Tuesday, September 27, 2016

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FCG - 2016
 
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Por mais silêncio que faça, há sempre uma voz que fala, ruminantemente, intransigentemente, por dentro deste meu semblante probo e indeciso.

Fala-me de erros, de imperfeições, sempre em tom recriminatório. Não se cala nunca, de tal modo que vem sempre desapaziguar o ambiente estéril que o estar de bem com a vida requer, para que assim o corpo se não jogue três centímetros a mais para diante, findo o precipício denso e ignóbil que o vai sustentando.

Mas não é deste ruído que me queixo. É, sim, da natureza frágil de que é feito este corpo que o contém, maleável, labiríntico, plasticizável, consoante a aridez do meio e do tempo.

É comigo só, esta contenda. Este descontentamento perene e lábil. Este faltar sempre, de não sei o quê, que se tem e larga, impiedosamente.

Perdidamente, disseste-nos tu, num de tantos dias, perdidamente é o teu verbo, que releio à exaustão, cá dentro, à exaustão.
Amar perdidamente, talvez seja essa a fonte de vida e dor, talvez seja assim a chama que nos consome, que nos destrói e regenera.

Mas por que caminhos, por que razão seguir esse infinito, se aqueles que nos acompanham no percurso se vão ficando pelas metas incumpridas do destino, sempre em procura, no interregno desvelado do partir?

Olho em redor e desconheço todos os passos, todas as vozes, todos os muros da instabilidade material que é hoje soberana. Desconheço o presente, não te encontro amigo, senão naquele passado feliz, porque passou.

Pudesse eu voltar atrás no tempo, reencontrar-te, falar-te, dizer-te o quanto me fazes falta, tu, que és gente e sentir e lugar do passado, deste passado que persiste e falha.

Houvesse uma forma de reelaborar a malha que fomos, de conjuntar os nossos quereres e sentires irmãos, de cristalizar numa só imagem a imagem que focámos juntos, nos momentos partilhados.

É difícil perder os sentidos e sentires que se fizeram juntos, ao som uníssono do mar bramindo sobre a nossa integridade jovem e espontânea, ao ar fresco do ponto mais alto da nossa ingenuidade, ao largo dos deveres e imposições e regras cáusticas que nos foram matando, sempre sob o auspício daquilo de deve ser, como manda a lei, e o mais que pudesse estar para aqui a vomitar para bem de uma vidinha próspera e feliz.

Estar só é falar para um público que não escuta nem sente de semelhante forma, é ter de representar diariamente um papel imposto e colado a cuspo, é ter de esgrimir argumentos trapaceiros para que o corpo se levante e não desmorone em picardias ou lágrimas de desespero.

Faltares-me é falar para dentro, é guardar o sentir para que se não extinga, é frenar as explosões da alma, quando o sol cai sobre o horizonte vermelho e roxo, e com ele a vida toda, o sentido todo, aquarelados.

Sinto saudades, sabendo, porém, que as saudades nos não faziam grande mossa, naqueles tempos em que o sentir nos bastava. Mas o que não sabíamos, então, era que a música que escutávamos seria transitória, que também os verbos se regeneram e gastam com o tempo.

Talvez por isso me não sinta preparada para o embate, cada vez mais forte, tão tremendamente célere. Talvez por isso sejam o silêncio e o distanciamento os modos mais seguros e imediatos de estar.

Não compreendo o sentido, o motivo de tudo isto que fomos e somos e seremos. Consinto-me no erro que é calar, porque a vida é uma só e o tempo, que o ser novo tende a desvalorizar, é demasiadamente vital para que o deixemos à margem do pensar livre.

Assim pensando, talvez o tempo físico e o tempo intrínseco a cada sentir, a cada ser, de entre todos os seres, sejam realidades que se não tocam senão na sua relatividade. Estar enrugado não é ser enrugado nas ideias, no sentir, no desejo infinito de galgar o horizonte, de alcançar a sombra, de encontrar a felicidade, o porto da esperança de qualquer coisa mais, de qualquer gesto mais que se espera, ao limbo do existir longo, vastamente só.

Perdi tempo, esqueci-me de viver quando amar-te perdidamente, a ti, querer, vontade, força intempestiva e bruta, motivo vital, me parecia absurdo e dispensável.

Sei-o agora, que escrevo envolta em esperas e dúvidas e questões colocadas fora de tempo, do nosso tempo.
Sofrer é deixarmo-nos ir na corrente dos outros, é perdermos a capacidade de sonhar, de procurar o sopro que nos falta, por mais incertezas e contrariedades e dúvidas e fomes que possam surgir pelo caminho.

