Wednesday, October 26, 2016

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O mundo, como era dantes, esvazia-se a prumo, na desilusão ambígua do esquecimento, conhecido e aceite a todas as horas deste não querer saber. 

Olho ante o presente, penso em ti, no reencontrar-te que se faz tarde. Prontamente, porém, vem-me aquela sensação estranha e familiar de saber-te ausente deste mundo dos outros, que para ti deverá ser ainda mais risível e bacoco do que o era quando não era mundo dos outros, mas nosso, estranho e absurdo mundo, o nosso. 

Pensei em ligar-te, mas não sei o número. Como é que se liga para aí? É incrível como mais facilmente conseguiria falar com um estranho, qualquer, à distância fónica de nove dígitos e uns toques. 

Recorro por isso à memória, coisa que me vem assistindo mais do que aquilo que seria desejável. Nunca recordei tanto, acredita. Nunca vivi tanto ou senti tanto, parada, entre quatro paredes sólidas. 

A vida estreita-se-me, entranha-se-me nestas roupas que visto, nesta cabeleira imensa que são os meus sonhos e propósitos frustrados. 

Sente-se tão bem, vê-se tão bem esse apagamento, essa mutação das coisas, esta inconstância do que somos, segundo a segundo. 

Não deixa de ser aprazível sentir que não existo para os que me são presentes, assim como não existo para mim senão pela memória do que fui com os que foram densamente, intensamente, comigo. 

Cresci com pessoas que já não são aqui, caminhei e descobri por ruas que são fechadas, senti e amei por caminhos intransitáveis, fui feliz numa cidade que já não existe, com gente que não existe, com projectos e músicas que se não tocam já.

Talvez as coisas sejam mais fáceis para este mundo dos novos, mundo esse que codifica e descodifica a cada instante, de rosto voltado para objectos incipientes e estáticos. Talvez as coisas sejam mesmo mais fáceis sem o toque, sem a pulsação, sem a energia de ouro alguém que sente e existe e nos faz saber que a vida não é feita de plástico nem de filamentos nanométricos de materiais indefinidos. 

Contudo, e apesar da ilusão que nos consome, continuamos a ser carne, e osso, e trabéculas de sentires e afazeres íntimos, que se calam e fecham em tensão, porque, simples e absurdamente, não há interlocutor possível, não há resposta possível a não ser silêncio, de quem tão perdido quanto quem se sente perdido se volta ao contrário na cama e dorme.

Gostava tanto de conseguir falar contigo, aqui, agora, sempre. De ouvir-te novamente, mesmo que fosse para criticares a minha falta de conhecimento ou aquela permanente aplicação escassa. Sim, as cordas continuam a partir-se por falta de uso.

Mas não, neste mundo globalmente coarctado, não há número, nem telefone, nem carta, nem invenção alguma que me faculte o acesso a ti. Talvez para bem teu, sim, haja alguma positividade no afastamento.

Quem sabe, um dia, na ausência de tudo isso?