triste mas fortalecida. Não me enganei. Não só na minha especialidade continua a ser o papel que importa. Não só as pessoas em quem confiei a minha formação se submetem a desígnios vários e duvidosos.

Claro que o papel serve para muita coisa. Usa-se para publicar, para pedir análises e receitas, para fazer aviões, para jogar ao quantos-queres, para pagar contas, para limpar os beiços e as regiões pudendas, para jogar ao totoloto, entre tantas outras coisas.

O problema é que nós não somos feitos de papel. Somos de carne, osso, espírito. Também não somos todos iguais, não nos guiamos pela mesma bitola. Não quer isso dizer que sejamos mais ou menos competentes, melhores ou piores. 

Somos, simplesmente, diversos, e por mais que me esforce, não consigo conceber a natureza de outro modo. 

Felizmente que é Março e os pássaros cantam e as flores cheiram e o céu é azul e há aqueles que nos amam e que incondicionalmente esperam por nós.  

Felizmente que há uma utilidade próxima e intensa para esta nossa vidinha de papel e riso. 

Tuesday, March 1, 2016

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ser na vida
projecto
do projecto 
que fomos
e acordar
um dia
sem nome
num lugar
desconhecido

procurar
as vestes
e as cores
que se não 
encontram
arrumadas

sair para a rua
sem esperança
e abraçar o mundo
todo
como da primeira vez
de tudo o que foi
primeiro

chorar de novo
a mágoa
repetida
e entrelaçar
nos dedos
os cabelos
da gente
antiga

partilhar
o silêncio crédulo
dos inquilinos
da rua
tragar com eles
do vinho acre
da descrença

relembrar
que a vida
é igual
para todos
à hora certa
das palavras
postergadas

dizer não
a quem se julga
maior

perder 
para ser
livre na fome
e reclusão

amar
a verdade