Sei e sinto que só assim, em sendo-nos livremente, o silêncio será silêncio e a voz, insistente e clara, o motor-motim que perdidamente nos tornará à vida, àquele viver de poeta à solta, àquela energia que nos preenche e ergue face ao vento fresco da manhã, quando o dia é todo por cumprir.

Monday, September 5, 2016

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Cacela
(foto de FP)

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O meu lugar no mundo é sonhar. Acordar é uma névoa que perturba, que em mim estreita a capacidade de viver.

Valem-me aqueles que amo e me são próximos, certamente que sim. Valem-me as emoções conjuntas, o sentir que não estou só.

Mas fixar o rosto nos ponteiros do relógio, atentar na cinética lenta da luz, seguir o rasto certo da terra quente, segundo a segundo, de vazio em vazio, exaspera e corrói.

Há vários caminhos a seguir. Há perfeições diversas, que ora singram, ora caem no saco fundo da repulsa. Há certos e errados simultâneos. Há sorrisos e trismos cínicos coincidentes, brilhando nas mesmas bocas ímpias, mas alvas.

Porém, ciente da homogeneização dos opostos, da continuidade dos sentidos, que se opõem e tocam sincronicamente, tudo faço para evitar o que me é estranho. E talvez seja por isso que não consigo conceber a vida prática sem pólos, sem modelos binários, sem verdades opostas e exclusivas entre si.

Porque pensar de outra forma, sentir e perceber a falta de sentido que somos nós no mundo dos actores, seria conceder-me o comando de um barco à deriva. Pior, de uma deriva que, com o tempo, me encarreguei de amainar com deslumbramentos e ideias crassas.

Apesar das evidências, dos factos diacrónicos, teimo em repetir os mesmos erros, as mesmas indulgências, as mesmas concepções utópicas e românticas. Continuo a não aceitar o modo de existir em proveito próprio, doa a quem doer. Não consigo calar a revolta que me causam a injustiça, a desigualdade, o desrespeito, a arrogância.

Perdi muita coisa. Perdi-me a mim nesta contenda. Ganharam os maiores, os soberbos, aqueles a quem se não pode questionar ou confrontar, aqueles que nos sugam a alma regozijo próprio, aqueles ilustres que se pavoneiam pelos corredores da ignorância e amedrontamento. Aqueles que, sendo tudo isto, esboçam e apontam sem escrúpulos os defeitos horríveis dos que se não subjugam.

É difícil viver à luz do dia, suportar o galgar do sol sobre a minha inutilidade, toda ela revelada ao meio-dia, à uma, às duas, às três, às quatro ainda, quando não às cinco, seis, sete.

Por vezes procuro o sono para que o tempo passe mais depressa. Se tiver sorte, talvez o despertar seja já no fim da tarde, sem sol visível, mas ainda com aquela nesga de luz torrada e roxa do ocaso austral.

Depois vem o fresco despojado da noite. Traz consigo a vigília ébria, um certo encantamento pelo viver contraditório, que está sendo vil e amargo e próspero e ameno, mas não ali, não naquela hora silente e mágica da brisa que corre livre pelas ruas sem gente. Ninguém me olha, ninguém me escuta.

É nesse lugar que reside a esperança, a coragem, a vontade débil mas presente de olhar de frente para o mundo, a força com que procuro reerguer-me deste modo acabrunhado de ser e estar - o único possível entre corpos e pensamentos transacionáveis.

É absurdo como o nosso cérebro se deixa enredar por desígnios alheios. É sem sentido próprio esta corrida contra o tempo, esta ambição desmesurada de ser feliz, de ter um papel a desempenhar, um significado qualquer na engrenagem do porvir.

Sei-me transitória, perecível. Há muito que perdi a cor e o brilho, e o sentido (nenhum) que me trouxe até aqui. Não sei que lugar é este, que tempo é este, que ser-me é este que estou sendo.

Sei porém que a brisa do jasmim-da-noite, em não tardando, chegará, e com ela o odor alfarrobado dos Verões esfuziantes de outrora, o sabor ficáceo das palavras vivas, a simplicidade original. 

É hora de olhar as estrelas, de sentir o calor da eira quente sob o dorso. Cheira a sal, a mar. É melífluo o travo da amêndoa, depois de ser árvore e flor. É indefinido o sonho e o fruto que é nele só.