Tuesday, April 26, 2016

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 delével
2016

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Ouve-se o vento. Escutam-se as gaivotas que aportam ao terraço, frente ao mar. Azul, branco, são as cores que levo comigo, daqui, deste lugar de onde foi possível rever a felicidade, a alegria de ver nascer o dia, ininterrupto e pleno no seu intento.

Mas tudo tem um fim no imediato. O tempo passa, o olhar configura-se em modo triste, as pessoas desunem-se, desamam-se. 

No regresso próximo, de novo a sensação de falta, de perda sem ter prévio. O silêncio, o vazio adentro que me inquieta e assoma, na deriva dos dias correntes.

Amo intransigentemente tudo o que sinto ser verdadeiro. Ultrapassada a barreira da verdade, navego inteiramente ao largo das coisas inúteis. 

Existir decorre num espaço e tempo cujos limites provêm de nós e dos que nos são próximos. Aquela grandiosidade, aquela força ilusória e inultrapassável que anima a nossa juventude, aquele querer sempre mais, aquele sentido de justiça, aquela voz que se não cala, a alma transluzente que se ofende e não desarma, tudo isso se depõe quando nos precipitamos para o abismo da esperança ausente.

Não é fácil encarar a impossibilidade, a frustração, a emancipação inexistente. Perceber que a lógica que nos ensinaram carece de sentido prático. Tornámos-nos adultos à força e pela idade, desprovidos de um manual para a vida, que se não decora nem regula por princípios aritméticos. 

Pior ainda é a confrontação com a nossa mediocridade, é sermos apanhados em todas as curvas. Nesses momentos, em que descobrimos as nossas falhas, os nossos erros, os nossos enganos em relação a nós e ao mundo que ocupamos, a debilidade das expectativas prometidas, desaba sobre nós um peso difícil de suportar. 

De facto, somos tudo e nada em simultâneo. Ser ninguém é condição procrastinada à nascença. Somos gerados e educados para prosperar no terreno débil das virtudes. São-nos dadas ferramentas de combate, princípios éticos e morais, linhas de orientação para a vida, noções de causalidade. E se, num certo momento, parece haver um fundo de verdade nos ensinamentos embotados que os pedagogos tecnocratas do sistema nos inculcam, certo é que os meninos e meninas de amanhã se regem por outras leis, por outros princípios e direitos, por cartilhas em que o bem e a reciprocidade entre os homens são meros preceitos de bom-cristão, que pugna por um sono tranquilo e por um acesso privilegiado aos domínios do oculto. 

Contudo, embora a vida nos pareça desigual e injusta, a verdade é que somos todos homens perecíveis, ossos e músculos que se vergam, Sol a Sol, privados de liberdade, desmarginados de nós. E ainda que existir nos não tenha sido dado a escolher, tanto quanto se (não) sabe, mantemos reservado o direito de pensar em modo livre, de não falar com estranhos, de abraçar as causas que nos agitam. 

É preciso por isso superar a desilusão, o sentir que tudo o que fizemos e construímos antes poderá ter sido em vão e errado. É preciso que nos sintamos livres na origem, no propósito das nossas acções. É preciso darmo-nos enquanto somos presente. É preciso andar, andar sem fim.